Cultura e Mercado
  • Cultura do automóvel


    Desisti do carro há quase 3 anos. A decisão veio acompanhada do desligamento do serviço de telefonia celular, da TV por assinatura e de uma reforma alimentar que eliminou produtos industrializados, carne, café e bebida alcoólica dos meus hábitos. Um processo de desintoxicação, que visava, acima de tudo, expurgar os males da civilização. Queria me proteger da sociedade de consumo – e do espetáculo. 

    Sob forte inspiração de Gandhi e influência direta de Lia Diskin, da Palas Athena, posso resumir minha busca numa palavra: práxis. O mal estar da pós-modernidade havia se materializado em mim de forma irreversível e concreta por meio da incoerência absurda entre o que penso e o que faço.

    Weber já apontava para essa interdependência entre o nosso comportamento como gerador daquilo que nos aprisiona. “Somos assombrados pelos monstros que criamos”, reforça Edgar Morin referindo-se ao imaginário social construído pelas religiões e, sobretudo, pela mídia. Sair dessa lógica, no entanto, é bem mais difícil e complexo do que simplesmente abrir mão dos fetiches, dos instrumentos de representação – e de coerção – já arraigados nos modos de vida dessa sociedade.

    Há duas semanas fui convidado a abrir um seminário sobre educação para o trânsito e mobilidade urbana, na Unicamp. Ali, tentei fazer uma conexão direta entre a cultura do automóvel e a indústria cultural. Parti da minha experiência pessoal, das mudanças provocadas no meu dia-a-dia, mas sobretudo pelo imbricamento entre o tecnologismo capitalista, aqui representado pelo automóvel, como seu símbolo supremo, e a cultura de consumo, exarcebada pela “sociedade do espetáculo”.

    Parti de um diálogo entre a ideia de cultura, sua origem etimológica, explorada em meu novo livro, O Poder da Cultura, e a contraposição entre cultura matrística e cultura patriarcal proposta por Humerto Maturana, em Amar e Brincar, editado, não por acaso, pela Palas Athena. E a cultura do automóvel como uma espécie de síntese imagética dessa cultura patriarcal, baseada na competição, no status, na busca do poder, da distinção, da privatização do espaço público, e o consequente modelo de desenvolvimento decorrente dessa cultura.

    Mesmo sendo o meio menos eficaz de locomoção no espaço urbano, o automóvel representa um dos maiores itens no orçamento familiar do brasileiro médio e um dos maiores custos para a sociedade, pois exige grandes investimentos de infraestrutura. Isso sem contar a conta ambiental e no sistema de saúde, já que o acidente de automóvel é uma das maiores causas de morte no mundo.

    Mesmo assim constitui a base do nosso projeto desenvolvimentista, símbolo do governo JK, de Itamar e até mesmo de Lula, que utilizou o incentivo ao consumo de automóveis como um dos principais agentes provocadores da resistência do país à crise financeira. Ao mesmo tempo que estimulava o endividamento da família brasileira, aumentava os impostos da atividade cultural, que segundo pesquisas do próprio governo, gera mais empregos que a indústria automobilística.

    Mas há também uma interdependência entre indústria cultura e do automóvel. Adorno nos deixou a seguinte provocação em seu clássico texto sobre “A Indústria Cultural” (1947):

    A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada em si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça a qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social.

    A competição, o individualismo, a busca de status, a opção pelos grandes amontoados urbanos e a consequente exclusão das vias de acesso àqueles que não possuem automóveis, são urgências do homem civilizado contemporâneo. A busca incessante por informação, o acúmulo do know-how, a via expressa. O carro potente, veloz, automático, seguro, confortável, tornou-se uma espécie armadura que protege o “homem de bem” das inseguranças do século XXI.

    A via asfaltada, a velocidade, a pressa, são necessidades contemporâneas fabricadas por nosso modelo civilizacional. O automóvel torna-se o fetiche supremo, uma espécie de falos coletivo que move, como nenhum outro objeto, em direção ao abismo dos sentidos.

    Vivemos num vácuo de significados. O ato do consumo nos conforta, nos dá a segurança e a autoconfiança para continuarmos em frente, fazendo aquilo tudo que já não acreditamos, mas já não temos força ou uma nova utopia que nos redirecione.

    O único antídoto que eu conheço para esse vazio é preenchê-lo com arte e cultura. Da boa e também da ruim. Daquilo que eu gosto e do que eu duvido. Um pouco também daquilo que só os loucos, os sonhadores e atrevidos têm condição de nos mostrar.

    Enquanto for presa fácil dos meios de comunicação, com sua publicidade e o seu marketing, e da cultura oficial, com demagogia e populismo crescentes, o cidadão, de bem ou do mal, só verá esse vazio aumentar. E gerar os desequilíbrios e distúrbios imaginários que vivemos atualmente.

    Seis meses depois religuei o celular; hoje utilizo o automóvel da minha companheira em situações específicas, uma ou duas vezes por semana; bebo moderadamente e estou em busca de uma clínica de reabilitação para viciados em cultura e café. Se alguém aí souber, por favor me avisa!

    * Este texto não faz parte do livro O Poder da Cultura.

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    Comentários

    1. Boa reflexão. Melhora com a proposta que segue depois da referência ao Adorno.

      De todo modo, obrigado por parar, obrigado por pensar. :)

    2. Mel Fernandez disse:

      Engraçado, hoje experimentei a bicicleta de um amigo adaptada com um motorzinho e bateria elétrica. Uma inicitiva absolutamente solitária mas extremamente solidária para com todos da cidade. Não polui nem sonora, nem quimicamente, e garante menos um carro nas ruas (apesar de ter carro, ele só o utiliza qndo considera realmente necessário.
      O Leo já citou JK. Brasília foi concebida e projetada para o carro, e este é, sem dúvida, um dos maiores problemas para o inevitável crescimento da cidade e para a ainda considerada “boa qualidade de vida” do brasiliense. Dentre as várias soluções debatidas, percebo que pouco se pensa as questões que envolvem o enfrentamento da “cultura do carro”. E, pelo menos por aqui, enquanto essa cultura reinar, não há transporte público por mais eficiente que seja que dê jeito.
      E por falar em cultura, tenho achado tão difícil separar a cultura oficial da não oficial…
      E Leo, desejo sinceramente que você não encontre essa clínica de reabilitação, pois só teríamos a perder com isso.

