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Posts publicados por Px Silveira:

Ruim com ele, pior sem ele

“Gente estúpida, gente hipócrita”, canta Gilberto Gil em uma de suas músicas, referindo-se aos homens públicos. Mas até que ponto ele, em sendo governo durante duas legislaturas, não corre o risco de se transformar e já fazer parte dessa mesma gente? Continuação »

A Casa Cor e a Cadeia

Previno àqueles leitores que este artigo não tem nada a ver com o anterior em que denunciava manobras em benefício próprio do atual Secretário Municipal de Cultura e sugeria ao prefeito da cidade de Goiânia uma resposta à sociedade –que ainda não foi dada. Não, senhores, não sou nenhum justiceiro. Esse artigo de agora trata de simples amenidades. Para os que as desejam, vamos a elas. Continuação »

Os jornais e o fim do mundo

Para além da repercussão que suas páginas ecoam nos mais diversos tipos de leitores, acho gratificante escrever no Diário da Manhã* porque a paga é maior que a de qualquer outro órgão da imprensa brasileira. Continuação »

Px Silveira faz a crítica do recente editorial publicado no jornal O Estado de São Paulo sobre a Lei Rouanet: “o jornalão paulista, em sua rota de transatlântico, incorre no erro de comparar bens materiais com bens simbólicos, afirmando, com todas as letras, que se os incentivos franqueados à cultura fossem propiciados às outras áreas, como a saúde e a engenharia, por exemplo, teríamos o hospital de um particular construído pelo dinheiro público, a estrada de uso particular construída pela dinheiro público, e assim por diante, não ficando ninguém para pagar os impostos” Continuação »

Pedagogia da cultura

Px Silveira retoma a discussão sobre a Lei Rouanet, com uma análise do nosso estágio de desenvolvimento democrático, expondo as zonas de conflito em torno dos usos da lei Continuação »

A carta jamais respondida

A atual discussão que se opera em torno das leis de mecenato no Brasil está fora de foco. A CNIC está podre. Não a lei Rouanet. Continuação »

A carta jamais respondida

Px Silveira disseca os problemas da Lei Rouanet com foco na CNIC, da qual foi afastado à força pelo MinC Continuação »

CNIC no limite

Novas regras são criadas cotidianamente no âmbito da Lei Rouanet. Em tempos de definição da nova composição da CNIC, vale reproduzir os apontamentos postados no Blog do Brant por Px Silveira, que já dirigiu a Funarte em SP e já foi conselheiro da comissão Continuação »

Woodstock Cultural

Px Silveira trata nesta edição da Tribuna do papel dos Pontos de Cultura na construção de uma política pública, e da relação entre as políticas discutidas na Teia e a nova Economia da Cultura que se desenha no país. Continuação »

Portopensarte é o lo-kaos

Fatores dinâmicos nos conduzem, necessariamente, a uma renovação profunda das instituições de representação, aglutinação e difusão cultural, o que outrora recebia o nome de “centros culturais”.
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“O programa Cultura Viva é um empurrão histórico que vai enfim potencializar o amálgama das raças de que falavam próceres intelectuais brasileiros e que hoje são ecoados ponto por ponto, sendo cada um uma sílaba desse tempo presente” Continuação »

Existe ainda uma saída

“Outro sinal do despreparo reinante entre os aspirantes a poderosos de todos os rincões desta nação pode ser medido pela alienação e pelo desinteresse quase repulsivo que eles têm pela cultura” Continuação »

O presidente do Instituto Pensarte assume cadeira na nova CNIC e faz um balanço das alterações institucionais sofridas pelo MinC Continuação »

Mais uma da globalização

A competitividade global contemporânea está se vendo obrigada a incluir o dado cultural como relevante ao que era meramente econômico e político Continuação »

Trocar dívida por cultura

PX Silveira analisa a conversão da dívida externa em investimentos em educação como uma nova forma de cooperação internacional.

