Cultura e Mercado
  • Delate-se, Camaleão

    Prezados, resolvi aderir à moda. Delatar-me-ei a mim mesmo naquilo que me é mais particular em minha pessoa. Desculpem a enfática redundância, mas autodelação é assim: o próprio dedo apontado para a própria cara tem a ênfase que dedos de terceiros jamais terão.

    aaaAlguns conhecem o caso, portanto, antes que sobrevenha o vazamento, adianto o relato da verdade; e se é para dizer a verdade, toda ela – aprecio muito a verdade e sua inteireza –, ninguém ficará aborrecido se, antes de tudo, fizer aqui o registro de três palavrinhas conceituais que julgo de primeiríssima ordem.

    1.    Delação: relato espontâneo das faltas alheias, decorrente de intenções até boas, mas em geral traiçoeiras, vingativas, mera patifaria, sem que o interlocutor tenha necessariamente interesse nos fatos narrados.

    2.    Delação premiada: relato compulsório das faltas alheias, decorrente de acordo judicial/inquisitório por meio do qual o delator almeja vantagens, benefícios, privilégios concedidos por autoridades necessariamente interessadas – às vezes, para lá de interessadas – nos fatos narrados.

    3.    Autodelação: relato fortuito das próprias faltas, decorrente de ato falho, negligência, oportunismo, conchavo, soberba, burrice, jactância, incúria, certeza da impunidade, grampo da Polícia Federal, além de outras causas capazes de chocar a consciência das autoridades, de interlocutores, de terceiros, ensejando o interesse de todas as pessoas nos fatos narrados.

    Superada essa passagem, digamos, quase dogmática, passo agora aos fatos que animam verdadeiramente a crônica. Peço, no entanto, uma pequena gentileza dos leitores – e a era virtual permite certos pedidos: vasculhem os arquivos da Folha de São Paulo, do Estadão, as capas publicadas no dia 09 de agosto de 2005… Pensando melhor… Não, não percam tempo com essa busca… Melhor não… É sempre um desgaste, um trabalho… Posso muito bem descrever a fotografia que, naquela data, ganhou todas as manchetes.

    O cenário é a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O que aparece é uma multidão de homens de terno, câmeras fotográficas e, no centro, o hoje ex-presidiário Roberto Jefferson. À esquerda, o perfil plácido, juvenil, quase fleumático de um estudante universitário, no exercício divertido de rasgar um saco de lixo, cheio de bagaços de laranja, sobre a cabeça do então excelentíssimo deputado. Os expressivos bagaços voam.

    Como nenhuma lei vigente admite esse tipo de manifestação, verdadeiro arroubo de cidadania empírica – leia-se, atirar o lixo no lixo –, é possível considerar aquele estudante um fora-da-lei, merecendo ele, como de regra, as penas adstritas.

    Admito: o fora-da lei na fotografia era eu.

    Admito também o que a fotografia não mostra e os jornais noticiaram errado. Aqueles ovos atirados contra o deputado e os gritos de “bandido!” também partiram de mim, não de outras pessoas. A verdade é que armei esse circo sozinho. Numa ação praticamente coreografada, fiz-me onipresente. Corrompeu-me uma paixão, a ideia de criar, perante a imprensa, a imagem de hostilidade generalizada no Largo São Francisco. Colou.

    Coincidência ou não, a partir daquelas manchetes, Roberto Jefferson foi só queda, apesar da tietagem de alguns. Ele acabava de lançar uma tendência que os noticiários atuais iriam confirmar: a idolatria dos corruptos delatores. Refratário a essa tendência, tratei de homenageá-lo à minha maneira, de sorte que não posso deixar de reconhecer no jovem que fui um juízo categórico acerca dos corruptos delatores.

    O corrupto, porque delata, não se torna arauto da verdade. A razão é simples: ele não entende o alcance da palavra “verdade”; seu habitat natural é a mentira. E justamente por ser esse seu habitat, hora ou outra, mete os pés pelas mãos, as mãos pelas algemas e, havendo no horizonte o brilho da chave libertadora, estirará a língua na direção que o melhor aprouver.

    É esse o problema de prêmios vinculados a delações: faz-se sempre necessário sopesar a palavra de corruptos na qualidade de delator. O corrupto é um mentiroso crônico. Se, livre, sem que tenha sido impelido para ela, acomoda-se à mentira, preso, coagido a mentir, e sob promessa de um prêmio, por que é que se aferraria à verdade? Não se aferraria, como não se aferrará. Dar credibilidade à mera palavra de um delator premiado é como lamber uma lixeira falante que se gaba da própria salubridade.

    Caso muito diverso é o do autodelator, cuja tromba têm outro eco e outro feitio. Daí a necessidade de distinguir o que o obscurantismo procura misturar no mesmo saco. A palavra do autodelator, atuando sempre em prejuízo dele mesmo, tem peso e autoridade. A mensuração do peso dá-se justamente pela extensão das palavras, posto que o relato fortuito revela uma verdade que, de largada, deveria estar escondida. Exemplos hipotéticos: a compra de silêncio de corruptos presos ou a alusão ao eventual assassinato de comparsas, além de outras ameaças à ordem pública, tudo isso revela não só a sujeira, mas também a periculosidade do delator de si mesmo. É sua própria palavra, não a de um terceiro, que atesta o crime e depõe sobre sua índole.

    Digo isso com conhecimento de causa, pois a ideia da crônica é justamente fazer o que fiz, uma autodelação. Agi premeditadamente. Enganei a imprensa. Adulterei a verdade. Manipulei a opinião pública. Fui corrupto. Não que o gesto de atirar laranjas e ovos na cabeça de Roberto Jefferson comprove minha inclinação para um comportamento reprovável, mas é fato que sem ovos, laranjas e gritos, não haveria manchete.

    Se, à época, preocupavam-me eventuais retaliações acadêmicas, hoje estou convicto da impunidade, o que não me agrada nem desagrada; permaneço apenas tranquilo – e isso faz de mim um legítimo corrupto. Sofrendo minha reputação algum tipo de revés, faço uso dos meus atributos mais íntimos. Sou um camaleão, como todo bom autodelator. Mudo de cor, reviro o arco dos olhos, atiro a língua em outro rumo. Apelo até para razões ficcionais, se for o caso. Trepo rapidamente no púlpito da indignação e reafirmo minha honestidade. Sempre haverá a opção de negar tudo, dizer que não vi, que não sei, que não fui eu… E não fui mesmo! Podem trazer a foto de jornal, podem trazer o diabo, nego tudo! Por enquanto, mudemos de assunto.

     

    Antonio Salvador é escritor e PhD-Candidate em Direitos Culturais pela Humboldt-Universität zu Berlin. Escreve a coluna “O Coice” às segundas-feiras.

     

    Berlim, segunda-feira, 22 de maio de 2017.