Cultivar o teatro é preciso
10 de Setembro de 2007 by Erlon José Paschoal
Erlon José Paschoal pergunta se o teatro simplesmente foi riscado da agenda de inúmeros brasileiros bem informados?Num de seus textos – Theaterbesuch (Ida ao Teatro) -, o comediante alemão Karl Valentin eternizou os encontros, desencontros e peripécias de um casal preparando-se para ir ao teatro, algo que parece não estar acontecendo com muita regularidade nas melhores famílias brasileiras. As pessoas envolvidas com a produção teatral de pequeno e médio porte em nosso país, por sua vez, são praticamente unânimes em afirmar que o público, nesta última década, esteve xuxamente arisco, preferindo manter-se defronte às telinhas, ou ao chopinho, ao invés de desfrutar os encantos da arte da representação. Será que o teatro simplesmente foi riscado da agenda de inúmeros brasileiros bem informados? Ou, quem sabe, os prazeres do espírito estariam sendo relegados a um segundo plano? Ou até mesmo abolidos como inúteis? Talvez haja respostas variadas, mas de qualquer modo, uma questão acaba se impondo: que espaço a arte ocupa em nossas vidas? Que importância a prática artística, e sobretudo o teatro, possui em nossas comunidades? Que valor todos nós lhe damos, afinal? Seria ele fruto da vaidade supérflua de alguns, útil apenas para ornamentar festinhas e servir de pretexto para encontros fúteis e fortuitos? Seria ele uma atividade obsoleta que nada tem a ver com a economia de mercado, base da vida moderna?
Sem dúvida, vivemos um momento de reestruturação do comportamento social, gerado basicamente pela evolução acelerada de uma rede mundial de comunicações que liga, unifica e uniformiza democraticamente as relações humanas e, por conseguinte, modifica a nossa atuação numa sociedade de consumo competitiva, diversificada, eficiente e cada vez mais centrada no indivíduo. Acrescem-se a isto, nesta nossa época informatizada, palavras-chaves agora cotidianamente presentes em nossos horizontes de expectativas, tais como, globalização, flexibilização, on line, automatização, site, telemarketing etc., que impulsionam o desenvolvimento das sociedades modernas. Sabemos também que, em nossa terra de contrastes, a evolução tecnológica e a modernização importada, comprada a prazo a juros exorbitantes, produziram uma quantidade de excluídos nunca d’antes imaginada que, para piorar as coisas, são vistos tradicionalmente pelas classes dominantes com descaso e até mesmo com desdém; além disso são tratados como um bando de preguiçosos e incapazes, já que “só sabem pedir esmola, roubar e encher o saco”. Pois bem, nesta época de internet-vídeo-celular-tele-pizza-fax-email e o elementar microondas - sem falar na criminalidade hedionda e no perigo solto nas ruas em função de nossas anomalias sociais -, os estímulos para se ficar em casa são de fato inúmeros. Isto acaba nutrindo um processo de sedentarismo físico-mental, que pode fazer de nosso habitat um deserto cultural perpassado por trios elétricos fora de época, hitparades publicitários, bumbuns eletrônicos, marketings evangélicos, ratoeiras televisivas, pagodes fast food, além de uma infinidade de asneiras embaladas para presente, e destituído da força transformadora da arte, onde nada se cria e tudo descaradamente se copia. Mesmo que isto seja um processo inevitável, será que teremos de aceitá-lo assim passivamente, isolando-nos do restante da comunidade e convivendo apenas com aparelhos que supostamente nos tornam auto-suficientes e satisfazem todos os nossos desejos? Como então buscar um equilíbrio entre forças tão antagônicas?
Em meio a tudo isso ocorre um fenômeno curioso em muitas das cidades “fora do eixo”: as pessoas com uma formação cultural significativa - profissionais liberais, professores, publicitários, jornalistas etc. - e sobretudo os artistas, de maneira geral, não cultivam a arte local, chegando muitas vezes até mesmo a menosprezá-la, reproduzindo, portanto, mesmo involuntariamente, a postura habitual e os preconceitos de nossas elites político-econômicas veiculados pela mídia. É óbvio que o elogio indiscriminado a tudo o que é local denota, além de ignorância, um ufanismo patético e anacrônico. Por outro lado, às vezes realmente é difícil distinguir os amadores dos profissionais, os oportunistas dos competentes, como em qualquer outra atividade. Mas não ver valor em nada, nem em ninguém, absolutamente não corresponde à verdade; ignorar permanentemente o que se produz a nossa volta também não é uma atitude sensata. Ora, um artista que pouco consome o produto artístico e nem estimula através de seu comportamento a prática da arte é algo que merece uma reflexão. Segundo os chineses, as condutas corretas se disseminam numa sociedade através de exemplos que, com o tempo, passariam a ser seguidos por uma parte cada vez maior da população. Pode parecer uma utopia mirabolante esperar que parcelas cada vez maiores da sociedade valorizem a arte. Além disso, um “movimento cultural” só se torna possível mediante o intercâmbio constante e a integração de diversos setores da produção cultural de uma dada comunidade, em nome de um objetivo comum, independentemente de suas singularidades e opções.