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Capital da esperança

Globalização, cultura e terceiro setor são aparições freqüentes em nosso imaginário verbal. O que tudo isso que lemos, vivemos e temos em mãos pode fazer pela vida que a gente quer? É claro que a cultura é a única resposta possível. Mas qual é mesmo a pergunta? Continuação »

Planeta Terra, América do Sul, Brasil, São Paulo, monitor de tv: o homem vai ser clonado! A notícia soa quase que banal, junto a outras, que destoam: mais de um bilhão deles vivem sem emprego e abaixo do padrão mínimo de dignidade estabelecido por órgãos internacionais de assistência. Se o homem pode ver tão longe, porque não enxerga ao seu redor?

Somos esmagados cotidianamente pelas conseqüências de alguma coisa a que chamamos progresso: industrialização ilimitada, reações químicas e biológicas fora do controle da razão, radiações e poluições múltiplas, depredações econômicas dos megas investidores, esses terríveis predadores que circulam pelo mercado mundial. A esse coquetel indigesto vem se juntar um toque de horror: o tráfico de pessoas e órgãos, a violência urbana, os conflitos armados e, sim, também somos esmagados pelos cataclismos naturais: inundações, terremotos, vulcões e vendavais.

Se nós, adultos, estamos assustados e desorganizados, imaginemos então as crianças, pequenos seres profundamente dependentes de um mundo para o qual elas não encontram explicação.

Mas nem tudo está perdido, pairando sobre nossas cabeças ainda há uma espécie de mágica, vemos a força da vida resistir e resistimos com ela. E, bem lá dentro de nós, sobrevivem a expectativa e a esperança. Nos pequenos detalhes parecem estar os indícios de uma mudança. Entre eles, uma necessidade vem se tornando óbvia e patente: a cada dia que passa precisamos de mais consciência cultural, social e planetária, que passa a ser a moeda forte de qualquer saída possível.

Nós, viventes que viemos do século passado, devemos ser diariamente a ponte por onde passa a história presente da humanidade. E, se possível, ser essa ponte de forma constante, conscientemente, fazendo tudo que estiver ao nosso alcance para nos tornar bons ascendentes. E a figura de ponta dessa postura perante a vida há de ser sempre a criança, que é nossa única possibilidade do passo seguinte.

Elas, as crianças, são como mensagens que enviamos ao futuro. Nas condições atuais de país periférico, no Brasil pouco fazemos além de atirar essas mensagens às águas de um mar proceloso e imprevisível. O que mais eu e você podemos fazer? A pergunta soa imprudente, mas não quer calar.

A verdade é que vivemos à margem do primeiro mundo e em um lugar onde os artigos dos direitos humanos soam por vezes como peças de uma ficção social. Temos muito o que fazer, talvez mais do que em qualquer outro lugar do planeta. Uma tarefa de gigante, tal como é nossa estatura geográfica.

Neste tipo de atividade, que é de conscientização e portanto deve atuar também no plano conceitual, as ações, por menores que sejam, são contabilizadas ainda muito mais pela intenção do que pelos resultados. É que havendo a intenção, qualquer que seja a atividade, esta se contará como um ponto a mais a favor em um placar que nos acusa uma goleada estonteante. Pudera. Os representantes que elegemos nestes anos todos só muito recentemente acordaram para a dimensão do problema.

A lei do Estatuto da Criança e do Adolescente é ainda muito recente no Brasil, foi promulgada em 1990. Sua insipiência agrava-se por uma abordagem por vezes um tanto incoerente e pelo seu conteúdo desatualizado, mesmo sendo poucos os seus anos de vida. Faltam ali temas importantíssimos como a responsabilidade penal, a instituição do trabalho e os investimentos na educação, por exemplo. Ainda assim, cresce a cada dia a importância de sua divulgação permanente junto a todos os setores e faixas etárias da população.

Conforme atesta o Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan: “Os Direitos Humanos não são estrangeiros a nenhuma cultura e são nativos de todas as nações”. E aqui é preciso entender o Estatuto da Criança e do Adolescente como uma declaração de especificação etária dos proclamados direitos humanos universais - que nem sempre são locais.

