Estado delinqüente
20 de Outubro de 2008 by > Observatório Itaú Cultural

Corrupção é responsável por manutenção de conflitos em favelas cariocas, afirma Damian Platt, autor do livro Cultura é a Nossa Arma.
Cerca de dois milhões de pessoas vivem nas favelas cariocas. Áreas controladas por grupos armados, que agonizam em permanente conflito. Um problema complexo com contornos cada vez mais semelhantes ao de uma guerra. Os ingredientes são variados: desigualdade social, tráfico de drogas, violência. Acrescente a lista, armas, policiais, políticos, juízes, advogados e grandes somas de dinheiro e o resultado é uma mistura explosiva que põe milhares de inocentes em risco diariamente. Nesse ambiente de soluções cada vez mais improváveis, a cultura tem se revelado uma poderosa alternativa. Algumas dessas experiências, em especial as ações do grupo cultural AfroReggae nas favelas do Rio, tocaram os ingleses Damian Platt e Patrick Neate, autores do livro recém-lançado Cultura é a Nossa Arma (editora Civilização Brasileira, 242 págs., R$ 28), sobre a trajetória da ONG. Por oito anos, Platt trabalhou como pesquisador na Anistia Internacional para o Brasil, parte desse período pesquisando os direitos humanos no Brasil. Exemplos de violação desses direitos não faltavam. Entretanto, um caso em especial chamou a atenção: a chacina de Vigário Geral, zona norte do Rio de Janeiro, em 1993, onde 21 pessoas foram assassinadas pela polícia.
O pesquisador esteve lá pela primeira vez em 2001, dois anos depois começou a escrever um relatório sobre violência policial no país, focando os dez anos da chacina. Um trabalho pesado, segundo Damian, que envolvia uma rotina, que lhe parecia interminável, escutando depoimentos dos familiares das vítimas mortas pela polícia. Ou seja, dias inteiros ouvindo histórias de tragédias. Ele conta que se encontrava deprimido quando conheceu a AfroReggae e José Junior, coordenador- executivo da instituição, que mantém mais de 70 projetos nas favelas cariocas. O encontro mudaria o rumo de sua vida. “Depois de uma visita de cerca de três horas ao grupo, voltei a ter esperança, por meio da cultura e instalados dentro da comunidade, estavam conseguindo mudanças efetivas”, diz. O pesquisador inglês, Damian Platt, que vive atualmente no Rio e cuida das relações internacionais do AfroReggae, esteve em São Paulo para o lançamento de seu livro, em outubro, durante a terceira edição do evento Antídoto, no Instituto Itaú Cultural. Veja a seguir trechos da entrevista cedida ao blog do Observatório Itaú Cultural.
Observatório Itaú Cultural – Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre o AfroReggae?
Damiann Platt – Foi em uma visita do Junior e de outras pessoas do AfroReggae à Inglaterra em 2006, nos encontramos com ele, eu e Patrick Neate que já havia escrito um livro sobre hip-hop no mundo, com um capítulo sobre o Brasil, em que fala sobre as ações do grupo AfroReggae. Junior sugeriu na época a publicação de um livro explicando o contexto do trabalho do grupo para o público estrangeiro, algo rápido para ser lançado durante uma viagem que fariam a Londres naquele mesmo ano. Lançamos em formato de bolso, junto de três documentários americanos, no conjunto fazem parte de uma série de registros sobre o grupo. O livro circulou entre um público muito específico, mas foi bem recebido por lá.
OIC – Como foi o processo de produção do livro dentro da comunidade?
DP – O pessoal do AfroReggae sempre nos acompanhou nas visitas, por isso não tivemos nenhum problema. Presenciamos uma vez um tiroteio em Vigário Geral. Fomos conversar com uma pessoa envolvida com o tráfico, por acaso acabamos bem perto de uma perseguição que terminou com uma troca de tiros entre traficantes e policiais, tivemos que correr para nos esconder.
OIC – Que trabalho você realiza atualmente no AfroReggae?
DP - Cuido da área internacional, demandas como visitas, viagens, parcerias. Há dois anos o grupo tem visitado diversos países, entre eles, Colômbia, Índia, EUA, Inglaterra, Alemanha, China, fazendo intercâmbios, desenvolvendo projetos em conjunto. O trabalho do AfroReggae é uma referência, há muito interesse por ele em outros países. Além de ser realizado em condições muito difíceis tem resultados bastante positivos.
OIC – Com base em sua experiência, você diria que a cultura pode ser uma solução para problemas como a violência produzida pelo tráfico de drogas nas favelas cariocas?
DP – A cultura onde estiver consegue unir pessoas de classes sociais e de lugares diferentes. No Rio ou em Londres, não é diferente. Mas o AfroReggae mostra que é possível mudar uma situação extrema como a do Rio. Porém, sociedade e governo precisam fazer também sua parte.
OIC – Estaria indo pra conta da cultura uma responsabilidade que não é dela?
