Cultura e Mercado
  • Sim a corpos derivados


    “Propriedade intelectual é o petróleo do século XXI”. Certa vez ouvi essa frase. Não me lembro bem quem é o autor. Ao longo desta reflexão tentarei trazer à tona questões que estão me inquietando ultimamente e que emergem ao tomar como ponto de partida certas produções artísticas contemporâneas.

    Iluminar essa produção nos traz no mínimo questões a refletir. Questões sobre memória, autoria, identidade, criação e re-criação; além da possibilidade de através delas refletirmos sobre as questões atuais de direitos autorais utilizando o próprio campo artístico para se pensar o campo das políticas culturais.

    Tanzkongress (Congresso de Dança), Hamburgo, Alemanha, 2009

    A platéia inteira se levanta, algo não comum entre os europeus, para aplaudir um jovem dançarino equatoriano. Seu nome: Fabian Barba. Seu trabalho: A Mary Wigman dance evening. Barba elegeu nove peças curtas da expoente da dança expressionista alemã para reencená-las em seu próprio corpo. Mais do que a re-encenação em um corpo masculino, abordando questões de gênero, trouxe consigo também questões principalmente políticas. Em sua palestra Re-enacting Mary Wigman, Barba disse que se aproximou da dança expressionista alemã, pois em seu país só existia esse tipo de corrente. Algo simples, mas que o levou a pensar: “O presente do Equador em dança será sempre o passado da Europa?” Barba, portanto foi atrás de suas próprias raízes, procurou a Mary Wigman Gesellschaft (Associação que cuida dos direitos de Wigman) e conseguiu permissão para remontar esses solos. Como não havia nenhum material gravado, apenas fotos e recortes de jornal da época, Barba, assim como um arqueólogo, juntou vestígios de luz, figurinos, gestos, intenções e movimentos e se fez tais perguntas: quão livre pode ser uma re-encenação? O que muda ao trazer isso para o meu corpo, de estudante de dança contemporânea, hoje? A partir daí reproduziu em seu corpo solos apaixonantes que levaram Irene Sieben, ex-aluna de Mary Wigman a declarar em sua palestra Past with Future: “Quando o vi em cena pela primeira vez, pensei: Nossa é ela! Se Mary Wigman ainda estivesse aqui, também estaria apaixonada por Fabian Barba.”

    Neste mesmo congresso, outra importante companhia de dança contemporânea alemã, a Sasha Waltz & Guests, através de seu dramaturgo Jochen Sandig, trouxe as seguintes questões: Será que o próprio corpo não poderia ser o lugar do registro da dança? Será que um repertório não poderia ser o arquivo vivo da dança? Levando-se em conta a questão polêmica de registrar o efêmero em dança, seria viável uma companhia de repertório que remontasse trabalhos cruciais da dança contemporânea? Seria possível companhias trocando repertório entre si?

    O dramaturgo, como o próprio nome da companhia demonstra, que já trabalha com a idéia de chamar convidados para construir trabalhos compartilhados, ficou surpreso ao receber um grande “não” da platéia. Platéia talvez a mesma que aplaudiu Fabian Barba. Alguém se manifestou: “Sou contra isso, o que acabou, acabou, não há porque remontar, fora que a remontagem pode estragar o trabalho original, ficar ruim, provavelmente o coreógrafo original não iria ficar muito feliz, pois são outros bailarinos, outros corpos, e como ficariam os direitos autorais?” Sandig respondeu: “E se o próprio coreógrafo concordasse?”

    Acervo Mariposa

    Influenciada por essas idéias e no momento à frente de um projeto que tenta pensar e construir um Acervo em dança copyleft, amparado pela licença Creative Commons me pergunto: Como a noção de “propriedade intelectual” é aplicada às artes do corpo?

    Poderia entrar aqui no âmbito de como aprendemos os movimentos, ou como um bailarino aprende e re-interpreta em seu próprio corpo um movimento proposto por outra pessoa. De quem seria a autoria do movimento, do coreógrafo ou dele? E quando há criações colaborativas? São indagações pertinentes quando se pensa autoria em dança, mas gostaria de me concentrar em um foco: a obra em si. Ou melhor: poderia a noção de “obra derivada” ser aplicada às artes da cena?