Em mensagem encaminhada à Assembléia Geral das Nações Unidas, o Papa João Paulo II afirmou que “… a ONU tem, assim, contribuído de forma decisiva para o estímulo internacional dos Direitos Humanos, ajudando a criar e fortalecer as legislações nacionais e permitindo que milhões de homens, mulheres e crianças vivam com mais dignidade”, mas ponderou, “no entanto, ao observar o mundo atual, esses direitos fundamentais continuam sendo objeto de graves e constantes violações”.

No que diz respeito ao mundo do nosso lado de cá, em um rápido histórico podemos citar alguns dos mais importantes acontecimentos que colaboraram para que a historiografia brasileira passe a considerar as crianças no contexto social.

Os primeiros registros ocorrem somente no início do século 20, quando vemos pela primeira vez o Estado saindo de sua inércia e estabelecendo algumas diretrizes no tratamento da questão. É de 1902 a criação do Instituto Disciplinar do Tatuapé, em São Paulo, versão inicial da Febem. O surgimento deste Instituto representa a primeira consolidação prática das leis de assistência e proteção a menores que viriam a constituir o Código de Menores, de 1927.

Já em 1934 estava em plena atividade a Cruzada Pró-Infância, entidade beneficente fundada sob os auspícios da Associação de Educação Sanitária, com o objetivo de combater a mortalidade infantil, adotando os princípios dos Direitos da Criança e da Gestante, promulgados em convenção de Genebra ocorrida em 1924.

A Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959), da qual o Brasil foi um dos signatários, proclama a igualdade entre todas as crianças, independentemente de cor, sexo, riqueza, origem e religião. Suas conquistas foram inscritas em nossa Constituição de 1988 e são tributárias do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 13 de julho de 1990.

Reza o ECA, entre outras peças de ficção, “que toda criança tem direito igual à educação, que a criança deve ser tratada como prioridade absoluta da nação, sujeito de direitos, proibindo-se qualquer forma de discriminação ou exclusão”. Portanto, o que vemos hoje em toda parte, na verdade, são flagrantes desrespeitos à lei e aos preceitos constitucionais.

Em fatos e fotos - e na prática, hoje temos as crianças e adolescentes pontuando como nunca as matérias dos jornais. As chacinas, a delinqüência e criminalidade infanto-juvenis, as rebeliões nas instituições disciplinares próprias para menores, a imagem de meninos e meninas enegrecidos pelo carvão e pelo pó nas minas do país, os anjos doentes, prostituídos, os entes exauridos pela fome ou simplesmente depauperados pelo trabalho exaustivo e insalubre, os mendigos mirins, enfim, os meninos e meninas por todas as esquinas do Brasil. Onde estão os cidadãos investidos do poder, que não tomam uma atitude? Para que servem as leis e as autoridades, afinal? O que anestesia assim nossa indignação?

São questões desconcertantes e atuais, mas que dói ainda mais lembrar, estão longe de ser recentes. Em uma mostra de que o desprezo por uma solução dos problemas dos menores e a indiferença dos adultos vêm de longe, ouçamos o que dizia o médico baiano, Alfredo Ferreira de Magalhães, já em 1922: “A proteção dos meninos infelizes é ao mesmo tempo a proteção dos nossos filhos; devemos ter o máximo de interesse em alcançar para os meninos desgraçados uma certa dose de moralidade e felicidade, de saúde e de bem-estar (…) não se deverá esquecer também que as altas virtudes de uma elite de nada servem se nas camadas inferiores se acumulam seres cuja decadência nos inquieta”. Essas são, há anos, as notícias.

Mas nem tudo são espinhos. Há muita gente boa trabalhando na questão e temos algumas novidades positivas, ainda que no plano teórico ou restritas a pequenos grupos experimentais.

Diversas recomendações, programas e mudanças já se encontram aprovadas dentro do entendimento de uma Agenda Pela Infância no Terceiro Milênio, promovido pelos governos nacionais vinculados ao sistema das Nações Unidas.