Seja qual for a explicação - falta de tempo, desinteresse, um sistema educacional obsoleto e falido, inércia, desprezo, inveja, insensibilidade, falta de discernimento, pobreza mental, pobreza material, apatia, ignorância etc. - o fato é na maioria de nossas cidades inúmeras cabeças pensantes e sensíveis pouco ou nenhum interesse demonstram nas criações artísticas alheias, seja em sua própria área, seja em manifestações similares. Lançam-se livros, montam-se peças, apresentam-se shows, fazem-se exposições, gravam-se CDs, rodam-se filmes, organizam-se concertos, festivais… e quase não há comentário, discussão, avaliação crítica, reverberação, que se traduza em algum investimento concreto, como se a arte não passasse de uma atividade desprovida de sentido e de finalidade, incapaz de gerar riquezas e de contribuir efetivamente para o aperfeiçoamento das relações sociais e para a evolução espiritual de um povo. A grande mídia se cala a respeito e as repercussões regionais, com raras exceções, inexistem. Desse modo, prolifera-se o desestímulo, incentiva-se a mediocridade e multiplica-se a apatia cultural.
Bertolt Brecht afirmou certa vez que o “ator sempre pode aprender algo com as outras artes, pois o teatro nutre-se de todas”. Certamente, este raciocínio se aplica também em maior ou menor grau a todas as modalidades artísticas: o cantor pode aprender com o ator, que pode aprender com o bailarino, que pode aprender com o pintor, que pode aprender com o escritor, e assim sucessivamente. O mesmo se pode dizer também de profissões afins, como o professor, o publicitário, o jornalista etc. Basta abrir o espírito, almejar o crescimento, exercitar o senso crítico e deixar de cometer o mesmo pecado do qual todos acabam se sentindo vítimas: demonstrar indiferença.
Os personagens do comediante Karl Valentin desconheciam os apelos das realidades virtuais e todo o aparato eletrônico caseiro, incumbido de proporcionar ao cidadão comum a sensação de estar “plugado”, atualizado e sintonizado com o mundo. Mas a possível simplificação e o comodismo acarretados pelo avanço tecnológico não devem substituir as experiências profundas e enriquecedoras que só a arte possibilita. Afinal, sair de casa, ir ao teatro, sentar-se na penumbra daquele espaço quase mágico, ser capaz de apreciar a beleza implícita na metamorfose do ator, comover-se com a precisão de seus gestos e a leveza de seus movimentos, exercitar a sensibilidade, o raciocínio e o senso crítico: tudo isso continuará sendo uma experiência prazerosa, intensa, instigante, estimuladora do convívio social e absolutamente insubstituível.
Erlon José Paschoal


A discussão sobre a vida neste atual momento, nesta sociedade de inversão de valores é que parece se tornar desnecessária. Então, o teatro como ato vivo e, principalmente, reflexivo, fica, erroneamente, relacionado à futilidade e sem objetivo.
Comungo com todas as palavras escritas neste artigo, pois me sinto extremamente incomodado com a situação da arte no momento atual.
Parabéns pelo excelente artigo Erlon Paschoal.
Aos fatores enumerados pelo autor, acrescente-se o fato de muitos espetáculos teatrais apoiados pela Lei Rouanet (leia-se: dinheiro público) cobarem ingressos de R$30,00, R$50,00 ou até mais. Campanhas de ingressos promocionais (como a promovida pela prefeitura do Rio de Janeiro, que, no último domino do mês, vende a um real os ingressos para peças em cartaz na rede municipal de teatros) fazem encher as platéias. Agora que se discute a implementação do Vale-Cultura, o governo deve rever os parâmetros de contrapartida de projetos culturais de modo a garantir o acesso da população. Caso contrário, é previsível o ágio no valor dos ingressos…
Acho que o autor matou a xarada, xuxamente é a palavra de ordem, padrão global de televisão. É isto que foi para os teatros. Não são os atores globais que ganham os prêmios no Copacabana Pallace? Não são os atores globais que conseguem transformar a lei Rouanet em departamento de marketing global? O que vamos assistir lá dentro do teatro? As patetices e o lado engraçado da divertida burguesia carioca e paulista, uma espécie de divã do movimento “Cansei”, aos olhos do Sr. Falabela ou a história do rei contada pelo mesmo autor que foi à televisão se explicar que fazia gentilezas, pois recebera de uma grande estatal só um milhão de reais mais o patrocínio da prefeitura do Rio de Janeiro, enquanto gestor na mesma prefeitura e toda a corporação global que está em torno dele ou seria por que, numa choradeira cínica, o ator que mora num dois por andar no Leblon, Edwin Luizi, foi fazer queixas e beicinhos no programa “Sem Censura” se mostrando indignado com o estupro que sofre diariamente com estudantes mal educados ou pessoas disfarçadas de estudante que querem pagar meia entrada num espetáculo que eles já pagaram via lei Rouanet?
A atividade cultural não acabou não, está mais viva do que nunca. É como diz Chico Buarque, a favela não faz parte do mapa do Rio, mas lá, além das gigantescas lan houses tem funk, samba de terreiro, teatro, tem vida ativa, mesmo debaixo de tiroteio. O autor do texto matou a xarada. Deveria, inclusive, propor, até por questão de justiça, pelo que vem representando na prática, a lei Rouanet, não da aprovação do Minc, mas da captação de recursos à balde nas empresas estatais, principalmente e algumas privadas. Saindo do Ministério da Cultura, a lei Rouanet corre pelos departamentos de maketing Brasil afora, mas só passa a ter validade quando o rei põe a cera derretida e crava o seu anel com o símbolo do plim plim assinado xuxamente.