Cultura e Mercado
  • Estupor

    Se você estiver num reality show e, bêbada, deitar com um colega de confinamento, para depois acordar nua, cercada por mil câmeras, não terá sido estupro. Se você estiver no morro e, grogue, for parar numa casa abandonada, para depois acordar sangrando, cercada por pistolas e fuzis, não terá sido estupro. Se você estiver num ônibus e, desatenta, recostar a nuca no assento, para depois acordar imunda, encurralada por um pênis desconhecido, não terá sido estupro.

    3974126149_09657fb7e6_zO pesadelo é recorrente, assim como a negação da conduta criminosa.

    Há um esforço enraizado para que tudo se reacomode no alívio de um esquecimento coletivo, abrindo-se espaço para o novo caso da nova vítima de uma nova coisa que, veja bem, não se sabe exatamente definir, talvez isso, talvez aquilo, mas não, não exageremos, estupro, não. A palavra é desagradável e chocante.

    Exatamente com essa justificativa, “desagradável” e “chocante”, o termo foi riscado dos relatórios policiais de Colônia. Naquela ocasião, segundo as autoridades competentes – quase todos homens, diga-se de passagem –, o que houve seria “um fenômeno inteiramente novo”; isso, claro, para os padrões alemães. Que fenômeno seria esse?

    Música bombando, cerveja a dar com o pau, tudo parecia conspirar para que mais de mil homens, agindo em grupo, dessem azo ao impulso geral. Cheiro de celebração do ar. De repente, pareceu uma ideia muito normal e até mesmo excelente fazer um corredor humano na saída do metrô, enquanto mulheres que por ele passavam eram submetidas a todo tipo de amasso. Dedos magnetizados por orifícios, línguas e quadris no ritmo das necessidades baixo-corpóreas.

    Pois bem. O que parece a descrição do carnaval de Salvador foi, na verdade, o réveillon de 2016 em Colônia. Ataques semelhantes foram registrados também no norte e no sudoeste da Alemanha, regiões que haviam recebido grande número de refugiados, em sua maioria homens de procedência árabe e africana.

    À revelia do que prescreve a lei penal alemã, para a qual toda conduta sexual sem consentimento pode configurar estupro, houve excepcional cautela na abordagem do caso. O intuito das autoridades tinha duplo objetivo: em primeiro lugar, impedir que se alastrasse pelo país um sentimento xenófobo que viria muito a calhar aos extremistas de direita; em segundo lugar, pretendia-se compreender em que medida o “fenômeno” – leia-se, a barbárie –, seria resultado de um choque de mentalidades.

    Em parte, percebe-se o acerto de todas cautelas como uma resposta civilizatória, já que a conduta não dizia respeito à condição daqueles homens enquanto refugiados, mas sim à condição daqueles refugiados enquanto homens. Se, por um lado, migravam de países destruídos pelas guerras e pela miséria, trajando muitas vezes apenas a roupa do corpo, por outro, carregavam em si muito de um estofo interior, difícil de despir, uma cultura. Nesse ponto, está o equívoco em não se alardear com todas as letras o nome do “fenômeno”.

    A necessidade de falar em cultura do estupro é premente. Para além da verdade contida na expressão, empregá-la é também um modo político de se posicionar frente à luta do movimento feminista.

    A palavra “estupro”, derivada do latim stuprum, significa vergonha pública, desonra. Judicialmente, assume, desde cedo, o sentido de desonra causada por ato de violação com o intuito de subjugar o outro. A carga sexual, agregada de maneira inarredável ao sentido moderno do termo, advém do estado em que a vítima fica após ser submetida: o estado de estupor, choque, pasmo.

    Embora as autoridades alemãs, pelas aludidas razões, tenham riscado a palavra “estupro” dos relatórios públicos, nas discussões mais reservadas ninguém minimiza o que aconteceu em Colônia. Sem vista para o Farol da Barra, sem direito a abadá, a descrição apropriada do que houve naquele réveillon em Colônia é: estupro em massa. A propósito, anotem, a história da humanidade é a história de um estupro em massa. A compreensão das bases de construção do masculino sobre os destroços do feminino é o primeiro passo civilizatório numa sociedade que se quer civilizada.

    Anote-se também que a cultura do estupro não se restringe a um determinado grupo ou classe social. Por exemplo, se você for deputada federal e ouvir de um colega, também deputado, que você, “sua vagabunda”, por ser “muito feia”, “não merece” ser estuprada por ele, nesse caso, tão logo passe o estupor, você pode e deve recorrer à Justiça.

    Entretanto, nem sempre a Justiça acerta; aliás, ultimamente os acertos são, com folga, sobrepujados pela quantidade de erros. Dessa verdade, tira-se uma certeza. As próximas gerações de mulheres devem ser educadas por suas mães para encontrarem socorro em si mesmas, apenas em si. Não se trata de gritar pelo coleguinha, pelo namorado, pelo pai, pelo vizinho, nem pelo Estado. É partir do princípio que ela não encontrará socorro em parte alguma. Devem ser educadas para o enfrentamento, inclusive físico. E quando falo de enfrentamento físico, estou partindo, com autoridade, da lógica masculina – sou um homem falando sobre o tema; como homem, sei dos homens o que esperar.

    Numa sociedade em que a própria mecânica do sexo torna-se expressão de dominação de um sujeito pelo outro, ejacular em público, dentro de um ônibus, no rosto de uma passageira, tende a ser visto pelo legislador e pelos aplicadores da lei – mais uma vez, em sua maioria homens – como atitude de “menor potencial ofensivo”. Quer-se que assim seja. Esse querer é, indubitavelmente, uma vontade masculina. É uma maneira de mitigar culpas particulares que, nós, homens, sabemos muito bem quais são… A legitimação de tais culpas passa por um registro cultural e, assim, mantemo-nos imaculados, distantes daquela monstruosidade, aquela conduta abjeta que só o outro pratica: o estupro.

    Quem enxerga a ejaculação não consentida de um homem sobre o corpo de uma mulher, em contexto tão inimaginável quanto indefensável, como conduta de “menor potencial ofensivo” não entende de ofensa, nem de potência, nem menos ainda da indignidade em toda a sua gradação.

    Naturalizar o horror de tal conduta não é menos hediondo do que a conduta em si. É surpreender, é subjugar ainda uma vez mais. É reduzir uma específica mulher, sujeito de direitos, a mero canal, pelo qual se envia um recado a todas as outras. Com esta mão, ofereço o papel higiênico, com a outra, esguicho a obscenidade da régua masculina que dá a medida dos direitos. E o que deveria ser passageiro converte-se, perante a Justiça, em permanente. Permanentes, estupro e estupor. O “R” salta antes do ponto; as mulheres, também.

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

     

    Berlim, segunda-feira, 04 de setembro de 2017.

    Tags:, ,