Cultura e Mercado
  • Aviso de incêndio: o Brasil em chamas

    Estivemos digerindo amargamente cada imagem, testemunho, cada reportagem sobre o incêndio no Museu Nacional, tragédia anunciada por uma conjuntura de abandono, desinteresse, cortes dramáticos de orçamento e sobretudo, desentendimento grave sobre a manutenção e permanência do nosso patrimônio. Os últimos dias foram de dor, tentativas de compreensão e uma absoluta ressaca moral.

    Nós do Cultura e Mercado transmitimos nosso pesar e solidariedade à toda equipe do Museu Nacional e da UFRJ. Apesar das toneladas de informações recentes, que mal têm tempo para ser assimiladas, não há palavras suficientes para descrever o tamanho da perda da identidade e memória brasileira que residia nos mais de 20 milhões de itens queimados, no trabalho incansável e perene dos pesquisadores, de todo o corpo técnico e operacional envolvido.

    PERDA MATERIAL
    Um museu como este é feito a mil mãos. Originalmente criado por D. João VI, em 1818, desde 1892 ocupava um prédio histórico, o palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista (zona norte do Rio de Janeiro). O museu havia acabado de completar 200 anos em junho.

    Não custa lembrar parte do patrimônio material que foi perdido:
    – O esqueleto de Luzia, fóssil mais antigo encontrado no país, com cerca de 12.000 anos, no município de Lagoa Santa, próximo a Belo Horizonte. ”Um farol para a História da América”, segundo o professor Fernando Horta.
    – Milhares de artefatos indígenas da América do Sul – como os trajes usados em cerimônias por índios brasileiros há mais de 100 anos.
    – A maior coleção de arqueologia egípcia da América Latina;
    – Um dos maiores acervos paleontológicos do continente;
    – Uma enorme coleção de Arqueologia clássica;
    – Biblioteca científica com 470 mil livros.

    PROBLEMAS
    São muitos, mas alguns dos observados, através de fontes oficiais e internas, são recorrentes em muitos museus e instituições culturais brasileiros. A começar pelos recursos escassos (R$ 550 mil), sendo que o museu só recebe 60% desta verba há três anos. Os contratos (já terceirizados) de manutenção também foram suspensos devido aos cortes de orçamento.

    Os problemas estruturais do Museu Nacional vêm de longa data, indo de rachaduras à infestação de cupins até problemas no circuito elétrico, sendo que algumas de suas atrações principais não podiam mais ser visitadas em decorrência deles. Em Nota Oficial em seu site, o BNDES comenta sobre a verba de 21,7 milhões destinada à revitalização do museu, aprovada em junho de 2018, cujo primeiro reembolso seria feito em outubro – depois do período eleitoral.

    EMBARAÇO
    Não bastando o horror pelo sentimento patriótico que naturalmente urge nessas horas, há de se lidar com a sensibilidade de outros países cujo acervo também foi perdido. Em matéria para a BBC,  o arqueólogo Zahi Hawass, ex-ministro de Antiguidades do Egito, mostrou sua incredulidade com a falta de proteção e zelo a um grande museu metropolitano. Ele diz que ”a tragédia legitima o movimento pela repatriação de objetos egípcios em museus espalhados pelo mundo”.

    HISTÓRICO PAULISTANO
    O país está em chamas. Na internet muitos chegam a perguntar, em bom tom de escárnio, porquê museus e favelas aparentemente são tão inflamáveis no Brasil.
    O histórico paulistano de incêndios em organizações culturais e históricas é particularmente curioso, como se observa abaixo:

    incendios

    MUSEUS À BEIRA DO ABISMO
    Ademais da recorrente questão da má distribuição de museus no país, os sobreviventes precisam lidar com toda sorte de adversidades. Assunto que rende uma matéria à parte, contudo, vale ressaltar um dos casos mais emblemáticos: o Museu do Ipiranga (Museu Paulista), fechado em 2013 sob risco de desabamento e com apenas alguns serviços emergenciais executados desde então.
    Outra notícia recente foi do Museu da Casa Brasileira, que corre o risco de ser despejado. O site Buzzfeed fez uma coletânea de casos na matéria ”11 museus que respiram por aparelhos”, que você pode ler clicando aqui.