    3. Estranho, Leonardo, mas não compartilho desse tom um tanto melancólico e até fatalista. Talvez eu esteja vendo borboletas demais, porém devo admitir que elas nos acalmam.

      A poligamia neoliberal da cultura é de fato sedutora e esteve, nesses últimos anos, aflita em busca de adeptos, enfiou debaixo do braço a palavra multiculturalidade, bateu na porta como exorcistas da miséria em taperas onde tocava folia de reis, ela deixou lá um presentinho, uma bíblia neoliberal abençoada pelos papas saxônicos. A sedutora oferta do paraíso imediato aqui na terra. Agora banco 24 horas, creche, babá, um mundo de fortuna a uma comunidade que se manifestava pela honra e glória de seus sentimentos através da possibilidade de estar em palcos iluminados aplaudida pela burguesia que aplaude qualquer novidade. Big mc, jongo, capoeira em escala universal, franquias de calango no Japão ou na Inglaterra, tendo o príncipe Charles como a força da tradição patronal e Gordon Brown, a própria libra esterlina.

      Este foi o recado que a fantasia neoliberal de cultura trouxe.A fábula do enriquecimento bate-tambor. Bsta três palavrinhas numa esquina que alguém diz, faça do seu pensamento um produto. Por que não o corpo? Os suplementos alimentares estão aí. Corpos sob medida para a sedução. Pensamentos sob medida para a persuasão.

      É a alma dos nossos negócios, hoje smoking, taier e mozart, amanhã abadá abadá, pipoca e o rebolation.

      A sobremesa está nsd baladas de ecstase e redbul e uma qualquer dose de wodka, é uma espécie de rave multidsciplinar, onimpotente e unipresente.

      Alguém está cantando no chuveiro desperdiçando lucro. O curió está cantando e ninguém gravou pra levar um qualquer? Até a palavra “causo”, virou produto. Tudo absolutamente chancelado pel a multiculturalidade shopping mania.

      Peixe congelado, pensamento cristalizado. Esta é uma mensagem que talvez possa estar um romântico sonhador. Acho que começaremos a ter uma belíssima queda de braços. A internet deu tonus muscular ao ontraditório. E isso é um ótimo sinal.

      Grande abraço.

    4. gil lopes disse:

      o mundo é uma merda pra muita gente, niemeyer diz mesmo que é uma merda, mas nunca tanta gente viveu tão bem…mas tanta gente é pouca gente em relação a toda gente, mas nunca tanta gente viveu tão bem…se o mundo da mobilidade está levando a imobilidade? mas nunca tanta gente viveu tão bem…a questão é aumentar o contingente de pessoas que vivem tão bem…dizer pra tanta gente que vive tão bem que agora por conta de todos não poderem viver tão bem eles vão ter que viver mal por conta de que viver tão bem não pode ser uma experiência de todos…é complicado, talvez Gandhi, mas quem quer ser Gandhi nessa vida? nem os padres estão satisfeitos com seus votos. Há alguém satisfeito por aí?

    5. Tento aprender a gostar da cultura que duvido. Sinto que o mal estar é maior do que os outros causados por outras ações…. da publicidade cansei, mas ainda preciso dela para pagar a gasolina, tomar o café e usar o celular.

    6. Olá Mel, bom ler você por aqui. Em breve estaremos aí em Brasília novamente com O Poder da Cultura. Quero conhecer a tal bicicleta motorizada, pois não gostei muito da que experimentei por aqui…

      Viva as borboletas, Carlos. E permita enxergar a ironia em meu ceticismo…

      Opa Gil, não confunda Gandhi com os padrecos pedófilos, peloamordedeus. O problema é que cada vez menos gente vive bem e cada vez mais aumenta o número de miseráveis. Que avanço é esse?

      Abs, LB

    7. Saltamos com Lula Leonardo.
      a industria da miseria no Brasil recuou e muito, os dados do IBGE mostram.
      E está produzindo agora com o Bolsa Familia uma economia humana que tira a fome de muita gente.
      isso tem que ser comemmorado, afinal sempre foi a bandeira da cultura.

    8. Camila Bahia leite disse:

      Olá Leo!
      Interessante entrar aqui hoje e encontrar esse texto,um “compartir” sobre esse mal estar que a sociedade capitalista nos leva, a consumir, e “ser consumido”, sem pensar e entender o porque disso, sem ver o sentido das coisas. Concordo e compartilho de sua angústia… Hoje, pensava justamente sobre o objetivo que me leva a pensar em comprar meu carro, idéia à qual tenho resistido e protelado; mas que infelizmente tem se mostrado cada vez mais necessária, devido à precariedade do transporte urbano da cidade em que resido.
      As urgências profissionais e horários que estabelecemos acabam por nos prender a estereótipos nem sempre bem quistos, vivemos capitalisticamente no mundo da falta, e buscamos sempre algo que nos preencha, como você disse, e que bom que podemos contar com a arte, a cultura, ou mesmo com puro e simples contato com a natureza (algo que nos aproxima do que realmente somos). É difícil não nos perdemos nesse emaranhado, e ainda bem que temos os loucos e utopistas para nos lembrar que também podemos sonhar.
      Todo esse discurso me remete às palavras de um amigo utopista, Jorge Bichuetti, que se me permite, quero citar:
      “Nosso desejo é um teatro sem lugar para o outro , já que reeditamos a nossa falta, oceano nirvânico de prazer que perdemos…
      Desejamos o oceano , mas não ousamos navegar.
      Vivemos no gozo de um terceiro excluído.
      Não ousamos conjugar a multiplicidade da potência amorosa que infinita na finitude de riso e de uma cumplicidade que nos fazem grupos, humanidade, gente vivendo com gente, por amor e ternura e não pela necessidade do espetáculo fálico da dominação.
      Contudo, entre tantos espinhos, quando teremos coragem e oudasia de deixar a fumaça da cidade para ir à procura de alguma flor-do-campo, que tenha consigo os diálogos noturnos das estrelas e os escritos diurnos do sol?
      Entre tantas palavras, escuto ressoando o óbvio do cotidiano: quem é mais, quem pode?…
      E relembro Deleuze: é necessário matar o ego.
      Este ego… faloego… ego-poder… ego-brutalidade… ganância e narcisismo.
      Bion disse que a superação do narcisimo se dá via solidariedade.
      Ela , também, mata o eu… Cria o encontro, o nós…
      A suavidade de uma vida que amando, se dá…
      Ganhos e dividendos, geram a dominação, a exploração e a mistificação.
      O dar e se dar – compondo uma sinfonia de solidariedade, produz uma nova subjetivação; a suavidade amorosa do homem que num devir ternura é um guerreiro de um novo tempo, o tempo da leveza onde o abraço e carícia, o companheirismo e abnegação já não são perda de tempo, são tempos potencializados no acontecimento do novo.
      Tempo que não se perde… Arte de viver, amando. Vida de arte, criando o novo, o ético e o estético de um jeito de ser onde o corpo pode… simplesmente multiplicar-se na vida que trama um novo amanhecer.” (http://jorgebichuetti.blogspot.com/2010/04/subjetividade-capitalistica-e-o-novo.html) É um blog que vale a pena conferir.
      Bom, precisamos de nossas linhas de fuga, e que elas sejam saudáveis e potentes! Abraço!

