Cultura e Mercado
  • Cinema sob demanda

    A taxa média de ocupação das salas de cinema brasileiros nos últimos três anos foi de apenas 20%. Isso falando de todos os filmes lançados no país. Se focarmos apenas nos títulos nacionais, essa taxa cai para 12%. O Brasil tem três mil salas de exibição, distribuídas em 10% dos municípios, concentradas na região Sudeste. Cerca de 68% dos filmes são vistos por menos de 10 mil espectadores. “Temos mais salas, a receita aumenta, mas a taxa de ocupação continua a mesma. Me parece que muito pela maneira como a gente ocupa, como podemos acessar o conteúdo que está nas salas”, alertou Raphael Erichsen na mesa que teve como tema o cinema sob demanda, durante o Rio Content Market, na última quinta-feira (10/3).

    Foto: Fredrik ThommesenErichsen é diretor do Kinorama, plataforma de internet que pretende ser uma interface entre realizadores, exibidores e público de cinema no Brasil. “Os filmes são lançados, fazem grande esforço para conseguir entrar em cartaz, e quando entram conseguem algumas sessões com bastante público e muitas sessões com meia dúzia de pessoas”, completou Carolina Misoreli, sócia-fundadora da Taturana (empresa que promove a articulação de redes para o lançamento de materiais audiovisuais) e parceira de Erichsen no Kinorama.

    “Existe um mercado potencial muito vasto, mas temos necessidade urgente de formação de público. Precisamos pensar numa forma das pessoas conhecerem essas produções, até para abrir oportunidades em outras janelas”, disse Carolina. Para Erichsen, a maneira que o circuito é pensado hoje em dia ainda sofre com um engessamento que vem da própria “cultura do circuito”.

    Como transformar isso, para que mais filmes tenham acesso às salas, para que custe menos colocar um filme no cinema, e aproveitar melhor essas janelas? Como melhorar o acesso a produtos que não são mainstream? Como reformular a lógica de distribuição para ter mais resultado? Por que investir tanto na produção e na hora de circular o produto não usar todo esse potencial criativo e criar uma estratégia efetiva para cada filme?

    Foi com essas questões em mente que surgiu o Kinorama. “O cinema ainda está bastante atrasado em usar as ferramentas da rede para se comunicar. Temos que nos modernizar na junção das ferramentas. Há que se testar, que se colocar em prática”, afirmou Adhemar Oliveira, diretor de programação do Grupo Espaço de Cinema. Ele explicou que, ao estrear em uma sala com quatro horários, um filme que faz 100 pessoas não paga o custo da sala. Nesse caso, o cinema ou fecha ou vive apenas com subsídio de alguma outra empresa. “Cinema é avião: se decolar com 10 pessoas, o preço pra mim é o mesmo”, comparou.

    Experiência compartilhada – Neste sentido, ações que reúnam o público daquele produto em determinados horários podem ser bastante úteis. E a proposta do Kinorama é justamente reunir as pessoas interessadas em assistir a um filme em sessões pré-combinadas. Qualquer pessoa pode demandar e financiar coletivamente uma sessão de cinema, a partir de operação em parceria com o Catarse, maior plataforma de crowdfunding do Brasil.

    Para dar início aos trabalhos, foi lançado o Edital Cinema Sob Demanda. O objetivo é selecionar filmes longa­metragem (entre 50 e 120 minutos) brasileiros produzidos por realizadores independentes que tenham interesse em distribuir sua obra em salas de cinema sob demanda e em circuito alternativo (universidades, cineclubes etc.) por todo o Brasil.

    Os interessados deverão enviar um corte do filme – que deve estar finalizado até 11 de maio de 2016. Os projetos serão examinados em três etapas para se definir o vencedor, que será premiado com: cinco exibições em salas dos circuitos Itaú Cinemas, Cinespaço e Cinearte, com estratégia a ser definida de acordo com o perfil do filme selecionado, utilizando a plataforma do Kinorama para promover as sessões; pelo menos 50 exibições em circuito de difusão social articulado pela Taturana, junto a parceiros em todo o Brasil, que formarão uma rede de exibição do filme em centros culturais, cineclubes, escolas, organizações e instituições sociais, pontos de cultura, universidades, coletivos, praças, equipamentos públicos etc; e um contrato de distribuição em VOD com a Sofá Digital.

    As inscrições podem ser feitas até o dia 11 de abril, no site www.cinemasobdemanda.com.br.

    Carolina acredita que, apesar de vivermos em um momento em que o computador, o tablet e o celular são as principais telas para grande parte das pessoas, ir à sala de cinema – ainda mais se isso for acompanhado de uma conversa sobre o filme – é algo que ainda interessa ao público. Além disso, para ela, quanto mais as pessoas conversam sobre a diversidade de linguagens no audiovisual, mais ampliam seu repertório e se apropriam dele. É essa a experiência que a Taturana tem após a realização de mais de exibições e debates em mais 300 cidades onde já estiveram. “As pessoas querem essa experiência coletiva”, disse.

    Do ponto de vista do exibidor, a ferramenta otimiza o negócio. “Não é só uma questão de ter dinheiro para distribuir o filme”, pontou Oliveira, lembrando que cada um precisa encontrar o nicho da sua obra. “Com as ferramentas adequadas e sabendo para quem você quer falar, você encontra os seus mobilizadores.”

    Erichsen finalizou: “A gente está propondo ampliar as janelas, não diminuir. Vai ser difícil lutar contra os grandes estúdios? Vai. Mas estamos lutando para conseguir acessar esse espaço que está lá.”

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