Arte ou entretenimento?
22 de Abril de 2008 by > Leonardo Brant
Acirra o eterno embate em tempos de lavanderia pública. Ganhar dinheiro com cultura ainda é tabu? Artistas e produtores de fama e sucesso são realmente hostilizados por seus comparsas? Faltam políticas para o incentivo à indústria cultural? É legítimo empreender comercialmente com as leis de incentivo? Empreendimentos comerciais têm necessariamente pouco valor cultural? Opine, discuta!
Acirra o eterno embate em tempos de lavanderia pública:
> Ganhar dinheiro com cultura ainda é tabu?
> Artistas e produtores de fama e sucesso são realmente hostilizados por seus comparsas?
> Faltam políticas para o incentivo à indústria cultural?
> É legítimo empreender comercialmente com as leis de incentivo?
> Empreendimentos comerciais têm necessariamente pouco valor cultural?
Opine, discuta!


Px Silveira disse tudo em seu artigo. Na verdade o que ocorre é que a ditadura militar manteve sempre alguns artistas embaixo das asas. Uma verdadeira tropa de choque. Isso gerou uma espécie de dependência de parte da produção artística, que não consegue mais enxergar a arte como uma coisa fluida, que dialogue com a realidade. Ou seja, com a audiência, com o mercado.
GANHAR DINHEIRO COM CULTURA É TABU? Não, lógico que não. É inegável a qualidade artística da OSESP e seus componentes recebem de forma digna e, alguns casos, até de forma exagerada, recebendo salários absurdos diante da realidade do músico brasileiro, como é o caso do salário de R$150.000,00 do maestro da orquestra. Mas em termos de política pública é um verdadeiro desastre!!
Por quê? Porque é como uma bomba atômica para matar uma pulga, pois ela, em sua estrutura, é maior que seu público que se restringe a uma elite que sequer temi nteresse por música, na sua grande maioria, vai ali para cumprir agenda social, é quase um grande prêmio de turf. Aliás manter uma estrutura daquela revela o tamanho do complexo de inferioridade da nossa “Elite Branca”, com todos os seus perversos contornos, o quanto temos de uma elitezinha muquirana e provinciana. Ali se vê claramente os nossos equívocos de nobreza de pacote comprado numa imitação paraguaia de uma europa caricata. E ainda dizem que a orquestra é um orgulho para a cidade. Eu pergunto, para a cidade ou para os xerifes da cidade? Eles vivem desee oba-oba cultural chique do principado de Mônaco paulista. O povo paulista e o paulistano comum, na sua grande maioria, nem sabe da existência da orquestra, muito menos que ele é o principal acionista desse símbolo de distorção que é todo esse embrolho. Continuando a pergunta… se ganhar dinheiro com arte, é tabú? Ela pode ser respondida em duas versões, a do empresariado, a dos donos das empresas captadoras de recursos para projetos, a das fndações de faz-de-conta cultural. Eles vão responder rapidamente e com um largo sorriso… si e muito, ganho dinheiro com arte e não acho que seja tabú. Já o artista, o que ainda está vivo, a esmagadora maioria, vai dizer… não é tabú não, pois no Brasil, sobreviver de arte, é algo absolutamente impossível e quem tentar confrontar essa lógica, passa fome. O melhor caminho hojeé ter uma atividade profissional remunerda e viver paralelamente seguindo uma carreira de artista, mas distante do sonho de sobreviver da arte. Isso é coisa para a rapaziada lá de cima que tem acesso direto aos deuses. Só para terminar, hoje um dos maiores redutos de cultura popular no Brasil, é a Lapa. A cada dia abrem-se lá casas noturnas com música ao vivo, no entanto, o músico não vê efetivamente, sinais de utilizar oque ele ganha lá em todo aquele mercado efervescente, perspectivas de ganhos que lhe dêem dignidade. Já o lado empresarial, vai de vento em popa. Por isso, o estado tem que ter uma política direta para o artista, sem intermediários.