    9. gil lopes disse:

      opa, êpa…mas essa depressão, esse muxoxo, essa melancolia é caráter de classe…ehehe…quem tem esperança nesse mundo e quem quer seguir em frente???…ô DDDiiiiillllllmaaaaaaaaaa!!!!!
      nessa quadra avançada capitalista, depois da debacle do liberalismo bushiano, com o Brasil que a pouco tempo se contorcia com década perdida e agora se prepara para crescer fulgurantemente, com imenso contingente liberado da miséria, francamente…é tempo de esperança e convicção…o Dilmaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!! está na hora de acreditar na capacidade do brasileiro ocupar seu espaço de gigante na cena mundial e a cultura é e será a arma principal. Para tomá-la precisamos saber o que fazer da nossa política fiscal, ou seja, temos que avaliar qual será nosso plano de crescimento, o que queremos e como faremos. Não será decididamente continuando a incentivar a importação de bens desnecessários a essa afirmação, sobretudo no âmbito cultural. Não podemos continuar subsidiando com incentivo fiscal a importação de produtos culturais como temos feito. E temos que partir decididamente para a Nova Cultura, propiciando banda larga, computadores e estimulando comportamentos civilizatórios com vistas a criar rapidamente a economia da Nova Cultura, sobretudo na música afim de recuperar a debacle sofrida na produção e circulação da música popular brasileira interna e externamente. Nem Gandhi, nem padres nos inspiram ( se bem que a Igreja nada tem a ver com padres pedófilos, é bom que se diga…a Igreja no Brasil, sobretudo a católica, desempenha um papel importante e crucial na vida brasileira em toda sua história e continuará desempenhando a despeito de comportamentos e acidentes de percurso), forjamos nossos heróis diariamente.

    10. Bernadette Lyra disse:

      Olá, Leonardo,
      concordo que “A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação”. Mas, penso também que do limão, se pode fazer uma boa limonada. Participo de um grupo chama do Cinema de Bordas, que estuda, cata por aí e organiza mostras de filmes feitos por realizadores que estão às bordas da instituição cinematográfica e fazem seus filmes na marra, com recursos caseiros, câmeras velhas e baixíssimos orçamentos, só pelo prazer de fazer cinema. Os atores são os amigos, o compadre, a comadre, as pessoas e os bichos da família que nada cobram para atuar no filme. Não são documentários, mas uma mistura de tudo que já foi visto na velha indústria dos gêneros hollywoodianos e na mídia com lendas regionais, histórias e casos populares, sem constrangimentos e para entreter. Disso resultam filmes inisitados e bem humorados que nenhuma sala multiplex jamais irá exibir, mas que fazem imenso sucesso nas comunidades em que são produzidos, pois essa brava gente vive em cidades pequenas ou subúrbios, longe dos grandes centros de produção e distante das benesses das verbas oficiais. No mais, valeu seu belo texto, como sempre lúcido e instigante. Eu também sou da tribo dos sem-celulares e deusmelivre de usar carro em uma cidade como São Paulo!
      Bernadette Lyra

    11. Leonardo, gostei mto da sua reflexão.

      Tenho 28 e nunca tirei carta ou dirigi um carro. Sou visto por muitos amigos e parentes como ET…um produtor que anda de ônibus, metrô…?
      Parece até que pega mal. Mas sigo em frente. Até hoje nunca fiquei numa situação que o carro fosse imprescindível no meu dia a dia aqui em Sampa. Sonho com uma São Paulo com mais trens e metrôs para todos os lados como Londres, Paris, Nova York. Mas me lembro a força que esse segundo pênis exerce nas pessoas por aqui.Peno diversas vezes por termos adotado desde JK esse modelo americanizado e burro que insistimos em repetir até os dias de hoje, mas não abro mão das minhas caminhadas urbanas rumo a alguma reunião ou evento cultural. Até pq, diversas vezes,(vejam que irônia) acabo ultrapassando diversos carros seguros, com mil cavalos de potência e completamente estáticos, num skyline que mais parece uma véia aorta prestes a explodir. Não podemos esquecer que São Paulo, possui a maior frota de carros do mundo e, todos os dias são despejados mais 1000 novos carros emplacados, sem contar aqueles com placas de Osasco, Barueri e região que se dirigem para o mesmo ponto. Minha sensação é que, como quase tudo no Brasil, vamos esperar um colapso no trânsito (será que já não aconteceu?) para colocarmos pedágio urbano, linhas inteligentes de ônibus, metrôs e trens interligadas, fazendo com que os brasileiros pensem pelo menos, por alguns instantes, em trocar o dinheiro investido numa lata de 1 tonelada que mais fica parada do que em movimento, por ingressos para peças de teatro, exposições, shows ou algo do tipo.
      Espero, que um dia possamos adotar o slogan: “Venda seu carro e consuma cultura o resto da vida”. Um salve, para todos que ainda enxergam um horizonte melhor, mais livre de consumos vazios de sentido,vivendo do acúmulo constante de montes de bugigangas que no fundo buscam preencher “esses vazios” que nunca serão preenchidos por objetos. Já dizia, como um valor nobre, um infeliz professor da Bella Artes de Publicidade: “o bom publicitário é aquele que faz você comprar aquilo que você não precisa com o dinheiro que você não tem”. Deus me livre e aguarde!

