Diversidade Cultural é tema de palestra
14 de Setembro de 2008 by Redação

Como promover e proteger nossa diversidade cultural? Para onde parece caminhar o Brasil, o governo federal e nossa educação quando o assunto é diversidade cultural e, mais ainda, quando esses temas estão na agenda da Convenção Sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, promovida pela UNESCO. O que diz essa Convenção? O que se pretende com ela? Essas são algumas das questões que serão debatidas durante uma palestra que acontecerá no dia 17 de setembro, das 9h às 18h, no Itaú Cultural, em São Paulo.
As palestras serão ministradas por Giselle Dupin, coordenadora da SID/MinC e especialista em Relações Internacionais, e pelo professor José Márcio Barros, diretor do Departamento de Arte e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/Minas) e coordenador do Observatório da Diversidade Cultural.
Os interessados devem enviar um e-mail para comunicacao.sp@minc.gov.br, escrevendo no assunto ‘Seminário’ - informar nome, endereço eletrônico e telefone - ou ligar para (11) 5539-6304 (falar com Rosângela ou Gisele).
Após o Seminário, às 18h, será lançado o livro Diversidade Cultural - da proteção à promoção, organizado por José Márcio Barros. O Itaú Cultural fica na Avenida Paulista, nº 149 (próximo à estação Brigadeiro do metrô).
O evento é parte integrante da campanha do MinC para a divulgação e discussão sobre a implementação da Convenção da UNESCO sobre a Promoção e Proteção da Diversidade das Expressões Culturais, que reúne 89 países e foi promulgada no Brasil em agosto de 2007.


Chego a tremer de medo quando se fala em proteger a arte no Brasil. Desculpe o termo, mas estamos cercados dessa milícia. No caso da música, todos dias surge uma nova sigla de proteção ao músico, ECAD, AMAR, OMB, SindM e etc. No Brasil há uma apropriação indevida de direitos sobre os caminhos da arte, com uma enxurrada, uma avalanche de bem-feitores culturais, de protetores da cultura nacional, que em alguns casos, trabalham como verdadeiros chantagistas. Ponto a ponto, observa-se que um miliciano, desses que conhecemos, segue padrões verdadeiramente obedientes a uma cartilha de conduta, em tudo neste país, essas pequenas instituições de “proteção” conseguem uma certa legalidade com a leniência do Estado e oprimem o músico brasileiro. Esta é outra questão que precisa urgentemente ser enfrentada no Brasil. Elas se fazem de legais. Não é um alvará, não é uma lei federal que fará com que uma imoralidade institucional se transforme em algo virtualmente legal.
No caso desta discussão de proteção à diversidade cultural, principalmente no que tange às manifestações espontâneas, gostaria de observar que, por mais bem intencionadas que ações como essas possam ser, é um erro imaginarmos que dentro de uma instituição no coração da Paulista, conduzida pela atmosfera social, empresarial ou palaciana, sob a orientação de uma convenção da Unesco, chegaremos próximo de algo relacionado aos inúmeros e complexos códigos que norteiam essas manifestações que acontecem, em quase sua totalidade, na periferia social do Brasil. Precisamos nos proteger de nós mesmos, dos nossos impulsos civilizatórios. Não paramos com essa mania de engarrafar vento.
As manifestações espontâneas sempre existiram e sempre existirão à seu próprio gosto e tempo. Elas têm o seus próprios códigos e ritmos. As políticas públicas, mal orientadas, insistem na formalidade cadastral, ao invés de caminharem no sentido de uma auto-crítica quanto à impermeabilização que naturalmente uma proposta como esta traz em todo este contexto.
Digo inúmeras vezes que, a adoção da cultura, via instituição formal, é uma praga nacional. A cultura não pode ser refém de formalidades, de enquadramentos. Temos a sutileza dos comas, temos a observação instintiva das nuances numa dimensão fora da padronização formal detectada pela técnica limitadora.
