Cultura e Mercado
  • Lembranças ao meu cágado

    Querido Moacir,

    antecipo essa carta por causa das notícias que ouvi no rádio – e, claro, se eu for esperar você me escrever, morre o burro e quem o tange.

    14231914254_cf700dbeb1_zPor aqui, tudo na paz. Houve até um episódio recente, não sei se você acompanhou o caso Yücel. Lembra daquele jornalista preso pelo governo turco? Pois é, foi libertado. Desembarcou ontem mesmo, em Berlim. Chegou tão sem alegria, nem parecia livre… Francamente, tem gente que não sabe mesmo dar valor à liberdade. Você nem deve ter tomado ciência. O seu mundo é tão distante, suas preocupações tão outras…

    Falando em liberdade, sei muito bem onde você foi brincar o carnaval, viu! Não negue. Sua carapaça encharcada de álcool, você lá no Aterro do Flamengo, a cabecinha projetada em meio aos foliões. Eu reconheço de longe esse seu humor coberto de lantejoulas. Ah, Moacir… você, não tem igual! Entra ano e sai ano, a mesma cantilena. Diz que não liga para samba, mas é roncar a primeira cuíca e lá vai ele! Nisso, é virado num raio.

    Mas eu queria mesmo era dizer outra coisa. Imagine você o susto que eu tomei ao ouvir no rádio, de sopetão – com direito àquela abertura musical das notícias bombásticas –, que o presidente brasileiro baixou uma intervenção militar no Rio de Janeiro. Não, Moacir, você não pode imaginar o tamanho do susto. Nunca, jamais, em hipótese alguma eu poderia cogitar que o presidente brasileiro trabalhasse em pleno carnaval! E não só ele. Até o prefeito carioca, fiquei sabendo, esteve aqui, por essas bandas, trabalhando também. Nem as autoridades germânicas são assim tão diligentes… Como o Brasil mudou! E com que velocidade.

    Eu sei que você, na sua lerdeza, demorará a compreender o todo da situação. A essa altura, sua cabeça não estará só lenta, mas também mamada de uísque e batucada. Seu semblante deve ser um apagão só. Meu único receio, pequeno cágado, é que você, nessa sua ingenuidade democrática, vá meter pelo beiço afora as suas costumeiras perguntas. Já fico aqui antevendo a sua cara, quando o torpor passar… Mas quem é esse no comando da seguranca pública do Rio? Terceirizaram até isso? Por que atacam os efeitos do problema e não a causa? Quem foi que elegeu esse interventor? E a democracia? E o voto popular?

    Ah, Moacir! Meu Moacir!

    Por essas e outras, envio essas breves palavras como quem envia uma bula: não há nada, rigorosamente nada, de espantoso no caso. Na verdade, essa intervenção dos militares e, sobretudo, esse novo regime de competências eram até imprescindíveis. É o desdobrar natural dos acontecimentos. Examine cá comigo. Trocaram o presidente para erradicar a corrupção. Cumprida a tarefa, agora é preciso erradicar a violência. Não parece lógico? E sobre o voto popular, ora, se nem mesmo o presidente em exercício teve esse luxo, por que um general precisaria disso? É assim que se faz a república dos sem voto: um puxa o outro pelo rabinho. Dentro em breve, todo o território nacional estará em mãos firmes.

    Portanto, Moacir, economize a energia do espanto para as horas realmente escuras que ainda estão por vir. Falo isso não por agouro, mas tão-somente porque quero o seu bem, meu quelônio. Sobrevindo o pior, faça uso de suas prerrogativas naturais, meta-se num braço d´água qualquer e suma. O principal é perder de vez a ilusão e abandonar essa mania de ficar num canto tramando táticas de desobediencia civil. O tempo de desobedecer já passou. Olha o exemplo da Turquia.

    Aproveito ainda para fazer uma advertência que, claro, não será compreendida agora, talvez no futuro, mas guarda-a de todo modo: mais traiçoeira do que a bala perdida é a endereçada. Maiores detalhes não dou, para ir me preservando também…

    Ah, e já que o futuro está aí, vê se aperta o passo e me escreve uma palavrinha até o pleito eleitoral, se é que haverá um. Havendo e, na pressa, caso tenha que escolher entre os correios e a urna, escolhe a urna; nunca se sabe se haverá outra oportunidade.

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

    Berlim, segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018.

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