O MinC está onde sempre esteve
5 de Agosto de 2008 by Felipe Lindoso
A saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura tardou demais. Já se transformava em escândalo um ministro que passou quase a metade do semestre de férias ou de licença para fazer seus espetáculos pela Europa. E só não se transformou realmente em escândalo porque o verdadeiro “teflon” do governo Lula não é o próprio, e sim Gil, grande cantor e compositor, popular e querido da mídia.
Isto é, querido enquanto não faz nada. Pois quando tentou, levou pau. Quando vacila, também leva pau. E não tem Xangô que agüente (uma das últimas gracinhas divulgadas antes de sua saída dizia que nos últimos meses ele era ministro da divindade afro-baiana, e não do governo. Faz sentido).
Gilberto Gil entrou no ministério atropelando. Chamado pelo presidente Lula para uma conversa de sondagem, saiu da reunião dizendo para imprensa que aceitava o cargo. O presidente já estava satisfeito em ter o personagem midiático no governo e aproveitou a deixa para dar um chega-pra-lá na multidão de petistas que ansiava pelo cargo. Agora, na saída, Gil tenta repetir a tática, anunciando que seu sucessor será seu secretário executivo, Juca Ferreira. Como Ferreira não canta nem dança sua permanência ainda não está certa.
Mas o Ministério da Cultura está onde sempre esteve: na irrelevante periferia das políticas públicas.
Gilberto Gil assumiu o cargo prometendo um “do-in antropológico” na cultura brasileira. O tal “do-in”, pelo que se percebia do resto do discurso, tinha algumas metas concretas: fazer o orçamento do MinC chegar a 1% do total do orçamento federal, mudar a Lei de Incentivos Fiscais (Lei Rouanet) e ampliar as áreas de atuação do ministério.
Depois de cinco anos e sete meses de gestão, qual o balanço?
- Uma das primeiras iniciativas apresentadas foi a do “retorno social” dos projetos de incentivos culturais. O MinC usou um edital da Eletrobrás para exigir essa contrapartida. Mal formulada, mal explicada, a proposta foi logo vítima do bombardeio. Cacá Diegues imediatamente ressuscitou o fantasma da “patrulha ideológica” e enterrou as boas intenções;
- Depois veio a proposta da ANCINAV. Era uma boa proposta, mas desagradava principalmente o dr. Roberto Marinho e a TV GLOBO que capitaneou a reação, enterrando o projeto. O Ministério da Cultura achava que o simples fato de ser proposto por Gilberto Gil era suficiente para fazer o projeto andar. Não articulou no Congresso, não conseguiu apoios na sociedade e veio o segundo naufrágio político do Ministério da Cultura.
- TV Pública. Orlando Senna, secretário do audiovisual do MinC, começou as discussões. Organizou seminários, debates, fóruns e etc. E o projeto sendo atacado pela televisão privada, embora com menos ênfase que a ANCINAV. A TV Pública abria uma brecha para a ação do Estado, mas não tinha o alcance regulatório da ANCINAV. Mais uma vez o Ministério são soube, ou não teve, capacidade de articular uma proposta que pudesse sair do papel. Só quando Franklin Martins foi para a SECOM o projeto andou e conseguiu ser aprovado no Congresso, ainda que sob críticas da GLOBO e de todos os arautos do neoliberalismo que posam de sábios do bom senso na imprensa.
- Orçamento. O Ministério conseguiu aumentar sua participação no Orçamento Federal. Não chegou ao 1% pretendido, mas avançou. Mas seria muita simplicidade simplesmente constatar isso. O Ministério da Cultura não tem capacidade operacional para gerir um grande orçamento. Aliás, em alguns anos, não conseguiu gastar nem mesmo o que sobrou depois dos vários contingenciamentos, o que o Ministério do Planejamento sempre usa como argumento para bloquear o aumento de verbas: “Vocês não conseguem gastar o que têm, para que querem mais?”. É certo – e não foi pouco o esforço para que isso acontecesse – que a infraestrutura operacional do ministério melhorou. Foram contratados funcionários. Ainda está, porém, muitíssimo longe do mínimo necessário. O MinC não tem representações em todos os estados. De suas afiliadas (Biblioteca Nacional, Funarte, Casa Ruy Barbosa, IPHAN), somente o último tem uma estrutura mínima em todos os estados. O ministério como tal não tem.
- Articulação política e administrativa. A falta de estrutura e as idiossincrasias dos seus dirigentes fazem com que o MinC não consiga responder a duas demandas básicas: articulação no Congresso e cumprimento das tarefas burocráticas de aplicação da legislação. Dois exemplos. O primeiro foi a questão da desoneração fiscal do livro, com a alíquota zero para as operações do PIS/PASEP e COFINS. A articulação para que isso acontecesse passou completamente por fora do MinC. Foi feita pelo então ministro Palocci com a ajuda do Senador Sarney. O resultado foi patético: no dia da sanção da lei não havia nem mesmo a presença de um representante do MinC na cerimônia no Palácio do Planalto. Outro exemplo é a da Lei do Livro, sancionada em outubro de 2003. Cumprirá seu quinto aniversário sem ter sido regulamentada pelo ministério, apesar de já existirem estudos e minutas muito adiantadas.
- Lei de Incentivos Fiscais. Já virou piada. Parece aquele cartaz que sempre aparece atrás do caixa dos botequins: “Fiado só amanhã”. Todos os meses alguém do MinC – geralmente Juca Ferreira – anuncia que “nos próximos dias” será divulgada a proposta de mudança na lei. Sempre “nos próximos dias”.