Há urgência de uma demolição deste caminho que se esquiva da intuição e busca o abrigo limitador da instituição. Ficaremos aqui, horas, dias, meses, anos chupando balas com papel, e que papel é esse que não nos permite sentir o sabor real? É do Estado brasileiro que aposta em sua tradição de interferir com técnicas em toda uma natural expressão humana. O folclore não está lá, o floclore está aqui, ali e acolá. Não precisamos necessariamente do convívio direto e, muitas vezes, pernicioso, com as expressões que são sim, de toda a sociedade. O que precisamos é de uma profunda reflexão, principlamente nós medianos, que nascemos e morremos dentro de um quadrado delineado por técnicas de sobrevivência e de expansão de consumo e, consequentemente, de vida.
A cura desse mal, o processo de restabelecer um tom que nos traga harmonia social, é sim, a cultura, é aí neste ponto que o trauma imposto por técnicas desarticulou, desnorteou toda uma classe social que, obrigada a se comportar dentro das normas de estágio de aquisição material, se curva ao modernizante barato, ao acrílico do momento, à impermeabilização que produz a blindagem que nos isola do mundo. Essa idéia universal nos afasta cada vez mais do sentido universal, do sentido comum do homem que nasce e morre, do processo natural a que todos nós, ricos e probres, estamos efetivamente sujeitos.
A instituição é criação do medo, filha direta dos fortes e seus canhões, não há farol que consiga detectar todo um conjunto natural de manifestações espontâneas. Por isso, todo esse manancial resiste, pois caminha com as suas próprias lógicas, seus próprios instintos. Tentar formatar, tentar construir para-folclorismos, é insistir na perigosa idéia de expansão dos conselhos romanos, hoje chamados de “comissões de folclore”, onde os recursos são filtrados de imediato na ceia do encontro desses ilustres “protetores do povo”. Com isso, comem e bebem às custas do Estado, ou seja, da sociedade, o melhor do pão e do vinho sob o manto da sagrada imagem de “proteção”.
As manifestações que surgem, se renovam, se modificam, morrem, renascem, se reconstroem de forma diferente. São caminhos extraordinariamente naturais de adequação, de uma iluminada antropofagia, onde os códigos individuais fundem-se num sentimento único de comunhão, de aldeia. Esse sentimento é tão primitivo quanto as nossas necessidades orgânicas. Talvez o caminho seja entendermos a cultura como algo relacionado à saúde, sim, porque ali todo homem é igual, que o mehor para o organismo vivo é que ele tenha todas as suas funções internas em perfeito funcionamento. E aí, talvez entendamos, de uma vez por todas, que essa técnica de sobrevivência criada pelo homem, não tem subsídio algum que o faça mudar organicamente. Nossas necessidades fisiológicas são e serão sempre as mesmas. Ou entendemos a cultura assim, ou vamos assistir aos bailes da côrte se esbaldando nos confetes e serpentinas e, no dia seguinte, a sociedade limpar os resultados dos encontros festivos que só valem para quem participa da festa.
A arte não tem necessariamente que buscar uma vitrine na imponência de uma Avenida Paulista, com o carimbo de cera quente da Esplanada dos Ministérios. O que precisamos é aprender a nos respeitar, pois essas comunidades não serão destruidas pelas tolas técnicas que tentam deformar e aleijar a alma desta cultura. Nós somos um poço de traumas, de complexos, de medos. Somos os compulsivos consumidores de técnicas de auto-ajuda, zumbís sem chão e acreditamos que o teto institucional possa nos proteger de nós mesmos, do nosso inferno de contradições.
O Brasil tem um universo formidável em suas expressões, com um mapa maior que o seu território. O que precisamos é criar políticas que nos permitam de fato o direito de ir e vir, que nos livre do emaranhado estético, das conclusões terminadas, das ordens constituidas por uma falsa sabedoria cultural, essa não existe. A arte é a mais autêntica e rica forma de expressão humana, não existe a melhor, não existe a pior. Até na nossa mentira, a verdade nos afronta e nos joga ao chão, seja pelos nossos cacoetes, seja pela nossa doença psíquica.