Cultura e Mercado
  • Desceu à mansão dos mortos e lá ficou

    Acontecimentos de ordem profana animaram a semana santa. Um deles, sem qualquer destaque nos jornais e noticiários – ocupados que estão com listas apocalípticas –, chegou-me ao conhecimento por intermédio de um antigo companheiro da escola secundária, o qual, em meio à crise econômica, largou a carreira de analista de mídias sociais por uma figuração na tradicional Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém.

    5501640495_1c77838e7b_zAviso desde logo, o caso tem lances pouco verossímeis e até absurdos, o que de maneira alguma afeta a veracidade dos fatos. Em matéria pia, o ideal é adotar o procedimento das Escrituras: fabular mais e explicar menos – eis a fórmula para evitar qualquer mancha sobre o manto da credibilidade. Enfim… Já estou explicando muito! Vamos a Gólgota.

    O ocorrido deu-se na pré-estreia da Paixão. O clima só podia ser de alegria, já que comemoravam cinquenta anos de crucificações ininterruptas – somando-se a essas também os ensaios, é possível facilmente empurrar a contabilidade para a casa do milhar. Sabe-se lá se a avalanche numérica exerceu algum efeito sobre o ator que representava Cristo, se ele efetivamente incorporou a rebeldia da personagem ou se era apenas mais um artista brasileiro sendo tragado por uma crise de esgotamento, o certo é que ninguém compreendeu a atitude pouco cristã de evadir-se do tablado, justo na cena mais desejada, a que o protagonista entrega as costas ao peso da cruz e dos chicotes.

    Assim como o script bíblico pede um Cristo, o evento em Nova Jerusalém pedira a presença do ministro da cultura que não perderia a chance de fazer sua habitual pregação sobre a normalidade democrática dos tempos atuais. Além dele, estavam presentes autoridades do mais alto gabarito e, caso estranhíssimo, embora tivessem cacife para tal, ninguém lançou a mais singela palavra para livrar do calvário o filho de Deus – aconteceu exatamente o oposto.

    Consumadas as conhecidas humilhações da condução coercitiva, seguida do desprestígio público, além do vai-e-vem perante as jurisdições de Herodes e Pilatos, percebeu-se, os olhos de Cristo ganharam de repente um brilho indócil que a todos confundiu pela dureza com que despegaram do céu promissor e caíram sobre os fiéis.

    De veneta, Cristo abandonou as marcações, desceu os degraus e, como uma noiva destrambelhada, jogou-se no colo do ministro da cultura. Pouco acostumado ao caco, o ministro chamou-o à regra:

    – Volte a seus julgadores, meu filho! É um script de dois mil anos! Eles sabem o que fazem…

    Com desamparo no olhar, Cristo soltou uma gargalhada que não está escrita sequer nos evangelhos apócrifos. Cabeças trocaram acenos interrogativos. Desconfiado de que o riso em si é uma forma de protesto contra o governo em exercício, o ministro da cultura não esquentou o canto e arriou Cristo no chão.

    – Será um adversário político? – sobressaltou-se o ministro.

    Bem, fosse outra categoria de adversário, sacaria do gogó, quem sabe, outra categoria de resposta, contudo, em se tratando do próprio Cristo, só haveria um meio de pará-lo.

    – Tragam a cruz!

    Trouxeram a cenográfica, mas o ministro exigiu uma de verdade, o que não foi difícil de providenciar. Em alta no mercado, cruzes, açoites, cravos, coroas de espinho, todas essas formas de controle da rebeldia vêm sendo ressuscitadas, o que garante mais paixão nas trajetórias artísticas atuais. Quanto aos espectadores, o ingresso pela hora da morte, era isso mesmo que eles queriam ver: morte – uma morte, claro, esteticamente apreciável, seguida por uma redenção, de preferência, pacífica e, se calhar, cheia de luz, uma luz especial calibrada por dezenas de projetores.

    O resto não é preciso dizer. Que Cristo foi achincalhado, fustigado e pregado na cruz, nada disso chega a ser uma novidade. O elemento novo é que o próprio ministro da cultura arrogou-se o dever de orquestrar o desfecho do espetáculo; tarefa pela qual faria jus à medalha comemorativa do cinquentenário. O ministro martelou os punhos de Cristo com tanta vontade e tanta verdade – com efeito, a dor, a agonia e o sangue eram verídicos –,   que quando Cristo tentou, já sem resultado prático, retomar o texto, dando sua derradeira fala “Pai, perdoa-lhes, porque…”, o ministro não admitiu a intromissão:

    – Cale a boca! Essa estultice e esse histrionismo estão com as horas contadas!

    Considerando que até agora o IML de Caruaru, para onde o corpo do ator foi levado, não noticiou qualquer sinal de ressurreição, é preciso encerrar a crônica. Fica em suspenso o desenlace do caso, mas não a defesa do ministro, que apenas fez o que fez para cumprir a palavra das piores profecias.

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

     

    Berlim, segunda-feira, 17 de abril de 2017.

    * Detalhe da obra Retábulo de Issenheim do pintor alemão Matthias Grünewald

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