A Lei Rouanet é ruim. Nisso todos concordam. Mas em que aspectos ela é ruim e como modificá-la, aí a coisa pega. Não pretendo resumir as discussões e os diferentes pontos de vista. Para mim a lei é ruim principalmente porque privilegia a produção dos bens culturais e não as condições de circulação e usufruto desses bens culturais por parte da maioria da população. Não se trata de dar dinheiro para os artistas “criarem” e sim de criar condições para que, circulando e sendo apropriadas pela população, os produtos culturais gerem também retorno financeiro para os artistas.
E o Ministério, incapaz de formular uma proposta que supere os impasses, optou por burocratizar ainda mais o funcionamento da lei, tentando controlar a aprovação dos projetos de uma maneira que, se não fosse tão tosca, poderia lembrar certas práticas estalinistas.
Foram somente desacertos?
Não, é claro. No entanto, mesmo os acertos são problemáticos.
A proposta dos “Pontos de Cultura” é certamente o ponto alto da administração Gil/Ferreira (e, no caso, Célio Turino, vinculado ao PcdoB). É um projeto de descentralização de ações culturais e repasse de recursos para entidades que atuam na base da produção cultural e que, também desenvolvem projetos de acesso à cultura.
É uma iniciativa muito criativa, inovadora.
Mas…
A falta de estrutura do MinC já, de início, complica: a) não existem critérios claros para a aprovação dos projetos de “Pontos de Cultura”, o que abre a porta para vários contrabandos; b) não existe um sistema de avaliação dos resultados – o que se propôs e o que se fez – que permita, mais adiante, o aperfeiçoamento do projeto (além dos controles administrativos e financeiros da execução dos recursos públicos). Esses dois problemas abrem um enorme flanco para ataques da direita – direita raivosa e a direita dos moralistas de plantão – quando surgirem denúncias nos jornalões sobre atividades dos pontos de cultura.
O pior é que se passaram cinco anos e a discussão política sobre a cultura não avançou efetivamente. O PT, derrotado na distribuição de cargos e progressivamente isolado dentro do Ministério, não teve capacidade de retomar a discussão política e desenvolver propostas eficazes. De vez em quando o que se vê é algum dos caciques da “área cultural” petista ensaiando tomar algum cargo e mesmo assumir o ministério. Mas propostas mesmo, nada.
O que nos remete à observação inicial. O Ministério da Cultura, para além dos nomes de quem o dirige, continua sendo um aparelho periférico da ação do Estado. A cultura está onde sempre esteve, como penduricalho vistoso que ornamenta, mas não ilustra.


Sendo dirigente de uma Entidade que abriga e administra um dos Pontos de Cultura citados na matéria, concordo como o colega Felipe Lindoso, em parte. Não sou de partido algum, nem tampouco midíatico ou fanático por coisa alguma. Acompanhei por mídias os movimentos antes e durante a criação dos Pontos de Cultura sobre a atuação do MinC e, no seio dos encontros que o Ministério promoveu com tais pontos, células de saberes ou ponto de “do-in antropológico”, como o Programa Cultura Viva os denomina, deu pra notar muita evolução, muita atenção ao povo e aquele artífice ou operário da cultura - que até então nem sabia direito pra que servia mesmo um tal de Minc. Pois bem. A equipe do MinC que nos foi apresentada parecia coesa, com garra, esforçada, assim como o secretário Célio Turino - que conheci ainda numa Rede de Agentes Culturais do Sebrae/SP, convidado por mim para falar de seus projetos, na época, ainda lotado (o Célio) na Secretaria de Esportes e Lazer em São Paulo. Percebe-se essa falta de pessoal para trabalhar no MinC e isso nos foi dito de forma muito transparente, pelo próprio Célio, em nossos encontros… Percebe-se também que há muita dificuldade em vencer as zilhões de normas, instruções normativas, Leis e Decretos, filhos e netos de toda burocracia existente neste país, emperrando qualquer cristão de tentar modificar algo. Compromete, inclusive, a sanidade mental, de quem tenta. Então, qualquer crítica que se faça, terá de levar (não justificar) em consideração o fato do MinC ainda ser um representante de parcela da população que ainda não está capacitada ou formada (falo do setor cultural) de forma profissional para representar seus curumins, longe dos seus egos que precisam cantar ou dançar. Não é crítica ao Ministro Gil, não. Mas é preciso muito mais que ser artista para representar a cultura no Brasil. Muito mais político, sem ser partidário, menos artista, sem ser “auê” e muito mais sábio que qualquer mestre griô. Falta-nos educação de base até para compreender um texto, uma linha de um Edital. Quem conhece Edital? Não é fulano de tal, é Edital. Viu, seu Juvenal!? Então, fica difícil criticar, e é talvez até por isso que o colega aqui da matéria foi até maneiro em suas considerações, afinal, quem esteve no encontro dos Pontos de Cultura lá em Belo Horizonte no ano passado (última TEIA) sabe da dificuldade que é lidar com o setor cultural e, principalmente, tentar costurá-lo com outras interfaces para realizar gestão de um projeto daquela grandeza. Que dirá lidar com um…MINISTÉRIO, num país gigante pela própria natureza, com tantos ratos e outros bichos ziquezagueando atrás daqueles alimentos…(como chama, mesmo?) …Ah!…dinheiro e poder!
ótimo desabafo.