Cultura e Mercado
  • Música para ver

    Pesquisa realizada no final do ano passado pela IMS Internet Media Services em parceria com a comScore – líder mundial em medição digital – identificou que 85% dos usuários de internet da América Latina assistem a vídeos online. O estudo revela o comportamento dos espectadores de vídeo por meio de todas as plataformas e dispositivos utilizados atualmente na América Latina.

    5683268071_2cae058848_bEm relação ao Brasil, 82% dos brasileiros consomem vídeos sob demanda, como os oferecidos pelo Youtube e Netflix, e 73% assistem à TV aberta. O estudo foi feito com mais de oito mil pessoas de seis países da América Latina, sendo mais de dois mil do Brasil, entre os dias 2 e 10 de setembro de 2015. Elas tiveram que completar uma avaliação online sobre o consumo de vídeos digitais nos últimos três meses.

    De acordo com o estudo, os brasileiros passam 13,6 horas assistindo a vídeos digitais – sendo que 37,5% desse tempo, o equivalente a 5,1 horas – é gasto vendo conteúdo em smartphones. Enquanto isso, os usuários estão passando apenas 5,5 horas semanais na frente da TV, seja ela aberta ou paga.

    Em toda a América Latina, a quantidade de tempo gasto na internet representa 44% do tempo total gasto em todas as mídias – como rádio, revista e jornal – e é quase o dobro do tempo gasto assistindo à televisão. Com relação ao conteúdo, vídeos gerados por usuários e tutoriais são os mais vistos em smartphones e tablets. Outro resultado encontrado pelo estudo é que 35% dos usuários veem vídeos fora de casa e 14% os consomem enquanto se deslocam para casa ou para o trabalho.

    Por isso, não é à toa que o mercado de produção de conteúdo tem direcionado seus investimentos na produção audiovisual. Não é diferente quando se fala de música. Os programas de Youtube Estúdio Estoofa, Mulheres Fora da Caixa e Elefante Sessions confirmam a nova tendência: conversam diretamente com o público que curte cultura urbana, artes e música, e que estão conectados, cientes das mudanças e opções que, principalmente, a internet trouxe para o mercado.

    O primeiro nasceu para fornecer ao público um conteúdo musical de qualidade e propiciar total liberdade para que o artista possa, além de apresentar seu trabalho, oferecer aos fãs músicas novas, versões mais intimistas e novos formatos musicais. O segundo dá destaque às mulheres, às compositoras e cantoras. Fortalece o discurso feminista. O terceiro registra as canções, tocadas pelos músicos, de forma intimista com identidade própria, utilizando os recursos de filmagem para isso, como planos fechados no rosto do intérprete, detalhe nos instrumentos e uma câmera de ação acoplada em algum instrumento de cordas.

    Fruto da parceria entre curadoria especializada e produção digital, entre os criadores do Estúdio Estoofa está o site Azoofa, que é fonte de informação sobre shows, artistas e bandas do cenário musical contemporâneo, com entrevistas e formatos que incentivam a cena musical. O Azoofa é a plataforma que hospeda os vídeos e gerencia a curadoria dos artistas que participam do projeto.

    Responsável pela produção e gestão dos formatos está a Bizzu Conteúdo, produtora de vídeo e foto, especializada em projeto de conteúdo digital, que já realizou trabalhos para a Natura, Natura Musical, Chevrolet Brasil, Google e outros. O Estoofa tem como principal objetivo abrir espaço para a música e reforçar a curadoria. A primeira temporada contou com uma rede de indicações entre os artistas e mostrou que o caminho para o sucesso do projeto é a relação aberta entre os músicos e compartilhamento de conteúdo de qualidade. Por isso, o Estoofa pega carona nas redes sociais de todos os artistas que passam pelo projeto, otimizando muito a visibilidade e engajamento.

    Para Daniel Kamada, sócio-fundador do projeto, as pessoas já entenderam que os novos artistas e talentos surgem na web e isso não só funciona para o segmento da música, mas para o teatro e as artes no geral, que surgem da curadoria espontânea da internet. “Tentamos navegar nesse movimento. É um espaço aberto para artistas otimizarem seu trabalho digitalmente e conversar com diferentes públicos”, explica Kamada. Segundo ele, a internet precisa de curadoria especializada. “Quando estabelecemos confiança com a audiência é importante que essa curadoria seja aprofundada, que o nível do conteúdo produzido ultrapasse a informação, ganhe audiência e divulgue novos trabalhos.”

    Além de gravar faixas exclusivas, as bandas ainda batem um papo com o músico e apresentador China, ex-VJ da MTV. A entrevista é lançada junto com o clipe, ou seja, para o pessoal que já curte o artista ou para aqueles que ainda não conhecem, a curadoria é completa, espaço aberto para a boa música, informação e novas influências.

    Neste ano, a previsão de faturamento é de R$ 2 milhões e teve investimento de R$ 35 mil para a nova temporada. Em cada episódio são feitas duas gravações com artistas diferentes, o que custa em torno de R$5 mil, incluindo a manutenção mensal do estúdio. Nesta edição ganharam o apoio do Pátio Cultural, em São Paulo, onde as gravações foram realizadas e já estão com 12 artistas confirmados, entre eles: Ana Canãs, Helio Flanders – do Vanguart –, Rashid, Rodrigo Ogi e Rico Dalasam. “Durante as gravações, todos ressaltaram a importância de projetos como esse para fortalecer o cenário musical no Brasil. Como disse o cantor e compositor Pélico, é o espaço perfeito para o músico mostrar suas composições”, fala Kamada.

