O Jornalismo cultural contra a comunicação
28 de Janeiro de 2008 by > Jornalismo Cultural
A fluência cada vez mais intensificada e acelerada das informações. Os dados e informações se sucedem em quantidade e rapidez tamanha, que nada mais surpreende efetivamente, nada detém, nada contra-inclina para algum movimento reflexivo. Ao perguntar por frentes de resistência ao caos da comunicação – ao qual ele chama, aliás, de patologia , Mario Perniola apresentou recentemente umas das mais positivas questões no âmbito do debate sobre a cultura das e nas mídias. A seu ver, a comunicação midiática leva à catástrofe da ordem simbólica, na medida em que os eventos são ali reduzidos à aparição pura, com a conseqüente dissolvência das capacidades de reflexão e memória. Ele pergunta, então, sobre como enfrentar a comunicação sem entregar-se ao niilismo ressentido. E responde positivamente: pela economia do interesse desinteressado, sobre o qual se funda a estética e à qual também respondem a lógica e a moral.
Sua resposta não poderia ser mais instigante para o jornalismo, notadamente o especializado em cultura. Ela pressupõe, primeiramente, uma pergunta: pode o jornalismo, e dentro dele o jornalismo cultural, resistir aos efeitos homogeneizantes da mídia e de seus fluxos? O que há de mais precioso, porém, é que essa pergunta pede, já pela própria resistência ao niilismo ressentido, o desdobrar-se numa formulação distinta: como pode o jornalismo cultural instaurar um movimento contra a comunicação? Há implícita, nesse movimento crítico, nesse pôr em crise, uma vontade de potência.
De fato, e assim o observa Perniola, o que a mídia hoje nos oferece, na ilusão da simultaneidade e da instantaneidade, não é a experiência do presente, mas a falta radical dessa experiência. A fluência cada vez mais acelerada de informações, num movimento que se dá contra o tempo, se dá contra a própria idéia de presente. O gesto pela imediaticidade entrou em ritmo de fluxo. Dados e informações se sucedem em quantidade e rapidez tamanhas que, no conjunto, nada surpreende efetivamente, nada detém, nada contra-inclina para a resistência ou a reflexão.
Ocorre, ainda, que a mobilidade do fluxo compele ao indistinto: pela rapidez, pelo excesso de informação, pela obliteração dos sentidos por um zumbido de dados. A agência política da arte, a idéia de comunidade que se forma pelo compartilhar estético, pela partilha do sensível, nas palavras de Jacques Rancière, perde-se no zumbido. O recorte, a seleção, a edição, que são talvez os mais agudos mecanismos da crítica cultural exercida pelo jornalismo, ficam obliterados pelo indistinto. Tudo é assimilado, cada coisa e o seu contrário, numa performance da excitação constante, com moldes de uma recepção igualmente acrítica e indistinta.
A imagem que se faz reincidente, diante da exaustão da experiência e da memória, é sempre a de Funes, personagem de Jorge Luis Borges. Irineo Funes, após sofrer um acidente banal, passa a ter memória e percepção infalíveis – desconhece o esquecimento. Insone e ruminante, segue indigesto por um mundo abarrotado de detalhes, aplastado pelo excesso de saber histórico. Assim, em torno das vicissitudes de Funes, Borges travava com Friedrich Nietzsche um diálogo imaginário sobre a vantagem e a desvantagem do esquecimento para a vida.
Nietzsche considerava que um indivíduo ou uma cultura apegados à “historicidade” das próprias ações vêem reduzidas as suas forças criativas, perdendo a capacidade de produzir uma nova história. O esquecimento é compreendido, nesse âmbito, não como inércia ou passividade, mas como força plástica modeladora, inibidora e primordial. No universo de Funes, o esquecimento, o corte, fundamentais para a reflexão e a tomada de posição no mundo, deixaram de ter lugar, atropeladas pelo ruído constante.
Prefigurava-se, portanto, na filosofia e na literatura, a crítica ao “tempo real” da comunicação midiática, num mundo em que os relatos e, por extensão, as identidades se desmancham em pontos móveis. Borges e Nietzsche podem ser relidos, sob essa ótica, como críticos premonitórios do estado de imersão informacional, no qual esquecer diferenças, generalizar, abstrair, enfim pensar, não parecem nem necessários, nem possíveis. Desenha-se a imagem de um mundo de pessoas ruminantes, uma população de Funes.
É uma imagem tomada pelo paradoxo: a diversidade cultural é concreta, crescente, e é a partir dela que se organiza – ou desorganiza – a idéia de comunidade, implícita na própria noção de cultura. Mas a grande indústria dos jornais, revistas e sites produz suas páginas na dinâmica do fluxo homogeneizante, desfiando assuntos em enfoques rápidos e repetitivos, mobilizada por uma agenda infinita e com vocação de consumo. O próprio consumo, aliás, é instrumento formador de identidades.
Uma descrição bem sedimentada das práticas do jornalismo cultural brasileiro, tais como se organizam atualmente, inclui justamente a referência à pauta dominada pela agenda. Como a agenda prioriza o retorno comercial, temos uma pauta em que preponderam os temas do comércio cultural. O terrível, nessa dominância, não é o fato simples de sua existência, mas perceber que os direcionamentos ao público atropelam vigorosamente a mediação da crítica e do jornalismo. Tudo associado à ligeireza nos tratamentos, com notas cada vez mais breves e mais substituíveis, em produção acelerada e com pequena retenção reflexiva.
