Cultura e Mercado
  • Juridic Park

    Minha normalidade na infância era tão pronunciada que, como qualquer garoto dos anos noventa, tinha verdadeiro fascínio por dinossauros, sem deixar, claro, de considerar injusto não ter nascido na época deles. Decorrência dessa mania e do sentimento de injustiça, nada mais natural do que sedimentar em minha cosmovisão o espetáculo omnipresente das ossadas; às vezes imaginárias, outras nem tanto.

    4558809565_9f9e1099e1_zNem é preciso dizer – justamente por isso, vou logo dizendo – que aqueles tempos foram embalados por romances com dentes afiados e muita escama. Michael Crichton, célebre autor do gênero, era meu cobertor, meu prato e meu parque.

    Lembro vivamente da cena antológica em que um tiranossauro pintava o caos. O ataque, responsável por deflagrar a sina de todos os personagens e a minha particular agonia, era bem mais sanguinolento e sombrio no romance do que no filme ulterior, embora o resultado viesse a ser exatamente o mesmo: corpos em pedaços, gritaria, aço retorcido, lama, muita lama.

    Caso não esteja assim tão familiarizado com a cena, tenha aprendido a achar natural a tirania dos lagartos, não tenha sido criança nos anos noventa, ou simplesmente não tenha sido criança, convido-o a tomar parte desse que foi, e na verdade ainda é, um desastre alucinante.

    Aqui é o parque. Cenário tropical. Noite. Chove a cântaros. Suponha que você é uma criança. Está dentro de um veículo parado ao lado de uma cerca de aço. À maneira de proteção, a cerca deveria estar eletrificada, mas já não corre força pelos cabos. Tremores de impacto. Por detrás da cerca, o escuro e o rugido aterrorizantes. Por detrás do rugido, as verticais toneladas de um réptil descomunal, rei dos tiranos. Absoluto, o monstro estoura cabos de aço com os dentes e avança para o passeio. É o que basta. A destruição começa agora.

    A cada linha, lembro, meu coração ofegava, eu fechava o livro por alguns instantes, abria-o novamente, deixava o monstro avançar na minha direção. Já adulto, muito tempo depois, fui procurar naquelas mesmas páginas antigas o coração de criança, algum resquício, um fio do meu cabelo preservado numa sequência especialmente eletrizante. Encontrei o tédio, que me obrigou a saltar aquelas páginas tolas, até topar com a marca sutil, quase rupestre, de uma impressão digital. Era o vestígio de uma transpiração fossilizada, uma emoção impossível de recriar.

    Hoje, embora igualmente fatais, os monstros são de outra natureza – nada fascinantes, abomináveis apenas. Sendo ainda livre a imaginação, de lúdico resta o exercício, pelo qual renovo o convite.

    Aqui é o parque. Melhor. No lugar do parque, imagine um país tropical. Noite permanente. Chove a cântaros. Suponha que a cerca de cabos despedaçados é a Constituição da República. O veículo, a cultura. Eclipse de todas as faculdades sãs, ele já não pode transportar as novas gerações a parte alguma. Seus avessos estão revirados, as rodas para o ar. Corpos presos nas ferragens. Democracia liquefeita. Lama, muita lama. O réptil descomunal, clone da tradição autoritária, horrendo em aparência e forma, soberano pelo mero uso da força, movido a sangue frio, tangido por atentas e gélidas pupilas, abala daqui para acolá, distribui o terror. Ele está solto, ele estraçalha, ele desmantela, ele tem comparsas, ele governa. Desgoverna.

    Interessante notar que, no parque da minha infância, os seres pré-históricos haviam sido recriados por manipulação genética. No parque do presente, as monstruosidades sobrevêm por manipulação jurídica. O que deveria ter sido, em ambos os parques, apenas um passeio para animar os sentidos de poucos, converteu-se numa das mais destrutivas sequências de ação da história. É que não se recriam seres do passado, livrando a carne das mandíbulas do presente.

    Assim como os dinossauros da ficção, os do presente, embora recriados, não fazem jus ao status de autênticos. Nas veias de uns e de outros corre sangue de outra classe de seres, sangue anfíbio, essas feras de vida dupla, capazes de habitar as locas mais sinistras para depois subir a terra.

    Sem deixar de ser jurássico, o parque hoje é jurídico. Leio incisos e alíneas constitucionais, como quem escava letra morta – mais que morta, extinta. Descubro fósseis, estruturas extraordinárias, de cujos músculos vivos ainda fui contemporâneo. Aquele fragmento ali, por exemplo, que tanto lembra um pé, foi o Ministério da Cultura. EXTINTO. As vértebras, adiante, ainda esguias como cínicos partícipes adormecidos teriam sido o Supremo Tribunal Federal. EXTINTO. Bem à direita, certamente peça de futuros museus, o crânio jaz revolvido por alguma ação violenta, e esse crânio não é senão a própria Presidência da República. EXTINTA.

    Um meteoro vacila em minhas ambições: ora uma hipótese de caso fortuito, ora uma prece para o futuro próximo. Sem dúvida, a cadeia da extinção em massa dará trabalho aos escavadores do futuro. Será o trabalho, espero, de espátulas mais dóceis. Daí a necessidade de resgatar os horrores lúdicos da infância. Antes, bastava deitar a página para ganhar fôlego e perseverar na história. No futuro, será preciso perseverar no fôlego e deitar na História para ganhar a página.

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.