Cultura e Mercado

Jornalismo Cultural

A repórter de Cultura e Mercado proclama: “Grandes momentos da história da arte e da cultura tiveram os meios de comunicação como porta-vozes, desde os tempos em que o jornalismo cultural era um produto partilhado por poucos, assim como a própria arte”

Se a arte é a expressão da sociedade em seu momento histórico, a história do jornalismo cultural está entrelaçada a esta mesma dinâmica, pois interfere no acesso e na divulgação dessas mesmas expressões. Grandes momentos da história da arte e da cultura tiveram os meios de comunicação como porta-vozes, desde os tempos em que o jornalismo cultural era um produto partilhado por poucos, assim como a própria arte.

O jornalismo cultural se configura como um produto cultural, e deve ser autocrítico para preservar sua qualidade, de ser crítico, plural e às vezes lúdico, mas, acima de tudo, não se espelhar nas mesmas premissas do jornalismo tradicional que se alimenta do imediatismo e da superficialidade. O Jornalista Daniel Piza define como “crise de identidade” esta a tentativa de ser objetivo e superficial, assim como as outras sessões, e ao mesmo tempo, de se fazer da arte e da cultura, reflexivo e abrangente.

Diante das últimas transformações no jornalismo contemporâneo, do mercado cultural e da Indústria Cultural como um todo, que atitudes as mídias podem adotar para que se desenvolva um jornalismo cultural de qualidade? Não se trata de um retrocesso aos moldes do que se fazia nos tempos do Pasquim ou da época de ouro da Ilustrada e do Caderno 2, muito menos de ir além das possibilidades do jornalismo atual, ao contrário, significa admitir a demanda por um jornalismo cultural plural e livre das atitudes consolidadas que o limitam, onde não só o peso intelectual e a abrangência temática do passado devem ser lembradas, mas também os espaços originados pelas novas mídias (principalmente a Internet), que buscam cada vez mais a variedade de idéias e linguagens a respeito da cultura.

A sua própria essência – a cultura, sob a ótica da diversidade, revela-nos o equivocado vínculo do jornalismo cultural com a objetividade e o imediatismo, menos agressivos ao jornalismo político, por exemplo.  Apesar do espaço reduzido nas seções de cultura, o jornalista cultural, para Piza,  precisa buscar este espaço em favor da qualidade e não para conveniência de se produzir o óbvio. Com esta atitude, o jornalismo cultural pode se alimentar da Indústria Cultural de forma positiva, sem causar indigestão e nem ser digerido por ela. “Mesmo em tempos de demagogia com o leitor, a imprensa não vive sem autores que sejam capazes de informar e interpretar, isto é, de formar as pessoas de modo que elas sejam desafiadas a ter opinião própria, a ter uma curiosidade conseqüente, a dar valor às armas do espírito”.

O entretenimento permeia a atualidade, e nele, o valor primeiro de um produto cultural de provocar e dialogar, não é alcançado nesta relação de superficialidade. Não existe aí um sentido maior ao conteúdo artístico, senão, o de atribuir a um outro discurso, um status, ou ainda, uma aparência. A indústria cultural, hoje, revela-nos uma tensão constante entre culturas tradicionais e uma lógica global, onde ambos se nutrem, se impõem, gerando assim uma identificação do público com valores regionais que afirma a diferença e o pertencimento, paralelo ao sentimento de interação com essa lógica global. Esta tensão do local e do global se configura nos conteúdos da mídia, sob a lógica do entretenimento e das novas tecnologias, as quais exercem impactos no “fazer jornalístico” e seus conteúdos nas mídias tradicionais como os jornais impressos.

Para Muniz Sodré, este fenômeno se configura como “um mosaico variado de narrativas”. Entretanto não é raro que os meios de comunicação revelem, vez ou outra, expressões artísticas de valor inéditos, criativos e persuasivos. Na maioria das vezes, essas exceções são regidas por propostas alternativas, suscitam uma quebra de padrões e estéticas estabelecidas.

Mas essa divulgação de produtos culturais pelo jornalismo na atualidade vem servindo de suporte ideológico e parcialidade política, afirma Daniel Piza. Diante da edição, análise, hierarquização, comentários e análises das notícias, da influência nas escolhas dos leitores e sua opinião, “a imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e das tendências que o mercado valoriza por seus interesses, e o dever de olhar para as induções simbólicas morais que o cidadão recebe”.

Maira Botelho


Leave your comment here