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Cultura e Mercado

Protagonismo feminino, uma necessidade!

Por Paula Caires

O mês de março acabou, mas a busca por mais igualdade e equidade da mulher na sociedade continua e no mercado audiovisual não é diferente. Apesar dos avanços conquistados ao longo do tempo, a trajetória ainda é longa.

Ilustração de Camila Rosa (@camixvx) para o More Grls (Crédito: Divulgação)

Ilustração de Camila Rosa (@camixvx) para o More Grls (Crédito: Divulgação)

No mercado publicitário, a discrepância também é evidente. De acordo com a consultoria de comunicação com as mulheres 65/10 (meia cinco dez), 65% das mulheres não se identificam com a maneira como são retratadas e apenas 10% dos criativos nas agências são mulheres.

Mas, como mostra a pesquisa do Meio & Mensagem sobre o tema, ainda que lentamente, cresceu o número de mulheres nas áreas de criação das grandes agências brasileiras. Atualmente, as mulheres correspondem a 26% do total de profissionais da área, considerando vice-presidentes, diretores de criação, redatores e diretores de arte. Em 2015, esse número era de 20%. No final de 2015, havia quatro agências com mais de 30% de mulheres na criação; agora são dez. Nas funções de liderança, a presença de mulheres era de 6% e subiu para 14%.

Como mostrou o estudo feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) no ano passado, dos 142 longas-metragens brasileiros lançados nas salas do País em 2016, apenas 19,7% desse foram dirigidos por mulheres brancas. Na questão racial, o cenário seguia profundamente desigual: homens negros assumiram 2,1% da produção executiva enquanto mulheres negras não assinaram nenhuma produção sozinhas, participando apenas de equipes mistas. Nas obras incentivadas com recursos federais, apenas 21% tinham mulheres na direção e 28%, no roteiro. O resultado, que só comprovou o que as mulheres já sentiam na pele, serviu de base para o Ministério da Cultura (MinC) anunciar o primeiro conjunto de editais do programa #AudiovisualGeraFuturo.

Com o trabalho de mulheres que unem forças e esforços para ajudar a mudar esse cenário, o mercado também trouxe iniciativas. Em uma parceria entre o Prêmio Cabíria e o FRAPA – Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre, a premiação lançou a categoria roteiros de piloto de série, mas com um diferencial: com protagonistas femininas, escritos ou co-escritos por mulheres. A organização também chegou a divulgar as 9 medidas simples para melhorar a representação feminina em roteiros, que evidenciam pequenos (grandes) reflexos da desigualdade desde o início das histórias. Dê nome aos seus personagens femininos, não descreva seus personagens femininos apenas com características físicas e dê voz e arco aos personagens femininos são algumas dicas.

Fruto de outra parceria, entre o grupo no Facebook “As Mulheres do Audiovisual Brasil” e a “Imprensa Mahon”, o “Prêmio Diadorim – Programa de Apoio a Roteiristas Mulheres” dará uma bolsa de estudos, oferecida pelo projeto Paradiso, para a roteirista vencedora fazer o curso “TV Writing Summer Intensive”, da Stony Brook University, nos Estados Unidos, no período de 10 a 21 de julho de 2019.

A mudança, gradativa, mostra seus reflexos nos lançamentos do ano no cinema e na TV, com o protagonismo feminino em produções audiovisuais de gêneros majoritariamente masculinos, como os filmes de ação. A estreia de Capitã Marvel nos cinemas, exatamente no dia 8 de março, não foi por acaso. Tem ainda a série animada de Carmen Sandiego na Netflix, Fênix Negra (Sophie Turner) no centro do novo filme da franquia X-Men, que ainda contará com mais mulheres fortes, como a Mística (Jennifer Lawrence) e a vilã misteriosa (Jessica Chastain). O empoderamento feminino estará também no discurso da produção. Na cena inédita exibida na convenção geek, Mística aparece questionando Charles Xavier (James McAvoy): “São as mulheres que sempre salvam os homens nas missões. A equipe deveria se chamar X-Women”.

A Disney já anunciou a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) nos filmes de Os Vingadores, há previsão da série original Batwoman, uma segunda temporada confirmada da série brasileira Aruanas – produzida pela Globoplay com quatro protagonistas (Camila Pitanga, Leandra Leal, Débora Falabella e Taís Araújo), Mulher-Maravilha 2 (previsto para 2020), a adaptação do anime Alita: Battle Angel, a personagem Agente M (Tessa Thompson) em Homens de Preto em MIB, Sarah Connor (Linda Hamilton) como foco na sexta história de Exterminador do futuro, além de Natalia Reyes, que dará vida a Dani Ramos, e Mackenzie Davis, que interpretará Grace, o reboot de As Panteras e a volta da jedi Rey para o Episódio 9 de Star wars.

O protagonismo feminino também tem presença em projetos desenvolvidos pela Roteiraria. Do total de 13 projetos em desenvolvimento com a colaboração de alunos, 11 têm mulheres no papel principal, sendo 10 séries e 1 filme. Na vida real, a Roteiraria escola – centro de formação de roteiristas para o audiovisual – as salas de aula têm o público quase que dividido, com predominância do público feminino: 50,3% dos alunos são mulheres e 49,7% são homens.

Outro exemplo é coletivo criado pela produtora Conspiração – o Hysteria, o nome vem de “Hystera” ou “Hysteros”, útero em grego e reúne conteúdos que não são, necessariamente, criados para e sobre mulheres, mas por elas. Também não por acaso, a produtora é comandada por uma mulher!

Como também já mostrou pesquisas, a simples presença de uma mulher em um cargo de comando já aumenta consideravelmente a proporção dos gêneros na equipe. O que corrobora mais uma vez para o fato de que o espaço das mulheres, realmente, só pode ser conquistado a partir do próprio protagonismo feminino nessa luta. Seja em frente às câmeras ou nos bastidores, cabe a cada uma abrir caminhos, portas, refletir e estimular a reflexão para a quebra de paradigmas e estereótipos tão enraizados em nossa sociedade histórica e culturalmente patriarcal.

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