      E busquem uma vida mais regrada. Dá muito mais prazer e os benefícios são melhores do que as liquidações intermináveis que existem por ai.

      Abraço a todos! Um Salve para Cultura e Arte!

      Grande Abraço Leo!

    12. Amanda Wanis disse:

      Fico muito feliz em ver a questão da cultura ao automobilismo ser levantada aqui… esse foi um dos meus pontos levantados em minha monografia, na graduaão deprodução cultural
      Na ocasião, resolvi comprar uma bicicleta para vivenciar o que escrevia.. era ótimo viver a cidade, ver as mudanças diárias nos caminhos em que passava… de fato o ciclista ao menos em NIterói, onde vivo, tem menos prioridade do que o cachorro que atravessa a rua… mas mesmo assim gostava, embora em dias de muito calor desejasse um vestiário para me recompor antes de trabalhar… mas ainda assim escolhia bem os dias que irira de bicicleta… passeando pelo calçadão da praia de icaraí, fazendo meus exercícios físicos e curtinho meu som…
      Até que um dia me roubaram a bicilceta!
      Não tenho respostas para essa mudança na mobilidade urbana, mas tenho a certeza de que precisamos discutir muito sobre isso…

      Nem vou falar aqui sobre a ineficiência de transporte público,pois isso daria quase uma tese… mas falamos tanto que a diversidade cultural enriquece … bem a diversidade de mobilidade tb!

      Hoje acordo 1 hora antes e vou a pé para o trabalho… ainda vale a pena sentir o ar matutino, ver a cidade acordar…
      Experimentem …

    13. alvaro santi disse:

      Bela reflexão, Leonardo.
      Desde que o Lula desonerou a indústria automobilística, venho inutilmente procurando, nos editoriais dos jornalões e jornalinhos vorazes que deitam e rolam diariamente até em seus deslizes gramaticais, alguma crítica aos efeitos deletérios dessa medida, já que mais carros significam mais poluição e mais acidentes, em consequência mais custos públicos em saúde e meio ambiente, sem contar as obras viárias. Em vão tenho procurado nas primeiras páginas pelas estatísticas que comprovam que os transportes aéreos, fluviais e ferroviários são muito mais seguros e baratos.
      Um silêncio que, neste caso, é muito eloquente, não lhe parece?

    14. Badah disse:

      -“Essa é umas das muitas histórias/ Que acontecem comigo/Primeiro foi Suzy/ Quando eu tinha lambreta/ Depois comprei um carro/ Parei na contra-mão/ Tudo isso sem contar/ O tremendo tapa que eu levei/ Com a história/ Do Splish Splash/ Mas essa história/ Também é interessante”

      Mandei meu Cadillac/ Pr’o mecânico outro dia/ Pois há muito tempo/ Um conserto ele pedia/ E como vou viver/ Sem um carango prá correr/ Meu Cadillac, bi-bi/ Quero consertar meu Cadillac/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      Com muita paciência/ O rapaz me ofereceu/ Um carro todo velho/ Que por lá apareceu/Enquanto o Cadillac/ Consertava eu usava/ O Calhambeque, bi-bi/ Quero buzinar o Calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      Saí da oficina/ Um pouquinho desolado / Confesso que estava / Até um pouco envergonhado/ Olhando para o lado/ Com a cara de malvado / O Calhambeque, bi-bi/ Buzinei assim o Calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      E logo uma garota/ Fez sinal para eu parar/ E no meu Calhambeque / Fez questão de passear/ Não sei o que pensei/ Mas eu não acreditei/ Que o Calhambeque, bi-bi/ O broto quis andar/ No Calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      E muitos outros brotos/ Que encontrei pelo caminho/ Falavam: “Que estouro/ Que beleza de carrinho”/ E fui me acostumando/ E do carango fui gostando/ E o Calhambeque, bi-bi/ Quero conservar o Calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      Mas o Cadillac/ Finalmente ficou pronto/ Lavado, consertado/ Bem pintado, um encanto/ Mas o meu coração/ Na hora exata de trocar/ Aha! Aha! Aha! Aha! Aha!/ O Calhambeque, bi-bi/ Meu coração ficou com
      O Calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!…

      -“Bem! Vocês me desculpem/Mas agora eu vou-me embora/ Existem mil garotas/ Querendo passear comigo/ Mas é por causa/ Desse Calhambeque
      Sabe!/ Bye! Eh! Bye! Bye!”
      Arrãããããããããmmmm!

    15. Fernando disse:

      Há um tempo assisti um filme de Woody Allen, acho que o nome é “Crimes e Pecados”. Mia Farrow e Alan Alda contracenavam com o instigante cineasta. Numa das cenas, o personagem de Allen, um roteirista e cineasta fracassado, comentava com Mia Farrow, pasmo, o suicídio de um velho professor de Filosofia que era objeto de seu interesse profissional. Alguns depoimentos deste professor já haviam sido gravados. Ao final do filme, durante um casamento, a noiva e o seu pai, prematuramente cego, dançam. Ao fundo, não a música, mas um depoimento do professor, falava de “pequenas e importantes decisões que tomamos ao longo da estrada…na perspectiva de que as futuras gerações possam compreender mais”, entre tantas outras reflexões. Se “Somos assombrados pelos monstros que criamos”, conforme afirma o autor, a partir de Morin, ou se, na sociedade capitalista, “colocamos em movimento forças sobre as quais perdemos o controle” (acho que foi Marx quem disse isso), talvez a opção integradora sobre a apocalíptica nos lance diante de novas alternativas. Sem que nos deixemos contaminar por uma euforia celebratória, mas fazendo o que pode ser efetivamente feito, faço minha parte catando as garrafas PET que encontro nas ruas do bairro onde moro, durante minhas caminhadas. Há muito deixei alguns dos vícios (ou fetiches) de nossa indústria cultural: Por exemplo, álcool e tabaco… Quanto ao automóvel, ainda não foi possível deixar na garagem. Adoraria andar de ônibus, mas o sistema de transporte coletivo na Grande Vitória é um horror. Quanto ao celular, com o perdão do “comentário automobilístico”: É UMA MÃO NA RODA!!

