Cultura e Mercado
  • Um Senador nu

    Nota de esclarecimento:

    16254054231_cffff95368_zO Museu da Obscenidade Brasileira (MOB) informa que a performance “Um Senador nu”, largamente deturpada pela crítica e pelo público, encontra-se em apresentação diuturna na grande Mostra Panorâmica da Política Brasileira.

    A sala de exibição não é bem uma sala, é todo o território nacional. Seguindo os parâmetros adotados pela curadoria do MOB, a nudez do senador não tem nada de artístico, mas tem muito de pornografia grotesca e indigesta, sobre o que estão bastante informados os espectadores, desde os mais castos até os menos sensíveis.

    A obra “Um Senador nu” deriva da instalação pós-verdadeira, intitulada “Tchau querida”, que conta com a assinatura de congressistas diversos e outros bichos, historicamente reconhecidos por suas proposições pornográficas interativas.

    É bom não esquecer, por muito pouco o Senador em questão não deu ensejo a uma performance com direito à faixa presidencial… Se bem que essa é uma preocupaçãozinha dos domínios da arte. Na prática, a faixa não faria diferença alguma nem representaria qualquer obstáculo à expressão pornográfica, sobretudo em nosso Museu, onde o obsceno arreganha as pregas em qualquer parede. Basta aludir à serial produção de obras valiosíssimas, já constantes de nosso acervo, por exemplo, o soneto “Tem que manter isso, viu”, do mais interino dos poetas.

    Quanto à recepção dos espectadores, importante ressaltar que a suposta inconstitucionalidade da decisão do Supremo sobre o afastamento do Senador nu é fruto de desinformação e deturpação do contexto. O MOB vê com especial alegria essas interações do público, até mesmo porque a simples menção a ideias tão fora de moda como “constitucionalidade” não poderia provocar senão o gozo.

    As piruetas argumentativas em defesa do mandato, executadas com precisão tanto pelo público que entra pela direita quanto pelo que se situa mais à esquerda, completam o caráter asqueroso da performance, elevando-a ao patamar de Pornografia com “P” grande e grosso.

    Lamenta-se apenas algumas tentativas pontuais de interpretação racional da performance “Um Senador nu”. Isso estraga não só o feitio degenerado da obra, mas também procura refrear o ódio e a intimidação tão vibrantes em nossos dias – pequenas peças que terão certamente espaço em nossas galerias futuras.

    Sobre a participação de crianças na Mostra, sim, tragam todas. Elas não só são bem-vindas, como é até obrigatória sua presença. Também não cabe exagerar no decoro. Fica a nossa moção de parabenização a todos os adultos que carregaram consigo suas crianças nas passeatas recentes da História. A obscenidade do presente será o seu maior legado.

    Portanto, não ousem esconder as criancinhas. O Senador promete: aquela que tocar o seu excelentíssimo corpo ganhará um doce; a que degustá-lo, dois. Se o segundo doce não for assim tão agradável quanto faz crer a promessa, fica ao menos a lição. Todos têm que se acostumar ao gosto acre da vida desde cedo.

    O MOB acredita no engate plural como modo de convivência no ambiente pornográfico.

    Atenciosamente,

    A Direção

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

     

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