Cultura e Mercado
  • Livrarias: entre o físico e o digital

    O mercado editorial foi novamente destaque da semana. Na segunda-feira (18/8), a Associação Nacional de Livrarias (ANL) apresentou uma pesquisa informando que o Brasil tem hoje 3.095 livrarias. Isso representa, na média, uma para cada 64.954 habitantes. O número passa longe da recomendação da Unesco: uma para cada 10 mil habitantes.

    Nenhuma das 5.570 cidades brasileiras atinge a média proposta pelo órgão internacional. A que mais se aproxima é Belo Horizonte (MG), com uma livraria para 13.848 habitantes. São Paulo possui uma para 35.664 habitantes. Cidades de médio porte, como Marabá (PA), com 243 mil habitantes, e Camaçari (BA), com 255 mil, têm apenas uma livraria.

    Os dados foram apresentados durante a 24ª Convenção da ANL, que teve como outro destaque o debate sobre a lei do preço único, adotada em países como França, Alemanha, Espanha e Argentina. As editoras estabelecem um valor para cada livro lançado e, por um período de tempo, as livrarias só podem oferecer descontos entre 5% e 10%, por exemplo.

    A ANL pretende levar o debate ao Congresso Nacional. “A lei do preço fixo não vai encarecer o livro, vai torná-lo mais acessível à maior parte da população”, afirma o vice-presidente da associação, Augusto Mariotto Kater. “Implantando a regulamentação do mercado, você defende a bibliodiversidade. Os empresários talvez se sentissem incentivados a abrir mais livrarias.”

    Nesta quinta-feira (21/8) teve início, em São Paulo (SP), a 5ª edição do Congresso Internacional do Livro Digital, realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Em uma das mesas, o francês Jean Marie Ozanne, diretor da livraria Folies D’Encre, falou que a lei do preço único é importante em seu país, no entanto, outro fator fundamental é o hábito de leitura da população. “Os franceses são muito ligados ao livro de papel e o mercado digital chegou muito mais tarde lá, em comparação com os EUA. Os livros digitais correspondem a apenas 2% do mercado hoje”, contou.

    Ainda assim, a lei do preço único foi ampliada. “As editoras francesas tentaram colocar uma regra no jogo, que permita que cada um sobreviva sem devorar o outro. Isso resultou na ampliação da lei para os livros digitais”, disse Ozanne, contando que assim os franceses têm conseguido vencer a batalha contra a Amazon.

    Segundo ele, as pequenas livrarias na França têm um papel importante no diálogo com as editoras e com o poder público, para continuar na cadeia produtiva do livro. “Não podemos separar o interesse das livrarias, o das editoras e dos autores. Não podemos deixar que apenas um operador estabeleça sozinho as regras do jogo. Imagine se tivéssemos deixado o McDonald’s estabelecer as regras do jogo da gastronomia?”, questionou.

    Físico x digital – Principal ameaça de monopolização atualmente, a Amazon também foi notícia nesta semana no Brasil, com o lançamento de seu serviço de venda de livros físicos. Jason Merkoski, um dos membros da equipe que desenvolveu o primeiro leitor de livros digitais da gigante norte-americana, o Kindle, fez conferência de abertura do Congresso que acontece até esta sexta-feira (22) no Anhembi – onde também começa a 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

    Durante sua fala, Merkoski fez questão de frisar o quanto ainda é pessoalmente ligado ao livro impresso – ainda tem alguns milhares de exemplares em sua biblioteca -, mas defendeu que o caminho é termos a maioria dos livros em formato digital. “Quando começamos a ler, na infância, a evolução tecnológica do papel já tinha acabado. Mas já tinha havido uma revolução. Nosso desafio hoje, como leitores, é aceitar que a leitura é uma experiência baseada na tecnologia. Livros físicos têm limitações, se desatualizam, estragam.”

    Merkoski é fundador da startup Bookgenie451, criadora de um software que identifica interesses de leitura de estudantes para recomendar livros didáticos. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele fez um previsão nada animadora sobre o futuro das livrarias. “As lojas de livros não conseguirão sobreviver e vão desaparecer. Sobrarão apenas algumas, especializadas em livros impressos, como as que vendem discos de vinil. Vão permanecer no mercado Google e Amazon, infelizmente”, disse.