    16. Cometemos coisas e não pecados.

      Os interesses inventaram o peccado e o perdão, o terrorista e o aterrorizado. Não somos uma sociedade de consumo, mas sim pra consumo, o que é bem diferente. Instituir a volatilidade é a grande crise moral do neoliberalismo.

      Ontem, por motivos óbvios, estimulava-se o fumo, hoje, o fumante é considerado um criminoso pelo mesmo poder quando tira um cigarro da manga da casaca. Com a proibição das drogas, salva-se o consumidor e icrimina-se o vendedor, o traficante. Já com as drogas lícitas, premia-se o produtor e odistribuidor e, com o bafômetro, criminaliza-se o consumidor. Joga-se tomates podres e, junto com a mídia xinga-se os políticos corruptos. A mesma mídia não quer saber de expor os corruptores, seus patrões, os grandes anunciantes de jornalões e televisões. Tudo isso é pequeno, é uma grande bobagem. Se tiver que invadir o Iraque, qual é o problema se derrubar dois arranha-céus e matar mil pessoas? Vai matar muito mais no Iraque, como matou! Mentindo descaradamente. O antigo aliado americano estava sentado encima do barril de petróleo para sustentar o império que hoje tem uma praga de obesidade com tanta gordura saturada.

      Enfim, não existe nada de nova ordem, o que existe é uma velha ordem de pequenos grupos que matam, massacram, escravisam, escravisam e escravisam. A nossa história conta muito bem isso, o extermínio de milhões de índios e a mais cruel escravidão de negros, o que insistimos em não discutir.

    17. Pedro Guimarães disse:

      Então. Não vou entrar no âmbito do bikeshed. Reflexão positiva, confesso, e no fim das contas, realista, já que o ritmo frenético do dia-a-dia moderno já volta a vencer seu voto inicial de liberdade. Imagino que enquanto escrevo esse texto mais alguma restrição tenha voltado a se apoderar da sua vida.

      O difícil é se manter sempre no estado de espírito com clareza suficiente para sustentar a intenção de mudar, ou seja a atualização constante dessa intenção. No budismo, há outro nome para isso: natureza búdica. Se você reflete tanto sobre isso tudo, aconselho que tenha mais acesso ao apanhado de experiências da descoberta de vários cidadãos do mundo ao longo dos anos, que chegaram à percepção do porque passarmos nossa vida inteira muitas vezes sem nos perguntarmos “por que?” e aceitarmos essa cultura materialista, dicotômica e dualista que nos é imposta geração após geração.

      Forte abraço.

    18. Juliana disse:

      Nossa! Que surpresa ver uma postagem cultura/carro justamente aqui!!
      Me deleitei ao ler suas opções nos últimos anos porque tenho feito o mesmo: aos poucos excluí carro, opto por produtos reciclados e orgânicos e todo consumo passa antes por uma avaliação de necessidade. Como você mesmo disse é uma proteção contra a indústria do consumo, do espetáculo.

      Ao ler Adorno, mais animada fiquei por me lembrar do livro Educação e Emancipação no qual ele indica a falta de consciência, que deveria ser alimentada culturalmente, como fator transformador dos homens em potenciais fascistas e consumidores vorazes, numa tentativa de se manterem à distância da “feiura” das relações sociais decorrentes do capital.

      É… É duro “abrir os olhos” é ver como nossas atitudes são refletidas em nós mesmos, na nossa vizinhança e no mundo; assumir a responsabilidade de nossas ações sem arrumar desculpas do tipo “são consequências indiretas” ou “não há nada que eu possa fazer”. Desse jeito, é melhor mesmo nos mantermos aculturados.

      Mais uma vez, obrigada pelo texto!

    19. Pedro Thiago disse:

      Muito lúcido este texto. Realmente vivemos num vazio de simbolos, talvez esteja na hora de re-significarmos as cosias. Antes que a alta velocidade de nossa sociedade nos choque fronte ao poste do desgaste.

    20. Luiza Moraes disse:

      OI Leonardo, estamos vivendo sem carro no Rio de Janeiro desde outubro do ano passado. Temos o privilégio de morar em um bairro bem servido de transporte público (ônibus e metrô na esquina de casa) e com boas vias de saída, comércio, banco, colégios, cursos, cinemas etc bem próximos. Os teatros ficam mais longe mas acessíveis a uma corrida de táxi. Enfim, nossos motivos foram o orçamento, em primeiro lugar, e em seguida uma vontade de mudar um pouco, desatrelar dessa dependência, ser um pouco “verde” e saber realmente, qdo que o carro faz falta.
      Já descobrimos: o carro faz falta qdo queremos dar um passeio, sair uns dias da cidade ou simplesmente dar uma volta.
      Ainda não experimentamos a opção de aluguel de carro. Sempre que pesquisamos os valores achamos absurdo as taxas, seguro etc. Sem falar no preço do combustível.
      Enfim, estamos aguentando, por enquanto. Não até qdo iremos resistir.
      Quanto a dica sobre a clínica, fico feliz em informar que ela não existe!

    21. Marcos Moraes disse:

      quando voltei a morar em São Paulo passei a deixar o carro na garagem o máximo possível e voltei a caminhar a pé para ir de um lugar a outro. Moro perto de metro e onibus, mas insisto em andar a pé quando posso, e me esforço para que minha agenda o permita. O resultado é que a cidade voltou a existir como algo real. Nossa velocidade faz com que a cidade seja uma idéia, desumanizada, pois não existe em referência ao que somos (meus pés, o tempo que levo para caminhar até ali, meu desejo de mover, meu cansaço, os cheiros da rua, as pessoas que como eu vivem ali, trabalham, se locomovem, etc.). O automóvel aparece sempre como uma violência a esse entorno. Insensível, agressivo, barulhento, neurótico, mal educado, assassino, até. E ali dentro estão outras pessoas como nós, daqui de fora.

