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Cultura e Mercado

Dilemas da curadoria

“Ser contemporâneo é estar preso a um paradoxo e, ao mesmo tempo, estar aberto a conflitos e desafios”, afirmou nesta quinta-feira (4/9) o escocês Charles Esche, durante o III Seminário Internacional ARTE!Brasileiros – A Arte Contemporânea no séc. XXI.

O evento aconteceu no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. No mesmo parque, começa neste sábado (6/9) e segue até 7 de dezembro a 31ª Bienal de São Paulo, da qual Esche é curador. Ele relacionou o processo curatorial com as contradições inerentes à questão que abriu o seminário: o que é ser contemporâneo?

A 31ª Bienal, contou o curador, foi pensada em cima de quatro conceitos: conflito, coletividade, imaginação e transformação. Por isso foram convidados artistas que retratassem, em instalações, fotos, pinturas e filmes, temas atuais. Esche já declarou que a arte deve ser democrática e não deve ficar confinada em galerias ou submetidas às leis do mercado.

As relações entre arte e mercado, por si só, ainda são vistas como conflitos e um dos principais desafios a serem enfrentados pelos curadores no mundo contemporâneo. Nesta semana, além da abertura da Bienal, São Paulo viu a pré-abertura de uma outra grande exposição internacional, “Made By… Feito por Brasileiros”, que reunirá 91 artistas – metade deles nacionais – no antigo Hospital Matarazzo, na região da Avenida Paulista.

Fechado há cerca de duas décadas, o local será transformado em um grande complexo de turismo – com hotel de luxo e restaurantes – e arte, segundo o grupo francês Allard, que comprou o espaço em 2011. Em uma área de 27 mil metros quadrados, deve ser instalado um Centro de Criatividade, que incluirá salas de cinema, estúdios de produção para filmes e música, além de salas para o desenvolvimento de artesanato e moda.*

Para o artista plástico Traplev, o projeto de exposição no antigo complexo do hospital é “um símbolo da gentrificação de luxo do Brasil”. “O que eles fazem para legitimar o projeto onde será construído um hotel de luxo e um shopping? Produzem uma exposição de ‘arte contemporânea’ com recursos públicos de mais de R$ 12 milhões, para durar apenas 40 dias”, provoca.

Arte x mercado – Traplev foi um dos selecionados deste ano para o Laboratório Curatorial da SP-Arte, um espaço para formação de curadores jovens, sob o comando de Adriano Pedrosa. Sua expectativa ao se inscrever para o projeto era justamente poder provocar e realizar uma crítica reflexiva dentro do circuito e do mercado de arte. “Eu atuo como artista desde o início dos anos 2000 e sou editor da publicação recibo, de artes visuais, que já distribuiu mais de 60 mil exemplares gratuitos. Não estou vinculado diretamente ao mercado de arte de galerias, feiras e etc, minha atuação sempre foi paralela a esses contextos”, conta.

Foi a primeira vez que Traplev teve contato com uma feira de arte. “Fiquei admirado com a quantidade de capital de giro envolvendo vários agentes, desde o moto-táxi, passando pelos moldureiros, montadores, recepcionistas etc.”, lembra. Mas considera que sua expectativa foi atingida. “A exposição que montei teve uma ótima repercussão. Foi compreendida como uma vírgula de respiro e reflexão crítica para aquele contexto meio caótico e chique da feira. E o que me interessava era justamente isso: focar em questões de linguagem, de conceito, de história, de estética, entre outras questões sociais pertinentes para a prática artística, que não só o seu valor de mercado.”

José Augusto Ribeiro, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, acredita que tem havido uma “financeirização da vida”, com a economia ditando muitas escolhas, e a arte obviamente tem participado disso. O mercado altera a forma como a arte aparece no jornal e como os trabalhos são adquiridos para a coleção de um museu, por exemplo. “A expansão de mercado contribui. Nunca tivemos tantas galerias em São Paulo, tantos espaços de exposição, tantos artistas e militantes de arte. As coisas vão muito bem e muito aquecidas pelo mercado. O contraste é que parece que cada vez tem mais público e, ao mesmo tempo, o lugar público que a arte ocupa está restrito a questões extra-artísticas, que são as econômicas”, analisa.

Nesse sentido, um desafio dos curadores hoje em dia, para Ribeiro, é montar um quadro pertinente à teoria e à história da arte. “Talvez uma tarefa seja devolver relevância a essas disciplinas e armar um debate para a agenda pública”, diz, refletindo que o espaço da crítica de arte migrou para a figura do curador, hoje uma figura muito responsável pela visibilidade e circulação de determinados trabalhos. “O compromisso do curador deve ser com o trabalho de arte, mas hoje ele faz parte, é influenciado e influencia o mercado.”

O desaparecimento da crítica de arte nos meios de comunicação também é apontado pelo professor Martin Grossmann, coordenador do Fórum Permanente: Museus de Arte entre o Público e o Privado, como um fator para o empoderamento do curador no circuito da arte. “A gênese da curadoria está dentro de um momento da história, na década de 1960, na Europa, quando os curadores transitavam muito mais entre os museus e os espaços alternativos. A relação com o mercado vai se fortalecer a partir dos anos 1980/90. É quando a cultura, no Brasil, deixa de ser ornamento e quando a política pública entende que a cultura é economia. A globalização tem um efeito muito marcante na conceituação do que é arte e o que é cultura. E a economia acaba formatando o curador”, afirma.

Entender o seu papel diante dessas dimensões, desse campo cultural mas que também é econômico, é um dos principais desafios dos curadores hoje, segundo Grossmann, e entra no âmbito da ética. “Por exemplo, um curador que dá assessoria a uma galeria e também para espaços públicos de arte faz o mesmo trabalho para o mercado privado e para o público. Ele não pode ser ingênuo diante disso, ou irresponsável”, defende.

Para o professor, o curador, assim como mediador, como um gestor cultural, como um educador, precisa estar atento às características dessas condições. “Ele precisa estar bem informado sobre tudo isso e, ao fazer a mediação, alertar o público diante dessas contradições.”

Na abertura do III Seminário Internacional ARTE!Brasileiros, o diretor do Instituto Itaú Cultural, Eduardo Saron, levantou outra questão que os curadores encontram hoje em dia: a desconstrução da curadoria frente aos novos formatos de construção colaborativa. Um debate que, segundo ele, ainda não tem respostas.

*Cultura e Mercado enviou para a assessoria do grupo Allard uma série de perguntas referentes ao novo espaço cultural da Cidade Matarazzo, mas fomos informados que ainda não estão sendo divulgados detalhes a respeito. Em nota, foi dito que o projeto de revitalização do Hospital Matarazzo ainda está em processo de aprovação na Prefeitura de São Paulo e no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Por enquanto, a “invasão criativa” – como prefere chamar o curador Marc Pottier – “Made By… Feito por Brasileiros” tem previsão de ficar aberta de 9 de setembro a 12 de outubro.

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