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Cultura e Mercado

Massimo Canevacci por Olgária Mattos

Professora de filosofia da USP, que participou do debate do lançamento do livro “Culturas eXtremas”, de Massimo Canevacci, comenta em entrevista exclusiva, o livro e o autor

O antropólogo Massimo Canevacci, um dos maiores expoentes do pensamento da cultura no mundo autalmente, convidou Olgária Mattos, Sergio Bairon e Leonardo Brant, para um debate em torno do lançamento de seu livro “Culturas eXtremas”, editado pela DP&A.

A partir desse encontro, Cultura e Mercado convidou Olgária Mattos para abrir um relato exclusivo sobre Canevacci e sua obra:

1. Por que o pensamento de Massimo Canevacci é tão importante para desvendar a nossa sociedade?

Massimo Canevacci possui uma laurea em Antropologia sobre a Escola de Frankfurt. Por isso, como de resto os intelectuais formados em humanas na Europa, tem conhecimento das línguas clássicas e obras clássicas em literatura em filosofia. Como antropólogo interessou-se sobre antropologia da família, organizou textos e uma introdução que reconstitui a pluralidade das relações de parentesco nas sociedades ocidentais, orientais e nas nativas (ou ” selvagens” no sentido de Lévy-Strauss). Antropoligia do Cinema, onde trabalha a questão do sagrado na dimensão da imagem, Antropologia do indivíduo, São Paulo, a cidade Polifônica, pois encontra na nossa metrópole diversas lógicas e uma recepção ao híbrido, ao sincrético, ao heteros(as diversas alteridades no interno de cada um), etc. Seus trabalhos se voltaram também para os movimentos dos jovens, movimentos ” alternativos”, maio de 68 e 1978 sobretudo sua importância na Itália, etc.e mais recentemente “Culturas eXtrmas”.

2. Como avalia a importância de Massimo Canevacci?

Canevacci é um autor cujo pensamento é extremamente rigoroso e “ousado”, não teme as pressões acadêmicas conservadoras e repetitivas que transformam as tradições em repetição átona e sem sentido para o mundo contemporaneo onde não se recenhecem mais as categorias institídas de espaço público, partidos, sindicatos, espaço privado, democracia, etc, nos termos convencionais.

3. Em sua opinião, quais as principais propostas apresentadas no livro Culturas eXtremas?

O livro trata das diferentes expresões das culturas nas grandes metrópoles, estas entendidas como um corpo tatuado onde é preciso reconhecer seus sinais, suas feridas, suas inovações. Culturas eXtremas diz respeito também a culturas “extremadas”, isto é, a um só tempo dos extremos e que não se esgotam em um fim, são “inacabadas”, “incompletas” no sentido da liberdade de acréscimos, dissiminações, polinizações, etc. Para tratar de temas novos, ainda não incorporados inteiramente e disicplinados no pensamento universitário tradicionalista, sua linguagem é seu método, é experimental, de onde o X em letra miúsclula, a indicar o “X” da questão, a incógnita que não se resolve como em uma equação, na qual o desconhecido é remetido á dimensão do já conhecido, o que siginfica não haver propriamente incógnita. Já o X canevacciano é aquele que, como um analogon do enigma grego suscita diferentes interpretações, não há um sentido único, exclusivo e excludente de outors, até porque Massimo procede à créitica do princípio de identidade, A=A, mesmo que o conteúdo dessa fórmula seja falso ou inexistente, uma vez que só se preocupa com a fórmula da identidade. Massimo fala de uma identidade dissidente de si mesma, que não é sedentária nem preguiçosa, mas em diáspora, prismática, multicolorida e de significações que não necessariamente se encontram nos enunciados lógicos ou categoriais, mas prefeerencialmente fora delses, nos corpos, na moda, nas marcas no corpo, na maquiagem, no desejo que sucitam os autômatos ou as bonecas, seres unheimilich, porque o inorgânico mais próximo do orgânico, o inanimado que nos confunde com o animado provocando um sentimento perturbante e desestabilizador e que seduz na contemporaneidade. Massimo analisa o fetichismo alargando o conceito tanto marciano quanto o freudniano, através de sua interpretação das mercadorias como tendo, cada uma delas uma biografia.

4. Como foi o encontro com Canevacci por ocasião do lançamento da obra?

As idéias inovadoras dizem respeito ao método que não é dedutivo, demnostrativco, das evidências habituais, mas o da surpresa, do inesperado. Crítica da unicidade em nome da polifonia, das identidades nacionais em nome do misturado e híbrido, dos cruzamentos das diferentes culturas metropolitanas na época dos grandes deslocamentos provocados pelas guerras e pela globalização e que, se não se tratrar de aculturações corsárias e violentas, sincretizam-se (se harmonizam mantendo e alterando semelhanças e diferenças).

6. Você tem conhecimento do próximo trabalho de Massimo Canevacci?

Massimo está escrevendo um belíssimo ensaio sobre Benjamin e Adorno: o “estupor da realidade”, mas não sei como vai ficar o título em português. O ensaior mostra de maneira inédita o que diferenciava a criava conflito no pensamento de Adorno contra o de Benjamin, que normalmente vê nas críticas de Adorno a Benjamin ” falta de marxismo” na interpretação da metrópole e das personagens que a habitam, como jogadores, flêneurs, prositutas, homens-sanduíche, etc. Massimo ressalta os aspectos do pensamento de Beenjamin no que diz respeito à sua interpretação do marxismo associando – ao expressionismo e ao surrealismo. Deve escrever também sobre os Funerais Bororo e as relações entre o vivente e os mortos, o mundo dos espíritos, o que pode aproximar também sua análise das que realiza para pensar as fantasmagorias e espectros das imagens unheimlich nas metrólopis. Assim, o “arcaipo” -os Bororo e o moderno -a matróple- apresentam temproalidades simultâneas e entrecruzadas. Animismo e totemismo, espectros e fantasmagorias não recebem ponderações valorativas como o atrasado e o moderno mas a ambivalência das formações culturais.

Jorge Vasconcellos