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Cultura e Mercado

O que leva ao consumo cultural?

“Entender o consumo artístico depende, também, de compreender as ofertas artísticas”, afirma Gisele Jordão, sócia-diretora da 3D3 Comunicação e Cultura. “O bem cultural é o mediador entre produção e consumo. Se, na sociedade contemporânea, é no consumo que as pessoas se expressam e constroem sua identidade, sem olhar para o consumo o produtor não consegue entender a efetividade de seu bem.”

Doutoranda em comunicação e práticas de consumo na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), Gisele e a especialista em bens culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Renata Allucci são organizadoras da pesquisa Panorama Setorial da Cultura Brasileira – desenvolvida pela 3D3 em parceria com a MC15, realizada pelo Ministério da Cultura e Vale, por meio da Lei Rouanet -, que teve sua segunda edição lançada nesta semana.

Na primeira edição (2012), o foco foi produtores e patrocinadores – Cultura e Mercado publicou uma série de matérias com base nos dados (clique aqui para ler). Desta vez, a ideia foi compreender o consumo cultural do brasileiro e suas motivações, tendo em vista que entender o que faz o consumidor decidir por determinado produto pode revelar predisposições e perspectivas ainda não conhecidas pelo setor cultural. “A comunicação caracteriza-se como fundamental para o acesso à cultura e a compreensão do consumidor como premissa para se estimular o consumo. Este conhecimento – e interesse – no campo cultural parece (ainda) não ter importância”, avalia Gisele.

Pelos dados interpretados e de forma geral, o consumo de atividades culturais ainda é realidade distante da maior parte dos brasileiros. Por exemplo, quando perguntados sobre as práticas culturais realizadas fora de casa no último um ano, menos da metade dos 1.620 entrevistados pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), em 74 municípios das cinco regiões do país, respondeu ter feito alguma.

Entre os que disseram ter saído de casa para alguma atividade cultural, a maioria (42%) relacionou a prática religiosa. “Constatamos que a religião tem grande importância na formação de sentido para o brasileiro. Num certo ponto de vista, podemos dizer que ela ocupa boa parte das práticas sociais da população”, indica Gisele.

A segunda atividade mais citada foi ir ao cinema (38%), seguida por ir a restaurantes (34%), passear ao ar livre/no parque (30%) e viajar (25%). Em sexto lugar aparece ir a show popular (20%), em 11º teatro e em 14º frequentar museus e galerias (4%).

De pai para filho – A pesquisa constatou forte e decisiva influência familiar nos praticantes de cultura, sendo o inverso também verdadeiro. Ou seja, quanto mais incentivo ou exemplo familiar se tem, infinitamente maiores as chances de hábitos com a cultura.

Para o grupo identificado como “não-consumidores” (42%), que tem maior incidência de pessoas acima de 55 anos, com pais que tiveram baixa escolaridade – não tiveram estímulo dos pais para a práticas das atividades culturais porque esses não tinham hábito de praticá-las -, a religião supre a necessidade e o desejo de inclusão na sociedade. Esse grupo também se caracteriza por ter filhos com mais de 18 anos. Assistir programas de TV e ouvir rádio são as outras atividades que mais gostam e fazem.

Em outro grupo, denominado “praticante cultural” (10%), é onde aparece a maior incidência de pessoas que afirmam que os pais realizavam várias atividades, e muitas vezes estimulando diretamente seus filhos, como ler livros, revistas ou jornais, ir a shows, cinema, festas populares, teatro, museu e viajar, entre outras atividades. Eles possuem internet, TV por assinatura, celular, tablet e computador para uso próprio.

Outra conclusão do estudo foi que, quanto maior a proximidade dos indivíduos com práticas culturais, maior o interesse em ampliar seus conhecimentos por meio de novas atividades culturais. Ou seja, quanto mais consomem, mais ecléticos se tornam.

Quando se fala em aspectos motivadores para realizar alguma atividade cultural, 28% dos “não-consumidores” indicam que preferem as que proporcionam fortes emoções e sejam semelhantes a outras atividade que já costumam fazer, enquanto 17% dos “praticantes culturais” consideram esse cruzamento motivador. Já ampliar os conhecimentos e ser atividades diferentes das que já conhecem são motivadores para 42% dos integrantes do segundo grupo, contra 30% do primeiro.

Ter um preço bom aparece em segundo lugar nos fatores que influenciam no processo de decisão sobre a atividade a ser realizada entre os “não-consumidores”, enquanto que para os “praticantes culturais” esse fator aparece em quinto lugar. Ter conteúdo cultural que interessa aparece em nono lugar entre os do primeiro grupo; no segundo grupo está em quarto lugar.

Foi identificado ainda que a cultura e o conhecimento são fundamentais para o indivíduo se posicionar frente ao mundo e se integrar a ele, independente das adversidades. “É pelo conhecimento que o sujeito supera dificuldades, conquista o bem-estar e pode viver em coletivo. Verificamos que os indivíduos que são praticantes culturais cultivam valores orientados ao bem coletivo em harmonia com os individuais”, explica Gisele.

Em síntese, pode-se afirmar que o “praticante cultural” tende a ser um indivíduo mais equilibrado entre perspectivas individuais e coletivas. Mas mapear as barreiras psicológicas para o consumo cultural é um desafio que ainda fica.

Panorama Setorial da Cultura Brasileira pode ser acessado na íntegra no site panoramadacultura.com.br. Além dos dados qualitativos e das análises das organizadoras, há 15 ensaios de pesquisadores da área, nacionais e estrangeiros. Nas próximas semanas publicaremos outras matérias com base nos dados do estudo.

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