      Não estou dizendo que sejamos todos bikers, só comamos slowfood, utilizemos pombos correio e não email. Cada um saberá a difícil tarefa de equilibrar-se num mundo em colapso, com suas possibilidades e impossibilidades. Mas a quebra de paradigma está em nossas portas. Não será possível seguir assim, nesses padrões de consumo, de poluição, de velocidade anti-reflexiva. Por bem ou por mal teremos que nos readaptar a outras formas de viver. É bom ir treinando…

    22. roberto lima disse:

      fui lendo o texto e, apesar de concordar totalmente com a idéia de combater a cultura do carro (minha mulher que não me ouça), fui ficando nervoso. só sosseguei quando li que voltou a abrir espaço na agenda pra uma cervejinha… ufa! afinal, o mais civilizado que a civilização inventou foi a droga (as leves) que são repositório solitário do que resta de vontade de utopia. viva a cerveja e abaixo a gasolina! que tal?
      belo texto, belo mesmo, mas por que disse que ele não faz parte do livro O Poder da Cultura? pra gente não ficar com vontade de comprá-lo? serei rebelde nisso. já que seu combate à sociedade de consumo me obriga a consumir seu livro… a dialética é uma delícia.
      abração.

    23. Rodrigo dMart disse:

      Boa reflexão, Brant!

      Somos envolvidos em um vórtex de consumo e de velocidade.

      Importante ressaltar a questão do diálogo e do respeito à diversidade.

      Curti o trecho: “O único antídoto (…) para esse vazio é preenchê-lo com arte e cultura. Da boa e também da ruim. Daquilo que eu gosto e do que eu duvido.”

      Entre o lá e cá, há uma penca de coisas bacanas e outras nem tanto, mas manifestações e expressões das pessoas ao redor e com as quais, queiramos ou não, precisamos bater um papo cotidianamente.

      Baita abraço, dMart.

    24. Fiquei muito interessado no seu post, principalmente porque nesse exato momento vivo a crise de ficar sem carro por problemas financeiros e desemprego. E essa falta tem me ensinado muitas coisas, uma delas diz respeito à necessária, quase urgente da mudança de hábitos de consumo.
      Sempre me considerei um cidadão consciente, daqueles que guarda seu lixo nos bolsos porque insistentemente nunca acha uma lixeira quando precisa. Lá se vão muitos anos desse hábito é verdade. Na década de 90 lá com meus 20 anos parecia mais um ET. E na verdade assim era considerado pelos meus pares com minhas manias ecológicas.
      Fiquei sem carro depois de 15 anos dirigindo. Estou reaprendendo a andar de ônibus, metrô, a pé pela cidade. E tenho depois dos primeiros dias de crise existencial, gostado bastante. Nunca fumei e não bebo. Meus hábitos alimentares sempre foram light, no sentido de pouco sempre foi suficiente!
      Ainda penso em comprar um carro de novo. Moro distante de tudo imaginável. Os serviços não chegam a minha residência e uma simples ida ao supermercado pode se tornar uma odisséia. Realmente muito precisa ser feito. E em dias como ontem, 26/04/10, que gastei 2h40 minutos para chegar ao centro da cidade (Belford Roxo/Central) torna-se urgente.
      Obviamente que essa falta de conforto é que tem me despertado mais. Há um ano atrás de dentro do meu carro importado com ar condicionado apenas reclamava do trânsito. É assustador que despertemos apenas após um íntimo contato com a realidade que subjaz.
      Maturana nos diz para deixarmos de ser atravessamentos de discursos e que é no território mental que podemos nos editar e realmente ver o que é nosso de verdade e não pura reprodução de falares alheios.
      Inicialmente em minha aventura des-automobilizado confesso que senti-me como que castrado. Custou-me algum tempo, certa reflexão para deixar de ter minhas disfunções eréteis de pensamento. Sair da zona de conforto, pois de dentro do carro tudo me parecia bem. E eu já enfrentava uma enorme crise.

    25. Ligia disse:

      Quando eu tinha 17 anos fui passar uns meses na Florida, descobri então que lá carro não é luxo é necessário. Vivia contando vantagem que na minha cidade, São Paulo, podia se viver muito bem sem carro.
      Hoje eu tenho carteira de motorista mas ODEIO ter que dirigir, o transito é a única coisa do mundo capaz de mudar a minha personalidade pacifíca para uma louca que quer passar por cima de criancinhas.
      Odeio, mas acho que é um mal necessario, para não ter que ir de carro para o trabalho eu divido uma lotação com outras 70 pessoas e algumas dezenas de baratas. E de final de semana, que os onibus e lotações diminuem consideravelmante? Carro é um mal necessario.
      Penso que quando eu tinha 17 anos carro era besteira por que eu me contentava com uma vida bairrista, nunca tinha visto a Av. Paulista e isso não me fazia a menor falta. Hoje em dia a vida cultural do meu bairro (Santo Amaro) não me basta, tenho necessidade de conhecer outros bairros, de estar em dia com as exposições, peças, conversas inteligentes em cafés…
      Pensando bem, talvez a solução para o meu problema também seja a clinica para viciados em cultura e café.

