Cultura e Mercado
  • Copyleft em dança: possibilidades de difusão

    Porque a dança tem pouco público, se existem muitas tentativas de difusão e circulação? Artigo publicado originalmente no Overmundo e reproduzido sob licença Creative Commons (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/br/deed.pt)

    A oportunidade de trocar informações e produzir conhecimento em dança é o que acaba seduzindo muita gente, seja para fazer uma pós graduação (existem formações universitárias espalhadas pelo país) ou montar uma obra artística, e que estas possam ecoar suas inquietações ou questionamentos. A difusão da dança necessita cada vez mais ser incentivada, o que significa procurar outras formas do artista da dança se colocar diante da sua próprio produção. Uma questão. A proposta é refletir como as formas usuais de circulação podem ser enriquecidas a partir de uma visão mais «left».

    Toma-se como dado que a dança é uma forma de conhecimento, o que implica em afirmar que é construída ao longo de tempo, com pesquisa e investigação teórico-prática e que muito daquilo que assistimos em dança, por mais diverso que seja, passa por um compromisso estético, diria também ético, de se propagar como obra artística. Seja a dança popular, ou aulas de curso livre que pretendem formar o caráter artístico de cidadãos, não necessariamente futuros artistas, ou ainda, os próprios dançarinos e coreógrafos, fazedores de um pensamento com o corpo, todos se comprometem a nutrir nosso imaginário sobre movimento, corpo, imagens, mídias e todo tipo de informação que atravessa a cena da dança.

    A demanda do chamado mercado é vacilante, ou seja, pode-se dizer que inexiste em alguns momentos e é latente em outros. Tem várias faces, podendo ser a companhia de grande porte que abriga estruturas oficiais pagas pelo Estado ou por Lei de Incentivo – repare dinheiro público. Ou, podemos falar em grupos experimentais que buscam formas de difundir idéias de vanguarda – repare, trata-se de um intuito factível de tornar suas idéias inovadoras em algo público. Difusão se faz no meio público. Portanto, o posicionamento do artista, inclusive da dança, é que seu trabalho possa circular, possa reverberar e até mesmo ser questionado. Para isso, precisa ser visto. Não é o que acontece.

    O público de dança é bastante restrito. Se falarmos de companhias de grande porte, muitos conhecem «Grupo Corpo», «Balé Folclórico da Bahia», «Cia. Teatro Municipal do Rio de Janeiro» ou mesmo de Caxias do Sul, «Grupo Stagium», etc.. Falamos de um público amplo, que assiste cultura e ocasionalmente acompanha os grandes eventos de companhias de dança de tradição. Ou se falarmos de «Cia. De Danças Lia Rodrigues» (Rio de Janeiro), «Cia. Nova Dança» (São Paulo), ou «Cena 11» (Florianópolis) ou mesmo «Quasar», falamos também de companhias conhecidas, mas com públicos preferenciais, que apreciam a linguagem específica, para alguns hermética, destas danças. Agora, se falarmos de um número interessante de grupo ou artistas, tais como «Núcleo Artérias» (São Paulo), «Marcela Levi» (Rio de Janeiro), «Luiz de Abreu» (São Paulo) e outros tantos, falamos de um público bastante específico, na maior parte das vezes, falamos de “pocket performance”. Sabe quem é o público que une estes três grupos, de alguma maneira? A grande maioria é dançarino, «agregado», o que demonstra que não há formas de difusão horizontal do público de dança que possa ser rotativo ou diverso. Não é uma linguagem «popular».

    Daí, se segue o debate, que às vezes torna-se até cobrança entre os pares e ímpares da dança, de quem assiste o que, quando e como fomentar o público da dança. Em outras palavras, quem se habilita a nos assistir? Ou, quais formas de política pública podem ser criadas para circular danças, no plural de suas manifestações?

    Nos últimos anos, projetos, institucionais ou não, mais ou menos independentes, inclusive sem recursos, vêm emergindo no cenário nacional, como o Rumos Dança Itaú Cultural que ligado à instituição de mesmo nome, fomentou uma enorme rede de contatos e do fazer inovador do artista contemporâneo em dança.