Experiências interessantes no tratamento da questão da criança estão ocorrendo no campo prático ao redor do mundo. No Marrocos, por exemplo, busca-se deslocar o olhar e fazer uma abordagem pelo o ângulo das próprias crianças e não apenas pela visão do adulto sobre elas. Já foi apresentada na ONU a carta de seu Parlamento de Crianças, uma contribuição do mundo infantil à cúpula erada que se debruça sobre a questão sem representantes do público a que se destinam suas decisões.

Em países como a Suíça, França e Itália existem os Conselhos de Crianças, criados para que elas participem verdadeiramente dos processos de decisões das administrações públicas.

São conquistas de posições irreversíveis no sentido de uma contribuição social da criança para a organização global. O que falta agora é sistematizar estes movimentos, que pela primeira vez agregam a participação das crianças nos processos de construção e organização social da vida, no intuito de se estabelecer uma nova ordem dos valores comunitários das nações.

Já é hora de reconhecer que a diversidade cultural infantil é um tesouro que ainda não sabemos lapidar, ou melhor, que não se consegue transportar ou armazenar, é preciso que os humanos que estão na graça da infância possam eles mesmos se manifestar e possibilitar o estabelecimento de uma organização mais ampla e fecunda a favor de todos.

Nada de novo sob o sol. A sabedoria popular já aventava essa hipótese da participação da criança na decisão dos destinos sociais. É o que acontece em alguns lugares, por exemplo, na tradicional Festa do Divino Espírito Santo, em que é simbolizada a entrega do poder à criança, constituída Imperador.

Na representação deste auto popular de origem lusitana que se repete anualmente há séculos com suas variantes, a criança, então investida do poder, como primeiro ato resolve abrir as portas da cadeia da cidade e, em seguida, promove um imenso banquete aos pobres.

São apenas situações de uma festa popular de fundo religioso, mas que bem poderiam constituir uma metáfora para o que há de vir se um dia as crianças participarem efetivamente da mesa mundial de decisões. Um sonho. Mas antes de mais nada é preciso sonhar, para então ser formulado o desejo e depois instalá-lo na prática, forjando a realidade.

As crianças de hoje - e as que há em nós, agradecem.

PX Silveira é cineasta documentarista, dirige a Fundação Nacional de Arte em São Paulo, órgão do Ministério da Cultura. E-mail: rasilveira@hotmail.com

Px Silveira

Foi realizado em São Paulo, na semana de 28 de maio a 01 de junho, o Seminário Observatório, atividade que inaugurou o Projeto Fábrica da Cultura, idealizado pela Fundação Nacional de Arte/Funarte e Ministério da Cultura, com o apoio do Ministério da Educação, do Instituto Getch de Cultura e Cidadania e do Instituto Pensarte.

Muitos foram os participantes e muitas foram as atividades. Aos ilustres palestrantes, expositores e oficineiros veio se juntar uma platéia diversificada, participativa e ávida de saber e fazer culturais.

No espaço de tempo de cinco dias, foram realizadas nos Galpões da Fábrica da Cultura l0 palestras, 15 oficinas e 05 painéis, além de intensa programação noturna que consistiu de espetáculos teatrais, apresentações de projetos, lançamentos de diversos livros, inaugurações de novos espaços culturais (Galeria de Foto São Paulo/Brasil e Galpão da Ópera), depoimentos, com a abertura da série “Meditações de Emergência”, e muito intercâmbio de informações.

O Secretário da Cultura do Município de Goiânia, Sandro Lima, foi um dos palestrantes inaugurais, juntamente com o Secretário do Município de São Paulo, Marco Aurélio, e com o Presidente do Instituto Pensarte, Leonardo Brant.

O Seminário prosseguiu com cada dia dedicado a um tema. O primeiro deles foi “Políticas Públicas Para a Cultura”. A terça feira foi dedicada ao tema “Mídia e Cultura”. Seguiram-se os temas “Cultura e Empresa”, “Produção Cultural” e, na sexta feira, “Educação e Formação”.