    26. Tom Damatta disse:

      Pego carona no comentário da MEL, que citou Brasília como cidade feita para se andar de carro. É o mesmo caso de Palmas, a capital tocantinense, cidade de longas e largas avenidas que se cruzam em rotatórias e separam quadras comerciais e residenciais numa vastidao de cerrado onde quem anda a pé sofre com o calor escaldante

      Como Brasília, Palmas é uma cidade planejada sob a ótica burra do ‘progresso e desenvolvimento’ que está deixando a humanidade louca, doente, desesperançosa e atordoada. Tal realidade inspirou o seguinte poeminha ironico, publicado no livro ACERTO DE CONTAS, do poeta e jornalista tocantinense ANTONIO REZENDE…

      A MELHOR RIMA DE PALMAS

      haja paciencia
      pneu e gasolina
      pra tanta distancia
      e falta de esquina

    27. Dayse Cunha disse:

      Olha Leonardo,
      telefonia celular (embora tenha dois), TV por assinatura, produtos industrializados, café e bebida alcoólica, consegui. Mas carne, e automóvel, tá difícil… Claro, hábitos culturais sim. Cresci nos idos anos setenta viajando com um pai louco por carros enormes e zero, expondo toda a família nas curvas da Estrada de Santos. Inconseqüente? talvez. Mas era um barato… Enfim, claro que tudo isso acaba criando um processo cultural. E hoje em dia os prazeres da infância, se desdobraram em desprazeres da cultura de massa do consumo inconsciênte.
      Boa essa tua reflexão partindo do automóvel, problematiza a questão do consumo para uma geração que já nasceu aculturada por ele e mais indefesa que a nossa, pois não acompanhou a ingenuidade de seus desdobramentos. Enfim, essa semana tomei a decisão para meu futuro: Vou ser Vegana!
      Antes q me esqueça
      Quando é que vc trará seu control V para o Cine Cena Urbana aqui no Rio?
      Abs
      Dayse Cunha
      Curadora e Gestora Cultural do Cine Cena Urbana
      Membro representante do RJ no Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – CNC

    28. Rogério disse:

      Belo texto! Parabéns.
      Venho dizendo, há décadas, que o automóvel é o bezerrinho de ouro de nossa civilização. Quem será nosso Moisés?

    29. Juliano disse:

      Não vejo o ponto em citar Adorno: “Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo(…)”. Primeiro porque não vejo interesse em acabar com a coesão do “todo”; segundo porque o contexto em que o livro foi escrito simplesmente não corresponde à realidade atual. Imagino então que assim como automóveis, bombas e cinema são categorizáveis como igualmente nocivos à individualidade, não se possa também consumir a música de jazz considerada pelo autor um disparate, um expurgo gerado pela indústria cultural.

      No mais fico feliz por você ter voltado a tomar café. Talvez com um pouco de bom senso vislumbre-se um caminho que não seja nem a escravidão nem a abdicação. Talvez haja algum programa interessante na TV por assinatura.

    30. Daniel Habib disse:

      Olá pessoal,

      Muito legal o que escrevemos aqui. Somos mesmo capazes de argumentar e defender nossos argumentos. Gosto desse poder fálico do intelecto, me sinto atraído por essa sensação de poder que a argumentação produz. Talvez, junto com o automóvel, o café, o açúcar e outras drogas do nosso tempo cultural, o pensamento coerente seja um sinônimo de status civilizacional.

      Bom… queria perguntar aí
      Quem aqui já subiu uma montanha e ficou acampado lá em cima uns 2 ou 3 dias pelo menos; ter que carregar toda a comida na mochila durante algumas horas de subida, mais a casa (barraca ou qualquer abrigo de pedaço de lona mesmo), as roupas, a água, e se preocupar com as nuvens, com os bichos, com o vento, com a temperatura e a noite e o sol-que-queima-durante-todo-o-dia. E fazer isso em grupo é ainda mais interessante. É uma clínica de recuperação para drogaditos. Lá o pensamento coerente é desnecessário, porque a convivência não é um dogma e a dominação é fútil. O desejo de convivência acontece espontaneamente e o desejo de dominação se dissolve, espontaneamente.

      Ainda que seja em sessões terapêuticas eventuais, recomendo as montanhas e seus cumes para [vi]ver [sentir] desde fora (d)o patriarcalismo intelectual a cultura dominante, intelectual. Como todo bom viciado em pensamentos, também uso os pensamentos para me justificar sobre seus efeitos. Sou meu terceiro excluído.

      Abraços,
      Daniel

    31. Carol disse:

      Olá Leo, realmente muito bom.

      Só para refeltir um comentário… Bolsa Família do Brasil é apenas um compra Voto para os de baixa renda, dando a certeza da Sucessão de Lula.

    32. Antonio disse:

      Bem poetizou Humberto Gessinger:
      “Corrida pra vender cigarro
      Cigarro pra vender remédio
      Remédio pra curar a tosse
      Tossir, cuspir, jogar pra fora
      Corrida pra vender os carros
      Pneu, cerveja e gasolina
      Cabeça pra usar boné
      E professar a fé de quem patrocina
      Querem te matar a sede, eles querer te sedar
      Eles querem te vender, eles querem te comprar
      Quem são eles?
      Quem eles pensam que são?
      Corrida contra o relógio
      Silicone contra a gravidade
      Dedo no gatilho, velocidade
      Quem mente antes diz a verdade
      Satisfação garantida
      Obsolescência programada
      Eles ganham a corrida antes mesmo da largada

    33. gil lopes disse:

      O cara trabalhava na Coca Cola e tinha um sonho, queria um dia ter uma Mercedes. Desses sonhos que qualquer um tem, de um dia isso ou aquilo. Pois o sonho dele era uma Mercedes, quando se animava para comprar uma, vinha a esposa e dava o contra, tá maluco? coisa de rico, acaba tomando uma pedra na rua…e ele se resignava, mas sonhava. Até que um dia, num desses planos de diretoria para atualizar a frota, o diretor dele ofereceu a Mercedes que tinha, praticamente nova, por uma bagatela pois estava trocando por uma mais nova. Ele não teve como titubear, ficou com a Mercedona do diretor…a alegria foi tamanha, se sentiu tão feliz com o carrão que ninguém seria capaz de derrubar aquela vibração do cara. Nem em casa, onde ao contrário, depois do fato consumado, a mulher ficou também esfuziante e feliz com o brinquedo depois da primeira volta…uma Mercedes…ele dizia, fiquei tanto tempo me impossibilitando de algo que eu não sabia, me faria tão feliz, sentia-se feliz como nunca…quanto tempo perdido, devia ter sido mais corajoso e investido naquilo que seu coração pedia…perdeu tanto tempo, tanta felicidade deserdiçada pelo caminho…passaram muitos anos, nos reencontramos e eu lhe perguntei, e o carrão? ele me disse: agora estou voando…como é ?…comprei um monomotorzinho, minha onda agora é voar…esse é o cara!