    Também com intuito de educar, criar, reunir, projetos se ligam a uma estrutura, ou a um marketing, depende do ponto de vista, social. Ou seja, projetos sociais usam a dança e a dança usa projetos sociais. Uma realidade patente na área e uma arena de questões conflitantes. A refletir: Ivaldo Bertazzo, Balé Bolshoi e outros tantos projetos espalhados em periferia ou favelas das cidades brasileiras. Parodiaria o filme: “quanto vale a dança ou o corpo que dança ou é por quilo?”

    Opções são projetos TAZ, ou seja, zonas autônomas temporárias, como conceitua Hakim Bey, que agregam artistas que buscam auto-organizar esteticamente e politicamente seus interesses. Citamos Coletivo Contágio no Rio de Janeiro, Artéria em Porto Alegre e Coletivo T1 em São Paulo, este último declaradamente uma TAZ (álias, em temporada outubro e novembro). Podemos nos referir ao Quadra – pessoas e idéias em Votorantim (São Paulo) como iniciativa ampla de criação e difusão de novas formas de fazer e circular dança.

    Dito isso, sabemos que há muitas iniciativas de prática e reflexão – isso porque não citamos o que existe em festivais na área, competitivos, que são um contrasenso, e outros tipos, eventos e encontros que unem prática e teoria, fazer e refletir. Estes últimos, dentro os quais o Panorama no Rio de Janeiro é um exemplo, vem tornando a dança um meio, de fato, público. Então, porque temos pouco público, se existem muitas tentativas de difusão e circulação? Para não pararmos o debate na ausência de políticas públicas inteligentes ou que não se extinguem depois de 4 anos de gestão, quais são as alternativas «left» para difundir o que fazemos em dança?

    Se falamos de uma forma de conhecimento, como seus produtos, além da obra artística, podem ser «ressuscitados»? Digo desta maneira porque minha reflexão, inevitavelmente, dirige-se a projetos de registro, memória, patrimônio ou simplesmente de distribuição de um pensamento que acontece em cena, ao vivo, presencial, mas que, justamente pela realidade mostrada, ainda não é suficiente para abranger seu público, difundir sua linguagem ou simplesmente se fazer conhecer nas suas variantes.

    Podemos citar a Editora FID (Fórum Internacional de Dança, Belo Horizonte), iniciativa de publicar teses de dança independente de editoras formais, Projeto Tubo de Ensaio – Corpo: cena e debate (Florianópolis) que acabou de lançar um livro mais DVD sobre 3 anos de projeto (Tubo de Ensaio- Experiências em dança e arte contemporânea), o banco de dados do citado Rumos Dança Itaú Cultural, e outros tantos, até mais antigos, que tentaram criar materiais de dança, sejam cds, fotos ou vídeos para acesso público. Convido a todos a conhecer o Acervo Mariposa, que atualmente coordeno, onde deposito tais inquietações e as redireciono para um projeto de implementação de uma videoteca física de dança de acesso público e gratuito, sem finalidade lucrativa, na qual são utilizados os selos do Creative Commons, ainda em implementação, por isso, não tão conhecidos pelos próprios artistas da dança.

    E por isso, segue este artigo. Um convite a mais projetos, idéias, articulações, entre o fazer, pensar e distribuir o conhecimento da dança. Uma provocação a compreender quais posturas dos artistas incentivam ou deturpam seu própro intuito em espalhar seu trabalho. Um preocupação não idealizada de que, se várias tentativas já foram feitas em cena de se fazer conhecer a linguagem, outras tantas já existem para dilatar a produção de conhecimento da área, precisamos de atitudes «left» para repensar nosso corpo público. «Left» não é do contra, nem sem direito, nem terra de ninguém ou terra de poucos. Ao contrário, é o direito de uma atitude política, cultural e artística.

    Nirvana Marinho


    Comentários

    1. violeta disse:

      Muito bom. às vezes acho que ficamos nos auto sustentando. Fazendo dança para gente mesmo. Quantas vezes fui ao teatro e encontrei só nós.
      É possível uma dança ser fruida amplamente fora dos círculos dos ” iniciados”?