Cultura e Mercado
  • O Chão de Saturno

    Já que nenhuma boa e instruída alma se arrisca à semelhante missão, assumirei a defesa de Temer, o que naturalmente desafia a barreira do possível.

    14134555678_ca312a213f_oSei que poucos terão lido a última denúncia, embora seja altamente recomendável como literatura para futuros vestibulares. Salvo alguns equívocos resultantes da afoiteza do aprendiz de arquearia, o Procurador-Geral, o documento traz uma narrativa tão exata que golpeia ainda mais a instituição da Presidência da República – e olha que, do jeito que está, golpes maiores só são concebíveis pela ficção científica.

    De minha parte, agarrei nessa leitura por orientação médica. O caso é o seguinte: fui acometido de uma insônia crônica desde que, há um mês, tomei conhecimento de que a sonda Cassini-Huygens havia sido condenada ao mergulho fatal na atmosfera de Saturno. Esse final, meticulosamente planejado pela NASA e consumado na última sexta-feira, só eu e o céu das noites sabemos o que me custou aceitá-lo.

    A insônia se prolongou de tal modo que a ida ao médico fez-se indispensável. Em menos de cinco minutos de conversa, patinei sobre um anel de gelo e desemboquei na minha queixa de todos os dias, a Câmara dos Deputados. Agora dei para isso… Sem quê nem para quê, saio de órbita. Dispensável fez-se a medicação e fui devolvido aos travesseiros, com uma dica apenas: que abandonasse as leituras sisudas antes de dormir e adotasse “hábitos mais terrestres”.

    Tiro e queda para o bom sono – segundo receita pessoal do médico –, seria alguma história policial, dessas levinhas, em que se sabe de antemão, o mordomo é culpado. Gostei da ideia. Foi assim que mergulhei num chão insólito, a leitura da segunda denúncia criminal contra Temer.

    Há de tudo ali, toda a gênese do quadrilhão do PMDB, o modus operandi para a arrecadação de propina, a lista de órgãos públicos saqueados, a soma do prejuízo, o ponto de encontro do quadrilhão. Tudo revelado pelos grampos da Polícia Federal. O então Presidente da Câmara, Eduardo Cunha conclamava os demais: “Jaburu. Vem pra cá”. “Michel chamou fulano?” E lá iam todos: Geddel, Loures, Henriquinho, Joesley. “Não se identificou na portaria? Que ótimo!”.

    Como podem verificar, a presente crônica é prova cabal de que, mesmo seguindo a orientação médica, não consigo pregar o olho. O problema reside no hibridismo da denúncia. Para meu azar, não é apenas um caso de polícia; tem também um tom de opera bufa, comédia de erros e história de terror. Tudo isso junto não só desperta ainda mais os meus nervos como também, agravando a insônia, baldeia-me para uma náusea violenta. Os giros foram tantos que dei comigo mais uma vez trepado no cangote da sonda interplanetária.

    Lançada no espaço sideral há exatos vinte anos, a Cassini-Huygens entrou na órbita de Saturno para cumprir uma missão nobre: mapear o ambiente do planeta, a composição dos anéis, a rotação dos satélites, todas essas coisas que o PMDB tem feito desde que passou a orbitar o Poder. A diferença é que a sonda ficou 13 anos nessa função; o PMDB está há muito mais tempo.

    E aqui faço a defesa de Temer. Disparando raios a torto e a direito (principalmente a torto), como nas guerras estelares, o Procurador-Geral quer fazer crer que o quadrilhão do PMDB tem origem na era Lula, organizado precisamente para a eleição de Lula, em 2002. Mentira e injustiça. A isso equivaleria chamar Temer de moleque, coisa que, sua tez prova, ele não é. Vida longa à meritocracia! As saturnais do quadrilhão são mérito próprio, do PMDB, esses titãs da experiência, dados a colar em qualquer astro que encontrem pelo caminho, desde que sintam o faro graúdo.

    Impulsionado que sou pelo fascínio das missões extraterrenas, acabei pousando sobre acervos antigos da grande imprensa. Extravagâncias de uma jornada insone… Minha intenção era colher as expectativas gerais quanto à viagem da sonda Cassini-Huygens, no exato dia de sua partida, 15 de outubro de 1997. O que encontrei foi outro tipo de sondagem… “O PMDB se movimenta”, adverte uma coluna do Primeiro Caderno da Folha de São Paulo.

    Reproduzo aqui a primeira frase da coluna, essência de um passado que veste tão bem o presente: “O PMDB, partido cuja morte foi anunciada diversas vezes, continua a se movimentar em relação ao quadro eleitoral do ano que vem”. Adiante, aparece uma fala do então Presidente da Câmara, vejam quem!, Michel Temer: “Acho que até dezembro é possível fazer a convenção. O partido está no governo e seria ético tomar uma posição o mais rapidamente possível”.

    Até os dias atuais, não foi apurado por qual cavidade a palavra “ético” penetrou aquele discurso, milhares de anos-luz distante da conduta propriamente dita. O que se sabe é que os peemedebistas precisavam convocar uma convenção nacional para decidir se firmariam aliança para a reeleição de FHC (ele próprio dissidente do PMDB) ou se arregaçariam as mangas em candidatura própria.

    Sem a certeza da vitória pró-FHC na convenção, o resultado foi: enrolaram até as eleições de 1998, apoiaram FHC na base do conchavo, mantiveram ministérios e, ao final, emplacaram a coligaçãoGrande Aliança (PSDB-PMDB), derrotada por Lula. Só depois, muito depois – a sonda Cassini-Huygens nem sonhava ainda com a própria queda em Saturno –, ou seja, só em 2006, ano da reeleição de Lula, é que o PMDB, escaldado e bem vivo, entrou na base do governo. Roda mundo, roda gigante, eis a aterrissagem de Temer – eterno suplente –, sobre a cadeira da Presidência da República, usando e abusando dela, com apoio dos tucanos, a quem promete devolvê-la em 2018.

    Tudo isso a céu aberto e eu, aqui, de olho grelado.

    Passo à varanda e procuro Saturno. Em que estado estarão os destroços da Cassini-Huygens neste exato momento? O mais bonito na trajetória da sonda é sua ética sideral. Alçou voo com brilho próprio, cumpriu a missão designada e, depois de muitos giros, despedaçou-se no chão de Saturno. Anéis, gases, tempestades. Em Saturno, o chão não é bem um chão. No Poder, os anéis são de fuligem.

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

     

    Berlim, segunda-feira, 18 de setembro de 2017.