O registro do evento pode ser conferido passo a passo no site www.lojafunarte.com.br

A realização do Seminário se revelou um marco dentro da Funarte e do Ministério da Cultura, inaugurando uma nova prática de contato com os diversos segmentos da cultura no Brasil.

Uma de suas conseqüências imediatas foi a decisão pela alta esfera da Funarte e Ministério da Cultura de realizar edições da Fábrica da Cultura em algumas capitais do País. A primeira delas deverá ser na cidade de Goiânia, cujos entendimentos já se iniciaram e estão facilitados exatamente devida à participação marcante desta cidade no evento de São Paulo. O evento se dará no início do mês de outubro, dentro das comemorações do aniversário da cidade. Em seguida, a Funarte realizará o Seminário da Fábrica nas cidades de Fortaleza, Ceará, e São Luis, Maranhão, ainda este ano.

Diversas cidades do Brasil se fizeram presentes no seminário inaugural da Fábrica da Cultura. A cidade de Goiânia foi a segunda maior delegação (oito participantes), perdendo apenas para São Luis (11 participantes). Representantes de outras cidades, além de São Paulo, se fizeram presentes, como Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Belém, Manaus, Belo Horizonte, Ouro Preto e Uberlândia.

Os objetivos desta primeira atividade da Fábrica da Cultura foram plenamente alcançados, não só pelo conteúdo do que foi exposto e discutido, mas também pelo mérito de reunir tantas diversidades e visões da cultura no Brasil, provocando reflexões de maneira aberta e democrática, e inaugurando no âmbito do Ministério da Cultura e do panorama brasileiro uma frente de trabalho que promete muitos outros desdobramentos.

Já estão definidas três novas atividades da Fábrica da Cultura. Em breve os detalhes poderão ser conferidos no site www.lojafunarte.com.br/opatio

Px Silveira

Na ópera pop Jesus Christ Superstar, que agitou o sohwbusiness na década de 70, lembro-me quando Maria Madalena tenta no fim do dia consolar um Jesus estafado, prostrado diante de tanta miséria a seu redor. Ela então canta para ele alguns versos muito simples, embalados numa melodia suave, que traduzidos diriam mais ou menos assim: “Feche os olhos, tenta não se preocupar com nada nem com ninguém, esqueça os problemas que os afligem e te deixam triste, feche os olhos e deixe o mundo girar sem você ao menos esta noite”.

Vivesse nos dias de hoje, Maria Madalena se espantaria com a facilidade com que fechamos nossos olhos e, tranqüilamente, dormimos, não dando a mínima para o que acontece ao nosso lado, cara. Pouco importa, por exemplo, se o mundo está perdendo a guerra contra a fome e se vamos chegando a 1 bilhão de subnutridos, num planeta faminto. Não sei dizer quando essa indiferença começou a se manifestar, mas sei que a gente não era assim.

Em verdade, hoje ninguém mais consegue viver sem uma boa dose de indiferença da pura e um certo cinismo embutido na personalidade, sustentando uma pretensa normalidade do dia-a-dia. Antes de dizer que constituímos hoje uma classe de cínicos, diria, no entanto, que somos a classe dos sonâmbulos. O que parecer ser um pouco pior.

No mundo contemporâneo o ato de dormir não é mais apenas um estado fisiológico, uma necessidade do corpo. Passou a ser um estado político, uma necessidade social. Uma questão de opção a que somos forçados a aderir em nome da sustentabilidade moral. Dormir é a nossa maneira de nos relacionar com o mundo. Ou melhor, é a nossa maneira de “encarar” a realidade, tentando filtrar o que estamos vendo. E parece que agimos assim com razão, pois haveria outra forma?

Ao menor sinal de que o alarme da vida real vai soar, nós simplesmente desligamos o despertador e continuamos na sonolência possível, nesta irresistível letargia. Quando a nossa consciência quer se manifestar, perguntamos a ela: mas de que outro jeito podemos conviver com os milhares de brasileiros socialmente debilitados, os doentes sem atendimento, os “esmolers” por toda parte, os desabrigados, os famintos? Como enfrentar os miseráveis à porta de nossa casa, à porta do carro, à porta do nosso trabalho? Isso sem falar da violência assassina, da injustiça banalizada, dos desrespeitos flagrantes aos direitos humanos e à própria vida, das catástrofes ambientais causadas por descasos humanos grosseiros. A lista é longa. E o ser humano vai ficando a cada dia menor diante dos seus problemas cada vez maiores.