    RECONSTRUÇÃO?
    O Museu Nacional era a mais antiga e relevante instituição científica do Brasil, cujo acervo era subdividido em coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia.

    Há polêmica sobre os próximos passos. Em Nota Oficial para a imprensa, a equipe do Museu Nacional afirma que o Ministério da Educação anunciou ”a liberação de R$ 10 milhões para a adoção de medidas emergenciais para a segurança do Palácio sede do Museu Nacional e de R$ 5 milhões para a elaboração do projeto executivo de reconstrução do Museu”.

    Para matéria do G1, Alexander Kellner, presidente do museu, disse que “o Museu Nacional, no sentido que a gente conhecia, não existe mais. Só que nós temos o principal patrimônio que é o palácio. A gente pode reconstituir o palácio. Um dos pontos que nos deixa sensibilizados são os outros pequenos museus, até mesmo do Brasil e de fora, se solidarizando com o Museu Nacional e querendo doar acervo. (…) Também não adianta ter acervo e a situação continuar como está. A gente tem que aprender com esses erros”.

    É de opinião semelhante o antropólogo Eduardo Viveiros de Freitas, que ”não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno. (…) Gostaria que aquilo permanecesse em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial”.

    Olhar para frente tem sido difícil. Difícil primeiramente porque, com o apagamento do passado, gradual e inequívoco, não há referência para dimensionar o futuro. E difícil pois são muitos os desafios que fragilizam as convicções: a tragédia do Museu Nacional evidencia o empurra-empurra de responsabilidades, de um lado; do outro, um oceano de informações precisas que navegam lado a lado com Fake News.

    A Cultura tem sofrido a duras penas – todos os amigos e parceiros do setor confirmam um panorama de crise inigualável.

    Ainda que o governo atual venha se mostrando ímpar no desmonte de programas e equipamentos culturais, a ignorância persiste de outros tempos e nos próximos. Segundo matéria da Agência Lupa, apenas 02 dos 13 programas presidenciais falam em proteção a museus (leia na íntegra aqui).

    É preciso se atentar, mais do que nunca, aos planos e históricos dos candidatos nas próximas eleições.
    Passa da hora de permanecermos unidos. O que muito se vê ainda nos atos e manifestações do setor cultural são presenças segmentadas: estão os da Música, Teatro, Artes Visuais e assim por diante, muitas vezes, apartados entre si. Situações da relevância do Museu Nacional costumam juntar forças de planos diversos e é preciso manter esse brado uníssono.
    É preciso convocar os amigos dispostos, de outros setores e profissões, para engrossar o coro das nossas pautas.
    É hora de respirar, permanecer firmes e buscar apoio e companhia daqueles que caminham conosco, pois a Cultura não para.

    LINKS E REFERÊNCIAS 

    – Unesco compara incêndio no Museu Nacional, no Rio, à destruição de Palmira, na Síria. Em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/09/03/unesco-compara-incendio-no-museu-nacional-no-rio-a-destruicao-de-palmira-na-siria.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

    – Quem não protege nossa arte deve devolvê-la, diz arqueólogo egípcio sobre incêndio no Museu Nacional. Em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45364002?ocid=socialflow_facebook

    – Diretor do Museu Nacional vai a Brasília assinar liberação de R$ 10 milhões. Em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/04/diretor-do-museu-nacional-vai-a-brasilia-assinar-liberacao-de-r-10-milhoes.ghtml

    – O que se sabe sobre o incêndio no Museu Nacional, no Rio. Em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/04/o-que-se-sabe-sobre-o-incendio-no-museu-nacional-no-rio.ghtml

    – Museu do Ipiranga, fechado às pressas há 04 anos, ainda nem iniciou reforma. Em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/09/1914828-museu-do-ipiranga-fechado-as-pressas-ha-4-anos-ainda-nem-iniciou-reforma.shtml

    – Eduardo Viveiros de Castro: ”Gostaria que o Museu Nacional permanecesse como ruína, memória das coisas mortas”. Em: https://www.publico.pt/2018/09/04/culturaipsilon/entrevista/eduardo-viveiros-de-castro-gostaria-que-o-museu-nacional-permanecesse-como-ruina-memoria-das-coisas-mortas-1843021

    – Nota do BNDES: Museu Nacional. Em: https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/imprensa/noticias/conteudo/nota-do-bndes-museu-nacional

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