DP – Concordo que isso seja verdade até certo ponto, mas tem áreas em que o Estado não entra, que são controlados por grupos armados, neste caso é normal que o governo queira parceiros como o AfroReggae, que tem uma boa reputação, que tem um trabalho conhecido que tem trazido impactos positivos. Agora, claro que ao mesmo tempo, o Estado não pode negar a responsabilidade que tem. Há muitas outras coisas a serem feitas. Estamos colaborando, trazendo investidores, tanto da área privada como de governos, por exemplo, no Rio, o AfroReggae foi uma das instituições que negociaram para que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) pudesse entrar no Complexo do Alemão, facilitando o contato entre lideranças da comunidade e representantes do governo.
OIC – De que outras formas o Estado poderia chegar a essas áreas controladas pelo tráfico?
DP – O problema não é só a ausência do Estado, mas a forma como ele se manifesta. É um estado delinqüente, de policiais corruptos que ganham muito dinheiro em cima dessa situação. Qual é basicamente o problema nessas áreas? Trata-se de um conflito armado entre grupos que disputam territórios e o dinheiro que eles representam. Não é apenas tráfico de drogas, mas fornecimento de serviços básicos, entre outros, e agora tem também as milícias. É preciso desmantelar as estruturas econômicas gigantescas que apóiam esse conflito. Essas comunidades representam muito dinheiro, isso estimula a disputa. É ainda um problema político porque essas populações votam em candidatos que não os representa, que não fazem nada por eles.
Por Carlos Minuano


Temos, um histórico de violência dos mais vergonhosos, não só para o Brasil, mas para a humanidade, como quase 400 anos de escravidão, de humilhação, de tentativa de destruição das referências dos negros. Muito dessa violência também extinguiu os índios brasileiros e ainda insistimos na anistia e no esquecimento de todos esses fatos que nos revela essa sociedade de que aí está, sem falar no pouco tempo de democracia, golpes e mais golpes, seja pelo Estado Novo, seja pelos militares. O para-estado é uma invenção do próprio Estado. A iniciativa privada, a elite econômica tem o corpo armado de seguranças dentro dos seus condomínios, e isso foi disseminado na classe média, sem falar no plebiscito onde o lobie irresponsável das tauros conseguiu inverter os conceitos de paz na famosa guerra em favor da paz. É natural que tenhamos uma sociedade violenta. Fomos violentados em nossas escolhas por uma colonização que tem até hoje carimbo e verba do Estado e da alta sociedade.
Enfim, o que temos é o reflexo da promiscuidade de uma cúpula social que através das piores práticas, ocupam lugares estratégicos na sociedade, principalmente na grande mídia ditando condutas e normas que lhes garantem o paraíso eterno. O que precisa ser investigado é se esses projetos restabelecem a auto-estima pelas próprias escolhas de toda a memória afetiva, religiosa e, consequentemente cultural ou há uma negociação do possível para fugir de um estado de precariedade. Este tema precisa ser aprofundado.
Acredito que a cultura é uma forma de sim de elevação da auto-estima principalmente dos jovens (homens e mulheres) onde valores de cidadania fazem parte do currículo deste processo de inclusão.
Existe porém problemas profundos, esses, abordados pelo comentário anterior o principal ao meu ponto de vista é a ausência do Estado.
Hoje estão empregados no tráfico só no Rio mais de 15 mil jovens, ou seja, é o caminho que encontram para consumir o que a mídia e a sociedade vende, por outro lado se ele escolhe ir para o asfalto procurar emprego é humilhado e castigado por ser pobre e negro. Acredito que o problema é do Estado e de inúmeros problemas históricos mas jogar a responsabilidade apenas nisso é hipocrisia demais, cada um tem a sua parte de culpa.
Outra coisa que queria comentar é que eu acredito que a transformação social passa por eixos centrais onde a cultura tem papel fundamental, acho que é papel dela sim ser usada para promover a cidadania, pois a cultura questiona a sociedade, nos faz pensar sobre esses assuntos e é como o homem se faz estimular para progredir como ser pensante.
Parabéns ao Afroreggae e ao belissímo trabalho na promoção da paz e da inclusão social e cultural da juventude periférica.
Como faço para enviar, seja esta revista, seja esta entrevista à um amigo?
Apesar de ser muito culto falar inglês, devia ser evitado, em sítios institucionais públicos como esta indicação aqui em baixo.
Jean Andrade. Não é exatamente uma transformação pela cultura, ao contrário, a deformação de um caráter de liberdade quando se tem a crença de que o repasse de algo pré-determinado por um outro grupo social possa definir escolhas e estéticas no lugar de um sentimento natural. O Brasil importou, durante todos esses anos, modelos de ataques e defesas relacionados à questão cultural, pouco ou nada alcança independência ou desperta novas ações espontâneas. O que existe hoje no Brasil é uma multiplicação de entidades ligadas à questão cultural que trazem cartilhas, mesmo que bem intencionadas, mas como já vem formatadas, elas, naturalmente, sufocam a independência, a exteriorização do sentimento que fotografa o momento real de uma sociedade. Precisamos ter coragem de buscar reflexão, não só sobre o veneno, mas também do remédio que pode estar simplesmente na dosagem.
buenos dias. tenho interesse em comprar o livro.
Magno Fernandes dos Reis.
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