Cultura e Mercado
  • Em se plantando, tudo dava

    Basta um contraponto hoje em dia para ser acusado do que até Deus duvida. Como Deus já não duvida de coisa alguma, fui acusado de quem duvida de Deus… Em outras palavras, fui chamado de comunista.

    14114889_1374063552621304_1112442364821171945_oQue, do pé para a mão, eu virasse comunista, até aí, estamos às ordens. A grande surpresa é que, numa gradação fantástica, a própria Der Spiegel – pelo fato de ter publicado a matéria –, fosse acusada de comunismo.

    Feito um cálculo de cabeça, somados todos os quadrantes do mundo ocidental, o triângulo Rio/São Paulo/Curitiba é o único onde ainda se fala em comunismo num tom de ameaça premente. Além desse fenômeno, há outros que ultrapassam as raias da anomalia e descambam direitinho para o sobrenatural. É a sina dos triângulos enigmáticos… O das Bermudas, por exemplo, fica no chinelo; a ciência, se já não encontrou para ele todas as respostas, encontrará um dia. No caso do Brasil, a certeza é que as charadas tendem a se multiplicar e a rodopiar, tragadas afinal pelo buraco negro de todas as capacidades cognitivas.

    Como a Der Spiegel, fundada por oficiais do exército britânico durante a ocupação dos Aliados em solo alemão pós-Segunda Guerra, poderia ter inclinação comunista, ninguém me explicou. Que tivesse vários de seus jornalistas banidos pela DDR (antiga Alemanha Socialista) e escritórios fechados, durante a década de 70, nada disso vem ao caso. Que a própria Der Spiegel, desde sua fundação, alertasse contra os perigos do comunismo, inclusive no Brasil, para que mexer nisso?

    Ora, que graça teria a crônica sem uma notinha de época?

    Pulga de Flohmarkt, encontrei os dez primeiros exemplares da revista e comprei-os de olhos abertos e nariz tapado. Não sei se foram os espirros ou outra coisa, meus olhos ficaram logo marejados ao me deparar, já no terceiro volume, com a primeira notícia da Der Spiegel sobre o Brasil, publicada em 18 de janeiro de 1947. E qual era o tema? Qual poderia ser? Não é preciso perguntar uma terceira vez. O tema era crise: “Kaffeeland in der Krise“ (País do café em crise).

    O “café”, no título, seria apenas uma maneira de apresentar ao público alemão esse país, então desconhecido, chamado Brasil, “18 vezes maior do que a Alemanha de 1937”, cujas eleições iminentes despertavam “especial tensão” entre observadores americanos. O medo reinante era o “grande progresso” que os partidos comunistas vinham fazendo “em toda a América Central e do Sul”.

    Embora, até aquele momento, “em nenhum país” tivessem tomado “o poder formalmente”, afirma a revista, os partidos comunistas na América do Sul “representam aos EUA uma ameaça maior do que os partidos nacional-socialistas ou fascistas”.

    Na disputa em curso pelo poder, a revista cita a conservadora UDN e os Integralistas, “esse partido fascista”, “ainda não totalmente organizado”.

    As duas forças aparecem como opositoras à central figura de Getúlio Vargas que, embora tivesse sido destituído “há pouco mais de um ano”, é denominado como “um Poder” em si, o qual, acrescenta a revista, “dificilmente alguém no Brasil poderá negar”. Destaca-se o amplo apoio da população trabalhadora, conquistado por Vargas “por meio de suas leis sociais durante seu governo”, e que o “comportamento” de Getúlio “mostra que ele está se esforçando para aumentar sua influência” e para “ao menos desempenhar nos bastidores um papel determinante”, afinal “ele tem conexões em todos os lados”.

    Não sei se me acompanham… mas será o espelho dos tempos?

    O “tácito apoio” de Vargas a Prestes e ao Partido Comunista é sublinhado. E o desfecho do artigo ganha atmosfera amedrontadora: “Embora hoje a imprensa brasileira seja 95% anticomunista, embora as forças armadas e a Igreja sejam nitidamente anticomunistas, é de se admitir que os comunistas aumentarão consideravelmente seus votos nas eleições presidenciais”.

    Fecha-se o círculo.

    No país do café, o comunismo tornou-se o nó górdio desse círculo que nos faz pensar estarmos sempre diante da mesma velha notícia. É uma assombração histórica que nunca apareceu de fato, mas que todos dizem tê-la visto – e, justo onde, antes no Catete, hoje em Brasília!

    Em 2017, “ainda não há uma imagem clara da situação política”, como já não havia em 1947, segundo a Der Spiegel. Mas algumas coisas mudaram. Além de tudo o mais que, no país do café, anda em baixa, a cafeicultura vive seus piores dias. Pela primeira vez, em mais de 300 anos de história de plantio, o governo interino em exercício viu-se na iminência de importar café. Baixou-se até uma portaria, houve barulho, gabinetes fervilhando e – como já é marca registrada – um passo para trás.

    No último minuto foi suspensa a importação de 1 milhão de sacas. O motivo da reviravolta não tem a ver com um prognóstico positivo, mas sim com o medo da importação de pragas… Como se em qualquer parte pudesse haver pragas mais daninhas do que as já alocadas em solo nacional.

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

    Berlim, segunda-feira, 28 de agosto de 2017.