Muitos hão de convir, com todas as letras, que estamos rapidamente nos transformando em dormentes ambulantes, uns irresponsáveis sociais que dão as costas a um mínimo de solidariedade e a outros sentimentos agregadores que, ainda que de forma inconsciente, desde os primórdios acompanharam a nossa evolução social, se é que podemos chamar a isso de evolução.

Estamos tão anestesiados que não estendemos a mão ao próximo mesmo ele passando necessidade extrema. Preferimos não acreditar no que estamos vendo. Estamos tão cínicos que fingimos não estar ali vendo a cena, por maior que seja a pena alheia e por mais que esteja à frente dos nosso olhos.

Aonde isso nos levará, meus caros? Certamente à segregação da raça. À uma espécie de arrogância biológica. À definitiva e insana separação entre os bons, os habilitados, isto é, os ricos; e os tidos como relapsos, inconseqüentes e perigosos, eles mesmos em que você está pensando, os pobres, que certamente não estarão lendo este artigo. Pois estarão à cata de comida, de abrigo e de outras necessidades mínimas.

A mídia, que poderia e deveria servir como instrumento de alerta, passou a ser um meio sistemático de sedação e indução ao sono, estado de não vigilância, sonambulismo, graças à predominância dos discursos políticos vazios e às modernas técnicas de marketing..

A televisão nacional é um sedativo com todas as suas notícias do “mondo cane” que antes foram tidas como impossíveis e que hoje nos são apresentadas como espetáculos, o que começa a nos causar certo tédio, preocupando os diretores de audiência com as próximas e mais fortes atrações que deverão entreter a platéia humana.

Se a gente não era assim, talvez tudo tenha começado com o desenvolvimento do marketing na aldeia global descoberta por Mac Luhan.

Diante das novas leis de mercado os pobres, que sempre existiram, passaram a ser vistos como uma classe perigosa, uma ameaça a quem tem muito e que a gente deve evitar. Mas alto lá, não é só porque existe pobre que existe violência. Essa relação é falsa., fácil e obscurece os raciocínios honestos que tentam se localizar nessas tramas contemporâneas.

Bem sabem os deuses marquetológicos da abusada sociedade de consumo que a sonolência é o melhor estado para tocar sua boiada. Como assistimos a tudo com a mente adormecida, desprevenida, eles aproveitam para nos empurrar a felicidade instantânea que chegou agora, o produto que faltava, a nova forma de vida. Vendem-nos sonhos cada vez mais baratos e pelos quais pagamos cada vez mais caro, colocando-nos cada vez mais distantes do âmago humanitário. Só não oferecem nada para os pobres, esses duplamente miseráveis, qualquer ilusão que seja, pois eles não têm moeda.

E por que acordar se a gente pode ter a despensa da semana? Por que mudar de vida agora que o papel higiênico vem com essências e florzinhas estampadas e podemos comprar aquele carro ou decorar a casa exatamente como na revista?

Se alguém tentar sair deste padrão “bom sense” certamente vai cair no ridículo. Será tido como louco, desqualificado. Temos de manter a imagem. Por isso não fazemos nada. Nós, da classe dos sonâmbulos, temos a firme convicção de que o mundo só pode existir se for desta maneira.

E quem ousa nos acordar? Quem arrisca dizer que não devemos aceitar esta versão da realidade? Onde estão os dirigentes de alma grande? Onde estão os artistas, os poetas, os nossos pequenos heróis locais? Hoje, somente os cínicos respondem presente e pedem seu voto. Nunca a arte foi tão necessária, pois ela será a única capaz de descongelar a hipnose dessa serpente.