    34. Mauro Moura disse:

      Como moro em uma cidade que já não comporta um único automóvel e deixo o meu (que já é dos meus filhos) estacionado na porta de casa; celular só ligo quando sinto a necessidade e procuro ir aos locais que frenquento sempre a pé.

      E, se alguem aí souber informar onde encontramos uma clínica para desintoxicar de café e cultura também estou na fila.

    35. gil lopes disse:

      Poesia pra fazer boné
      camiseta, caneca e vender
      Poesia para estimular a fé
      dos de fé, que compram tudo
      cd, dvd, ingressos, camisetas, bonés, canecas
      Poesia pra mal dizer todos eles
      e reforçar a fé no único
      quem sabe até abrir uma igreja,
      ou melhor, uma religião
      quem são eles? onde é que eles estão?
      na tv, no clip milionário pra assar na televisão e
      reforçar a fé, acumular, crescer, chegar no topo da parada
      ou não, fingir…

      fazer graça é uma graça…mas francamente…

    36. PEDRO BERTI disse:

      Focalizando na proposição do automóvel como sustentáculo simbólico desse nosso ‘desenvolvimento’, esta é realmente capaz de nos entristecer, de nos enbrutecer, dizendo por mim. Poderia aproximar esse tema à utilização da camisinha, pode parecer intangivél tal comparação, me prestarei a esclarecer em poucas linhas. Não nego os benefícios de um ou de outra, no entanto, em ambos casos o que me toca mais profundamente é o distanciamento e as atitutes egóigas que ambos possibilitam. Não estou forçando, de forma nenhuma, ao meu ver, essa aproximação, apenas constatando por observações pessoais. O carro nos excluí de um convívio social, de uma troca com o meio, de uma relação pessoal com nossos convivas e possibilita criar a falsa idéia de proteção, de superioridade em relação às condições sociais, cria-se um universo paralelo, que passa anestesiado pela paisagem urbana, e anestesia quem está dentro. Enbrutece, pela solidão que gera, pela ignorância das casualidades da rua, dos transeuntes, pelas notícias populares, por deixar de conhecer os problemas e alegrias que aflige o seu próximo. Da mesma forma a camisinha, que através da sua propriedade isolante, vinda da borracha, limita essa troca, enbrutece e leva à ignorância do seu próximo. E ainda permite toda essa coisificação da sexualidade, a mulher/homem objeto, e com razão porque o meu/minha parceiro(a) é de borracha, e posso a qualquer momento me dar a outro, consumir outro, quanto mais melhor, indiferente à solidão que essa atitude leva, não se troca, não se entende. Não uso nem um nem outro, valorizo, por mais difícil que possa parecer, os onibus superlotados, me sinto parte da cidade, porque eu, que financeiramente poderia, vou me excluir? Isso me traz solidão, me leva a uma relação vazia. Da mesma forma com a camisinha, posso deixar de me relacionar, mas não me relacionar de forma vazia, tirar o sentido da coisa, coisificar o sentido. É isso, me sinto muito bem com essas convicções, por mais que viva numa cidade ou sociedade que valorize o contrário e nesse sentido, me basto.

    37. Joana Rosas disse:

      Muito bom seu texto. Adorei a sua mudança e todos deviamos pensar melhor sobre isso. Para onde estamos indo, que sociedade tao ligada ao espetáculo, ao consumo é essa que estamos vivendo. Eu parti pruma outra tbm cara, e meu primeiro passo, foi mudar a alimentação. Nada de carnes e produtos industrializdos! Segundo passo, e que só me trouxe benefícios, foi a bicicleta motorizada. Comprei uma por um preço bacana e não me arrependo. Anda bem, costura o transito e polui beeeeem menos que os outros veículos que costumamos ver por aí. Vai a dica. Sou grande fã de bicicletas e encontrei um artigo mto legal sobre sua história..se quiserem ler, aqui esta:

      http://bicicletamotorizada.org/bicicleta-motorizada/bicicletas-conheca-um-pouco-de-sua-historia/

      Bjus e vamos nessa

    38. Olá, Leonardo. Primeiro, uma pergunta pessoal: você fez Cásper Líbero nos anos 90, foi meu aluno, além de parceiro em rondas festeiras? Se sim, que prazer encontrá-lo aqui, com as questões que você muito bem coloca sobre as seduções desta nossa sociedade de consumo plenamente consonante com o CMI (Capitalismo Mundial Integrado). Há um texto que você deve conhecer, de André Gorz, A ideologia do carro a motor, que leva, com humor, ao limite da exasperação a presença do carro em nossa cultura. Deixo o link para o texto: http://usinagrupodetudos.blogspot.com/2007/11/ideologia-social-do-carro-motor-por.html
      Aproveite e navegue pelo blog, é de meu grupo, Usina, que já ensaiava respirar nos tempos da Cásper. Abraço.

    39. […] como a cultura do automóvel, a cultura da carne é algo central em nosso sistema socioeconômico, símbolo de um processo […]

    40. Olá Valter, meu caro professor, amigo e grande intelectual inspirador. Fico feliz em te encontrar por aqui. E com excelente contribuição. Li o artigo e gostei bastante. Fiquei arrepiado ao saber que o autor cometeu suicídio junto com a sua mulher. Abs, L

    41. Jorge disse:

      Salve, Léo.

      Muito boa reflexão, obrigado!
      Fiz uma parecida, mas audiovisual, há tempos atrás.

      Se quiser conferir: http://vimeo.com/9735879

      Abraços,

      Jorge

    42. Adriana disse:

      Olá Leo,
      Acebei de fazer o curso de Captação de Recursos para o 3º Setor e estou deliciando-me com suas matérias por aqui…
      Enfim… que sonho seria um projeto voltado para construção de Ciclovias em São Paulo, não???
      Um abraço!
      Adriana Barros

    43. lmstefanini disse:

      “Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça a qual servia.”

      Some-se a isso a tecnologia, inclusive a da informação, como um brutal nivelador.