Cultura e Mercado
  • Por que ainda falamos sobre rádio?

    “Ainda estamos falando de rádio porque a gente sente falta de tudo que já foi delícia no rádio, e que com o tempo as comerciais foram perdendo. Porque perderam a essência da coisa: fazer uma comunicação quente, ativa, verdadeira. Estamos aqui conversando sobre rádio porque não temos mais a rádio que queremos ouvir ou que queremos fazer.”

    Foto: Alexandre DulaunoyA afirmação da radialista Patrícia Palumbo resume boa parte da conversa que aconteceu nesta quinta-feira (12/11) na sede do Cultura e Mercado, em São Paulo (SP), durante a segunda edição do Conversas sobre Cultura e Mercado, um bate-papo mensal sobre assuntos abordados no site e nos cursos promovidos pela empresa.

    O tema surgiu a partir de provocações de cinco especialistas que estarão reunidos de 31 de março a 8 de abril de 2016, na Jornada de Rádio e Experimentação. A proposta da jornalista, pesquisadora musical e radialista Debora Pill, juntamente com Amadeu Zoe (dada Radio), Biancamaria Binazzi (Goma-Laca), Julio de Paula (Rádio Cultura SP) e Roberta Martinelli (programa Cultura Livre), é repensar padrões, propor linguagens e encontrar novos caminhos para a criação em rádio.

    “Estamos aqui buscando alternativas de formatos e conteúdos”, afirmou Julio durante a conversa, lembrando que a produção em rádio vai muito além da música. “Talvez esse seja o momento para pensar em que tipo de conteúdo podemos oferecer, o que mais podemos propor para esse rádio”, completou.

    Para Debora, os motivos para o ouvinte permanecer na rádio tradicional estão acabando. Por isso, é preciso pensar junto em uma nova forma de fazer. “Quem está com a planilha do comercial não está pensando nisso”, alertou.

    Em entrevista por e-mail, o músico e radialista Daniel Daibem afirma que acredita que falta à corporação rádio entender o que colocar e, principalmente, o que não colocar no ar. “Ouço muitos boletins de vários assuntos, geralmente fechados por esquema de permuta – moeda de troca que promove a preguiça de quem cede e de quem ganha o espaço para veicular conteúdo -, com gente que não domina a comunicação na linguagem de rádio, ocupando espaço e, inclusive, aumentando o tempo de breaks comerciais. O ouvinte não pensa duas vezes: ele muda de estação na hora. Tem esse poder”. Para ele, isso é mais culpa do modelo de negócio e da gestão do que do profissional do rádio. Ou, em outras palavras, “a velha falta de comunicação entre o Departamento Artístico e o Departamento Comercial”.

    Se o rádio não é mais o lugar onde as pessoas vão buscar o lançamento, o que cabe a ele, segundo Daibem, é criar uma paisagem sonora coerente com quem se deseja comunicar, seja na questão do conteúdo das ideias ou musical. “Acredito que o rádio tenha um potencial eterno do que chamo de ‘companhia’. Mas não é simplesmente aquela companhia do locutor-clima-rádio-de-sala-de-espera dizendo ‘olá, aqui é fulano, fazendo companhia pra você até às oito, e a gente segue com o som de…’. É a figura do orientador.”

    A paranaense Janete El Haouli é musicista e pesquisadora com ênfase na experimentação sonora da voz, do rádio e da criação com paisagens sonoras. Para ela, é necessário impulsionar a criatividade e inventividade possibilitando a experimentação e a produção de conteúdos radiofônicos mais instigantes e que possam surpreender os ouvintes. “Fomentar e principalmente instigar a curiosidade dos produtores das emissoras para explorarem essa mídia sonora me parece fundamental. O que vemos/ouvimos, de modo geral, é a repetição de modelos padronizados de produção e de programação radiofônica. E pior, tal modelo é retransmitido pela internet sendo que essa plataforma possibilitaria tantas e variadas experimentações”, alerta (clique aqui para ler a entrevista completa).

    “É quase um círculo vicioso: não tem rádio-documentário, por exemplo, porque as pessoas não ouvem. Mas elas não ouvem porque não tem”, pontuou Julio. “Creio que o primeiro passo seja tirar do ar o que não funciona mais. Enxugar mesmo, sem dó”, declara Daibem.

    Outros passos, para Patrícia, seriam criar novos tipos de associação para distribuição de novos formatos e conteúdos e educar para fazer rádio. “Talvez devêssemos questionar e reavaliar a disciplina de rádio estar presente apenas nos cursos de Comunicação Social/Jornalismo e Rádio/TV”, completa Janete. “Existem os profissionais de rádio que tiveram sua formação acadêmica e outros que a tiveram na prática. No entanto, observo que a maioria desses profissionais (dentro e fora da Academia) desconhecem as produções históricas do chamado rádio artístico ou radioarte, bem como do rádio cultural, educativo. Portanto, não apresentam aos estudantes as diferentes modalidades e possibilidades do que poderia ser a experimentação da linguagem sonora radiofônica.”

    Assista abaixo, na íntegra, a conversa dessa quinta-feira:

    Tags:, , , , , , ,