    Mas ele também afirmou que, conhecendo as pessoas da Amazon, sabe que elas não se importam com o que o consumidor quer. “Elas se importam em como conseguir mais lucro. Uma maneira de fazer isso é empurrando livros populares, negligenciando outros. E infelizmente as pessoas vão aceitar. A curadoria de títulos está na mão dos varejistas.”

    É aí que as livrarias independentes vislumbram sua sobrevivência e até crescimento, apesar das más previsões. Oren Teicher, presidente da American Booksellers Association (ABA) também esteve no Congresso do Livro Digital e trouxe números animadores, pelo menos no mercado norte-americano. Segundo ele, as livrarias independentes de lá vêm vivendo um período de renascença.

    Em 2012, as lojas ligadas à ABA tiveram um crescimento financeiro de 8% em relação a 2011. Em 2013, mantiveram esse ganho e a tendência é que isso permaneça em 2014, apesar dos problemas econômicos do primeiro trimestre. De acordo com Teicher, 45 novas livrarias foram abertas no ano passado, em 20 estados americanos. “A mudança mais importante é que donos de lojas antigas estão encontrando novos consumidores. Há uma década, muitas delas estavam fechadas. Hoje elas encontram novas pessoas dispostas a tocar o negócio”, contou.

    Teicher explicou que uma das principais razões do crescimento tem sido a capacidade das pequenas de entender e adotar novas tecnologias. “Lojas independentes estão adotando várias delas. Algumas pessoas dizem que a tecnologia é inimiga das pequenas livrarias, mas nós temos que utilizá-las de forma inteligente, não lutar contra elas. É impossível ter um negócio viável em 2014 sem ter uma presença na internet.”

    Além do uso para controle de vendas, estoque e folha de pagamento, ele lembrou da importância de fazer bons sites, promover vendas online e usar as redes sociais. “O livreiro é a melhor pessoa para indicar um livro para o cliente, mas precisamos entender que talvez esse cliente queira ler aquele livro no formato digital. Não podemos enfiar a cabeça num buraco e ignorar isso”, afirmou, completando que houve aumento de 18% das vendas online das livrarias independentes nos EUA desde 2008.

    “Existem muitos desafios e dificuldades. Num mundo de conectividade real e constante, temos uma concorrência enorme pelo tempo livre das pessoas. A Amazon é um grande player e usa isso como forma de ameaçar as editoras. Isso provoca um problema para o setor. Mas temos certeza que existe uma receita para que as livrarias físicas sobrevivam e cresçam”, defendeu Teicher.

    E qual é a receita? Para Merkoski, novas formas de criação mudam também os leitores. Por isso, as editoras e livrarias precisam começar a pensar mais pra frente, ter ideias mais avançadas, pensar nas oportunidades da tecnologia. E ouvir de verdade os consumidores. “Dar não só novos livros, mas novos serviços aos clientes. Criar novas experiências de leitura.”

    Teicher completa que é preciso manter o cliente dentro do seu ecossistema. Para isso, são necessárias ações complementares à venda de livros, como produzir eventos e ofertar outros produtos – que têm somado 20% das vendas totais nas lojas nos EUA. “Os membros da ABA sabem que sua participação ainda é pequena, mas ninguém concorre com a gente na forma como apresentamos os livros”, defende. “Paixão e sofisticação nos negócios criam uma experiência de compra única. No final das contas, as independentes têm sucesso porque elas entendem de livros. É por isso que os clientes voltam, mesmo sabendo que poderiam comprar mais barato em outro lugar.”

    Jean Marie Ozanne lembrou que a massa salarial das grandes redes de livrarias na França é de cerca de 11%. Nas livrarias independentes, esse índice vai de 18% a 20%. Isso mostra, segundo ele, que nas pequenas há mais investimento em pessoal qualificado, que consiga atender às exigências do consumidor. “O digital é um espaço sem fronteiras e, quanto menos houver fronteiras, mais as pessoas voltarão ao local físico. É a ideia do comprar localmente. As pessoas estão voltando pro local perto de onde elas moram. Em 2001, muitos diziam que o futuro do comércio seriam os shoppings. Hoje temos um verdadeiro retorno para o comércio local”, afirmou o francês.

    Leia mais:
    Por que precisamos das pequenas livrarias?

    *Com informações do site do jornal O Tempo

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