    Explico melhor a idéia do termo obra derivada: Creative Commons é uma ferramenta internacional de licenciamento de obras intelectuais, onde o próprio autor decide como sua obra pode ser utilizada por terceiros e escolhe quais licenças melhor se adaptam ao seu trabalho, sendo que em todas elas, a propriedade intelectual (autoria) é sempre preservada. “Ao invés de todos os direitos reservados, alguns direitos reservados”, esse é o lema do Creative Commons. O Acervo Mariposa trabalha com sua licença mais restritiva: Atribuição – Uso não comercial – Não a obras derivadas. Optamos por este conjunto de licenças, pois trabalhamos com registros de dança, vídeos no caso, e o “Não a obras derivadas”, não nos permite, por exemplo, editarmos esses vídeos; mas ao mesmo tempo esta licença nos permite fazer cópias do original e exibi-las, emprestá-las, doá-las, realizando um trabalho de difusão de vídeos e informação em dança nunca proposto por um Acervo.

    Saindo do contexto do registro de uma obra, e voltando para a obra em si. Será que poderíamos pensar em “Sim a obras derivadas” a partir de uma obra cênica? Ao pensar a questão de obra derivada, me apoio no conceito de “apropriação”, tão caro às artes plásticas, mas que no campo da dança, apesar de algumas iniciativas, ainda não paramos para pensar sobre isso.

    Artes plásticas

    No campo das artes plásticas, o termo apropriação geralmente se refere ao uso de elementos emprestados na criação de uma nova obra. De Georges Braque e Marcel Duchamp a Kurt Schwitters e Jeff Koons, os elementos emprestados podem incluir imagens, formas ou estilos da história da arte, da cultura popular, ou materiais e técnicas de um contexto não- artístico, até cotidiano. Desde os anos 80 o termo também se refere mais especificamente quando se é citado a obra de outro artista para se criar uma nova obra. Bem antes dos anos 80, Marcel Duchamp colocou bigodes na Gioconda [Mona Lisa], 1503/1506, de Leonardo da Vinci (1452 – 1519), criando uma nova obra, um obra derivada, o ready-made – L.H.O.O.Q. (1919). Será que Duchamp poderia ser processado por violação de direitos autorais?
    A apropriação como procedimento artístico coloca em pauta questões da originalidade, da autenticidade e da autoria da obra de arte, questionando a natureza da arte e sua definição. Quem é o autor quando a artista francesa Sophie Calle convoca 107 mulheres para re-interpretar uma carta que recebera de um rompimento amoroso?

    “Recebi uma carta de rompimento.
    E não soube respondê-la.
    Era como se ela não me fosse destinada.
    Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”.
    Levei essa recomendação ao pé da letra.
    Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
    para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
    Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
    Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
    Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
    Uma maneira de cuidar de mim”[1]

    Dança e Performance – mais dois casos

    Em 2006 aconteceu um encontro em Viena, Áustria que se chamava Wieder und Wider – Apropriações Performativas em Dança e Artes Visuais. O encontro trazia a questão de como performances podem ser re- encenadas e como isso tem aumentado e ganhado atenção na dança e artes visuais. O encontro se propôs a mais do que reconstruir eventos passados com a série de performances apresentadas, promover debates e palestras que discutiam possibilidades e métodos de apropriação crítica em cada um dos trabalhos.

    Além de muitos artistas, estavam presentes a coreógrafa americana Yvonne Rainer e o coreógrafo francês Xavier Le Roy. E o que esses dois artistas têm em comum? Ambos montaram suas versões para a famosa obra de Nijinsky/Stravinsky “A Sagração da Primavera”, assim como já o haviam feito Marta Graham, Angelin Preljocaj, Maurice Béjart e Pina Bausch. O objetivo do encontro foi pensar uma discussão diferenciada na maneira de lidar com a idéia e a prática dessas re-encenações. Que tipo de dinâmicas sociais geraram tais ações artísticas? O ato consciente de apropriação torna a lacuna entre o original e sua re-interpretação visível, abrindo a perspectiva de re-avaliar tradições, lidar com a memória, re- performar, performar novamente e ir contra o fluxo.