    Mulheres Fora da Caixa, apresentado pela cantora Camila Garófalo, tem o intuito de homenagear grandes mulheres que atuaram ou atuam na música, por meio de novas cantoras e compositoras do cenário independente. O programa é divido em três partes: entrevista e duas performances das cantoras convidadas, que cantam uma música que consagrou a homenageada e outra de sua própria autoria.

    A ideia do programa surgiu quando Nilvia Centeno, publicitária da NovaSB, procurou parcerias para criar conteúdo sobre mulheres ícones na música. A produtora de vídeo EdMadeira se uniu à produtora de áudio AmpliMachine para tornar possível a realização do projeto. Fica por conta de Nílvia definir qual cantora do passado será homenageada e Camila escolhe e convida as cantoras que fazem parte do movimento independente do mercado neste momento. Tudo passa pela aprovação final da equipe.

    Exibido no canal do Youtube Fora da Caixa, Mulheres está na sua primeira temporada, que conta com a gravação de seis episódios, sendo duas temporadas por ano, em um total de 12 episódios. As gravações são feitas na produtora de áudio AmpliMachine, uma casa em Pinheiros. Porém, para a próxima temporada a ideia é mudar de local.

    Uma parte dos equipamentos é locada pela Quanta, com 70% de desconto, e os demais, como câmara e edição, fazem parte de uma ação entre amigos. Todos os logotipos dos apoiadores são aplicados em todos os vídeos. “Trabalhamos por meio de parcerias, cada um da equipe contribui como pode. Não há cachê pra ninguém por enquanto, mas a busca por patrocinador já está mapeada para a temporada seguinte”, explica Camila. “Estamos finalizando a primeira e fazendo um balanço dos acertos e erros para deixar a próxima temporada ainda melhor.”

    De acordo com ela, a primeira temporada poderá ser vista como um portifólio para se investir mais acessos para a segunda, já que nesta foram praticamente 10 mil acessos. “A cultura do likes está deixando todo mundo preocupado, porque agora você tem que pagar para que as pessoas vejam o seu conteúdo”, analisa. “A internet está se tornando o que a TV já foi um dia, mas a vantagem é que ainda está muito barato investir em campanhas online, muito mais barato, inclusive, do que investir em um comercial em horário nobre na década de 1990. Tem que surfar na onda do mercado e se arriscar ao máximo agora.”

    Além disso, a meta de Mulheres é atravessar a linha do universo musical e trabalhar, futuramente, com outras áreas, como o cinema, a dança e as artes visuais, pois há muitas mulheres fora da caixa em todos esses nichos. Até agora, tiveram Luiza Lian cantando Elza Soares, Lara e Os Ultraleves cantando Aracy de Almeida, Sara Não Tem Nome interpretando Inezita Barosso, Larissa Baq dando voz à Ângela Ro Ro, Laya cantando Baby do Brasil e Tika cantando Cássia Eller.

    O Elefante Sessions surgiu da vontade do produtor, cinegrafista, editor e diretor natalense, Rodolfo Rodrigues, de produzir algo novo e autoral, em audiovisual, para Youtube. Ele trabalha em produtoras desde 2006. Junto a Eduardo Elali, responsável pelo mix e máster dos áudios, e cinegrafista Ana Luisa Pacheco, que ajuda na captação das imagens, trabalha para que o programa esteja no ar semanalmente. “Começamos em 2014 e a ideia é trabalhar sem temporadas. A produção é simples justamente para isso. Religiosamente publicamos três vídeos do artista da semana.”

    Os três vídeos é como se fosse um episódio, sendo duas música autorais, uma versão de uma composição e mais uma entrevista. No ano são 52 artistas, um por semana. Também são publicados vídeos extras com apresentações ao vivo e gravações especiais de artistas que já passaram pelo canal. Rodrigues explica que o processo funciona como uma troca: ele produz o conteúdo audiovisual com algum tipo de divulgação e o músico entrega sua canção.

    O projeto serve como um cartão de visita para os artistas da cena, dá credibilidade para a produção. “Sendo desta forma, conseguimos fazer outros tipos de produções, como clipes, web clipes, lyric vídeos, ao vivo e sessions. Também ofereço consultoria em redes sociais para os eles.” O custo de cada episódio é de R$1.200, que é absorvido pela produção, pois a produção é gratuita para o artista. O faturamento direto é de R$194 mensais, que vem da monetização do Youtube. “Por isso o projeto se torna sustentável com os trabalhos indiretos.”

    Todo o equipamento é próprio, câmeras DSLR, Go Pro, ferramentas de iluminação, tripé. A edição é por conta do diretor também. Sobre as locações, são sempre em lugares diferentes. Rodrigues conta que quando começou com o Elefantes não sabia no que poderia acontecer, mas ao longo desses dois anos chegou à conclusão de que poderia se tornar uma referência na produção de conteúdo audiovisual para redes sociais, e assim, poder tocar projetos maiores.

    Hoje, está chegando na cada dos 50 mil likes na página de Facebook, com um envolvimento de 200 mil pessoas por semana. No youtube, tem quase 30 mil inscritos e pouco mais de 3,5 milhões de visualizações. Acredita que, quando alcançarem números mais contundentes, como o de 100 mil inscritos ou 100 mil likes no Facebook, por exemplo, será mais fácil de a conversa com possíveis patrocinadores.

    O primeiro artista a viralizar, com ajuda da página do Brasileiríssimos, foi a Nina Oliveira, com mais de R$1,5 milhão de views. Entre os preferidos do público também temos o André Prando, Aline Machado, Indy Naise, Helena Sofia e Bandavoou. “Nós procuramos sons diferentes e inovadores, nada que seja mais do mesmo.” Para ele, o mercado online ainda está engatinhando. Então, é um momento propício para começar os projetos. “Todo patrocínio é bem interessante, mas no momento os principais clientes são os próprios artistas”, finaliza.

     

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