Uni-vos, sonâmbulos do mundo inteiro! É este o grito que parece ecoar na nossa dormência insana. O perigo, mesmo, é que sempre será mais fácil desligar o despertador. Mas sabemos que só os mortos dormem bem. Trimmmmmmm!

PX Silveira é cineasta documentarista, dirige a Fundação Nacional de Arte em São Paulo, órgão do Ministério da Cultura. E-mail: rasilveira@hotmail.com

Px Silveira

A Funarte São Paulo foi criada em 1978, no endereço atual, no bairro de Campos Elíseos, como uma extensão da Fundação Nacional de Arte, órgão do Ministério da Cultura, com sua sede no Rio de Janeiro, esta criada em 16 de dezembro de 1975. O carro chefe paulistano, na época, foi a Sala Guiomar Novaes, criada naquele mesmo ano.

A Sala foi palco das mais diversas manifestações musicais de seu tempo e revelou, através do Projeto Pixinguinha e Projeto Musical Funarte (existente até hoje), diversos nomes hoje consagrados na música popular brasileira, como Zizi Possi, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Ângela Rorô, Ná Ozzetti, Arrigo Barnabé e, mais recentemente, Chico César e outros.

Desde que começou a funcionar em apenas cerca de 600 m2, a Funarte ocupa espaço contíguo ao do Ministério da Educação, localizado no mesmo endereço. Uma parceira entre a Delegada do MEC e o atual Coordenador Regional da Funarte/SP, sob orientação da Presidência, permitiu a ampliação do espaço para cerca de 2.500 m2. Hoje, a Funarte São Paulo ocupa sete galpões que se estendem da Alameda Nothmann à Rua Apa. São dois teatros, cinco salas de exposição, livraria on-line, sala de vídeo, espaço virtual, biblioteca e áreas polivantes.

O local não poderia ser mais perfeito para abrigar um centro de cultura. O conjunto foi construído pela Missão Militar Francesa, no começo do século 20. Originalmente, os galpões serviam às cavalariças da antiga Força Pública e, posteriormente, foram adaptados para utilização da Escola Técnica Federal, que passou a ocupar as instalações primitivas. Ainda permanecem no local as antigas caldeiras e maquinário, além dos amplos galpões com suas sustentações de madeira. O local chama tanta atenção, que tem servido de locação para produções novelísticas e cinematográficas.

Além da Sala Guiomar Novaes, onde acontece o Projeto Musical Funarte nos finais de semana, agora em parceria com a Gravadora Velas, e oficinas culturais durante a semana, a Funarte inaugurou mais um espaço de espetáculos, o Teatro Galpão Carlos Miranda, onde atualmente são encenadas peças e ministradas diversas oficinas. As cinco novas salas de exposição têm nomes de celebridades brasileiras: Galeria Mário Schenberg (reinaugurada), Ala Jorge Mautner, Espaço Almeida Salles, Sala Universal e Espaço Darcy Ribeiro. As salas são ocupadas durante o ano com exposições de artistas regionais e emergentes da cultura nacional. Na Galeria Mário Schenberg, por exemplo, acontece o Projeto Galeria de Ocupação, onde os artistas selecionados produzem no local as obras da exposição, interagindo com o público.

A livraria virtual (www.lojafunarte.com.br) é hoje uma das pontas de vanguarda da Funarte e disponibiliza cerca de 800 títulos editados pela instituição em diversas áreas artísticas, como teatro, dança, ópera, circo, artes plásticas e gráficas, fotografia, cinema, vídeo, música, pesquisa e documentação, ensaios, folclore e cultura popular. Entre as raridades encontram-se vídeos dos primórdios do cinema nacional, partituras, a série HistóriaVisual e coleções de CDs remasterizados.

Mas o que está por vir é o que será verdadeiramente uma revolução, de repercussão e referência internacionais, e já atende pelo nome de “Fábrica da Cultura”. Maiores informações no “pátio” da loja virtual.

PX Silveira é cineasta documentarista, dirige a Fundação Nacional de Arte em São Paulo, órgão do Ministério da Cultura. E-mail: rasilveira@hotmail.com

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