    Em artigo publicado no site Idança: Performance e re-encenação: uma análise de Seven Easy Pieces de Marina Abramovic, o crítico de arte e professor da PUC-SP Fábio Cypriano nos conta um pouco sobre este instigante trabalho da artista/performer sérvia Marina Abramovic. Em 2005, Abramovic reencenou seis performances consideradas seminais na história da arte de artistas como Bruce Nauman, Vito Acconci e Joseph Beuys. Para Seven Easy Pieces, a performer estabeleceu um posicionamento ético para a recriação das performances em cinco mandamentos:

    • Peça permissão ao artista
    • Pague o artista pelos direitos autorais
    • Realize uma nova interpretação da peça
    • Exiba o material original: fotografias, vídeo, objetos
    • Exiba a nova interpretação da peça

    Para Cypriano: “Pensar a performance e as possibilidades de mantê-la viva, não só através de documentos, mas por meio de sua própria re-encenação é um dos desafios que se colocam para artistas, historiadores e críticos, atualmente.” Observa ainda que o trabalho de Abramovic, mais do que um trabalho que pensa a ética da recriação, ele é uma performance em si, que discute o próprio conceito de performance.

    Memória

    O que muda? Quais as questões que temos que pensar, ou repensar, quando queremos trabalhar com memória, reproduzir esta memória através do próprio corpo? Pois o corpo é a questão vital para as chamadas artes cênicas vivas, como a performance, a dança e o teatro. Quantas vezes não escutamos que o corpo é o instrumento de trabalho de um dançarino, ator ou performer?

    Não há como olhar os casos acima sem pensar que as idéias de memória, criação e autoria estão emaranhadas entre si.
    Pensar a memória é um ato político. Podemos estar no mundo de diversas maneiras através da memória. O que isso nos diz da maneira que estamos criando hoje e concatenando informações? A maneira como lidamos com as informações, e mais precisamente hoje como o excesso delas na rede, tornando-se referência e gerando conhecimento, muda a maneira de pensar e criar?

    “Pensar a memória como um ato político é situar-se em uma relação entre seu presente e um passado móvel – não um passado congelado, mas um passado que propõe muitas interpretações, e não apensa uma versão.” [2]

    A memória ao longo do tempo sofre desvios, é transmitida com mudanças e rupturas, pois suportes não são apenas meios de se conservar a memória e sim de reelaborá-la. A partir de um momento que esse suporte é o próprio corpo, não tem como escapar desse paradoxo: ela será transportada, reinventada, reconfigurada e porque não dizer: obra derivada.

    Notas
    [1] Sophie Calle em: Catálogo da Exposição Cuide de Você, SESC SP, Associação Cultural Videobrasil e Museu de Arte Moderna da Bahia, 2009.
    [2] Jerusa Pires Ferreira, Doutora em ciências sociais pela USP e professora de pós-graduação da PUC-SP.

    Referências
    FERREIRA, Jerusa Pires. Da tradição oral à tecnologia da informática. In: Memória e Cultura: A importância da memória na formação cultural humana. Organização de Danilo Santos de Miranda. São Paulo: Edições SESC SP, 2007.
    LESSIG, Lawrence. Free Culture: How big media uses technology and the law to lock down culture and control creativity. USA: Penguin, 2004.

    Links
    www.tanzkongress.de
    www.busyrocks.org – Fabian Barba
    www.wigman.de
    www.sashawaltz.de
    www.acervomariposa.com.br
    www.creativecommons.org.br
    www.sophiecalle.com.br
    www.mumok.at/programm/archiv/performance/performance-2006/wieder-und-wider-performance-appropriated/
    www.idanca.net – Performance e re-encenação: uma análise de Seven Easy Pieces de Marina Abramovic, por Fábio Cypriano publicado em 02/09/2009.
    www.seveneasypieces.com

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    Comentários

    1. DTC disse:

      Ótimo artigo, trouxe questões novas pra minha cabeça, nunca antes pensadas. Parabéns e obrigada pelas reflexões.