É uma descrição que se adapta bem à boa parte dos jornais produzidos no Brasil, notadamente nas edições que circulam ao longo da semana, e às revistas de grande tiragem, inclusive em suas páginas on-line. E, como toda descrição com características tão gerais, é inválida para uma ou outra experiência mais segmentada ou mais independente. Existe sim, aqui e ali dentro da profusão de materiais, o tratamento bom e longo para o assunto reflexivo e grátis.
Felizmente. Porque esses filamentos que resistem ao disforme são como fulgurações. Acenam positivamente para a questão, tão urgente e contemporânea, quanto à necessidade de ainda insistir em diferenciar a comunicação massmidiática do jornalismo. Este integra o mesmo elemento daquela, e ambos se organizaram em simbiose. Os dois partilham uma aposta na utopia da transparência, fundada na tese do esclarecimento das maiorias. A comunicação, todavia, exibe sem timidez que é, enfim, o oposto do conhecimento, na medida em que dissolve e homogeneíza todos os conteúdos. Nada é assim tão claro em relação ao jornalismo, que mantém sua fé na informação e na formação dos públicos.
O jornalismo ao qual se qualifica como cultural (distinguindo, portanto, uma arena especializada na cultura), pode constituir-se como lugar privilegiado de enfrentamento da comunicação, justamente pelo explícito do ocupar-se dos temas culturais. Neste ponto, é importante registrar que, na perspectiva aqui adotada, o jornalismo cultural não se define intrinsecamente por uma temática, mas por um modo próprio de lidar com os temas, ou seja, por um modo de abordagem, de tratamento. E esse modo valoriza, nos temas, a formação e o trânsito do simbólico, do ritual.
Com essa definição bem situada, e ainda perseguindo a resposta do interesse desinteressado, o jornalismo cultural diz mais e mais se distingue da comunicação quanto mais se aproxima da arte, e, nesse aspecto, seu lugar é privilegiado dentro do jornalismo. Isso inclui projetos, objetos e execuções em si mesmos atraídos pelo sintoma da arte, assim como inclui a inscrição dos objetos da arte no interior nas páginas das publicações. Há até quem diga que publicar literatura não é jornalismo cultural, mas jornalismo cultural é também publicar literatura; seleção e disseminação da arte são de fato alguns de seus atributos centrais.
Se o jornalismo cultural, que se formou, historicamente, como agente da partilha, parece haver perdido a sua chave (uma perda que se repete entre os discursos da modernidade), talvez precise retornar mais uma vez pelo diferente. Este é um jogo com o positivo, sem dúvida, em que se reposiciona o jornalismo diante da poesia, do não-produtivo, da comunicação não-soberana – da parte maldita, como a definiu Georges Bataille. Porque, ao contrário da midiatização, que enclausura qualquer ordem simbólica no ligeiro e no indistinto, a poesia, a arte, a comunicação não-soberana criam e instauram uma nova ordem simbólica, uma maneira de agir baseada na imaginação e na memória. Essa sim, com capacidade de mover o mundo.
Daisi Vogel


Afinal de contas, vocês querem o quê, se mídia e marketing são irmãos gêmeos? Falar do jornalismo é, no mínimo, ingenuidade, é ser pouco cioso com o que há por trás, muito mais maléfico.
As perguntas são:
1 - O Minc tem um projeto nacional? A resposta é, não!
2 - Como podemos constatar isso? Pela sua ausência de política reguladora no processo escandaloso de seleção de projetos nas empresas tidas como patrocinadoras, numa omissão ao estilo Pilatos.
3 - Quem domina a cena? Algum marketeiro que quer agradar ao patrão.
4 - Como? Utilizando o dinheiro público, via lei Rouanet, para melhorar a imagem da empresa perante a opinião pública.
5 - O que isso tem a ver com projeto de cultura nacional? Nada.
6 - E as comissões de notáveis que fazem escolhas de projetos? Um, quem são esses notáveis?
Dois, quem os elegeu como notáveis?
Três, são corporativos? Ora, e como! Ao estilo, ação entre amigos, com umas pinturinhas de exotismo no chamado, nome da moda “inclusão social via cultura”.
Mas quem é esse Deus que determina isso? Ora, o marketeiro ou os marketeiros. São eles que darão cara à nova imagem de empresa politicamente correta.
Tudo isso é um desastre. Tudo isso revela uma total ausência de política. Tudo isso revela redondílhas de um discurso impregnado de proselitismo do Minc no mesmo grau que se mostra muito mais do que ineficiente, irresponsável. Porque tudo isso é feito com dinheiro de brasileiros comuns, trabalhadores que patrocinam através dos seus impostos e não se vêem representados em nenhuma dessas lógicas mercadológicas com o subtítulo de cultural.
A cultura de um país não tem obrigação nenhuma de gerar renda. A cultura de um país anda com as suas próprias pernas, a do Brasil então, voa com as suas próprias pernas. O Minc deveria colocar seus agentes como os agentes sanitários que hoje estão à caça dos mosquitos da dengue, seus focos de resistência, só que, ao invés de eliminá-los, o Minc deveria fortalecer todos os focos de cultura, mas sem essa burocracia toda. A credencial, a própria comunidade já deu, porque senão, nunca o Minc terá de fato representatividade diante do Brasil.
Quanto ao jornalismo, ele é reflexo, está lá no final da corda. Marketing por marketing, o que determina as diretrizes da nossa cultura é mil vezes mais venal a todo o povo brasileiro.
Esta é a marca que ficará como símbolo da omissão diante dessa questão fundamental da administração Gil.