Sou produtor e gestor na área da cultura, além de dirigente de uma OSCIP. Não vejo problema algum ganhar dinheiro com cultura, desde que tudo seja feito com profissionalismo e para o público. A cultura é um setor da economia e alguém tem que trabalhar fora do palco, não? Quem leva o público lá? A televisão é que não é. Quando os recursos vão para o ralo ou desviados para algum lugar que não a produção (isso acontece ou pode acontecer com qualquer empresa no planeta - e ocorre!), então você pode ter um processo interrompido que poderia ficar 19 anos em cartaz como a peça do Caruso. Eu poderia ter ficado 10 anos ou mais com minha última produção TODA DONZELA TEM UM PAI QUE É UMA FERA, em São Paulo, caso eu tivesse a capacitação (na época) para gerir isso. Oportunidade e patrocinadores interessados, além de teatro a minha disposição eu tinha. Eu não tinha capacitação suficiente. Mas o mercado (mesmo o cultural) é exigente. O público que vai com seu carro de 200 mil reais ver sua peça não admite ser mal atendido ou ver o teatro caindo aos pedaços. Vejam que são muitos fatores envolvidos. O TBC, cujo processo de reforma eu acompanhei de perto já está de novo às moscas por absoluta falta de visão dos proprietários do imóvel que hoje tentam ser gestores de algo que não deve ser o ramo deles… Então, temos também as raposas proprietárias que nos expulsam do mercado com aluguéis impagáveis ou humores insuportáveis. Temos atores mal formados, educação nas escolas públicas sem um palco sequer, sem um auditório decente, sem uma sala para música…Temos políticos com cargo de gabinete que não sabem o que é cultura. Temos até jornalistas que falam de cultura e não sabem o que é. Enfim, gente que não é do ramo. Creio que um Ministério da Cultura poderia, sim, contribuir dentro de uma política de Estado (não política de governo) para melhorar esse estado de coisas, não sem a colaboração e empenho das entidades culturais, produtores e fazedores de cultura genuína em geral. Aos artistas o palco; aos gestores os bastidores e a caneta, mais a competência de gestão. O resto é apenas matéria pra vender jornal, expor egos, etc.
Ao colega Carlos Henrique. É lastimável que você considere a osesp um símbolo de algum imbrólio ? do que se trata esse imbrólio que está citando ? E como é que vc vai dizer que quem assisite a osesp só vai lá pra cumprir agenda social ? Quem vai à um barzinho ouvir MPB ou à uma roda de samba não gosta de música só porque junto com a música bebe cerveja com amigos ? Sera que eles também não estão cumprindo agenda social ? A agenda social dos apreciadores de música popular é mais cultura do que a agenda social de quem aprecia música clássica. Quanta asneira !! Quanto preconceito !! A orquestra do Estado faz diversas apresentações gratuitas abertas a população e também apresentações em parques. Os salários absurdos que vc comenta são de músicos que se não estivessem recebendo um salário atrativo estariam provavelmente trabalhando fora do país. Portanto esses salários são consequência do mercado de talentos da música erudita mundial. Isso te desagrada ? Fazer o que ? Existem músicos sertanejos e pagodeiros que ganham cachês muito maiores e são do povo, da música popular. Então a remuneração desses músicos e a dos jogadores de futebol não tem nada a ver com o que vc considera absurdo ou não. Tem a ver com o que o mercado paga. Como em todas as profissões há aqueles que ganham muito e os que ganham pouco. Há bailarinos, músicos, artistas plásticos ganhando milhares de reais e outros tocando, dançando e pintando por trocados. É justo que todos busquem ganhar o pão de cada dia e se houver condições, empenho e vontade, porque não enriquecer ? isso não é pecado, não deveria ser tabu.
Caro colega, Olavo Hemmer. Alguns símbolos no Brasil têm peso dogmático, pouco se cobra dos resultados efetivos das políticas europeizantes chegadas no navio de D. João, digo, resultados efetivos em benefício do conjunto da sociedade, que é o grande mecenas, sem saber, é claro. As orquestras, de maneira geral, são um manancial de som esplêndido, principalmente quando se orgulha de ser representante da alma do seu povo, através do som que ela produz. Junta-se, nesse momento, o virtuosismo técnico à excelência acadêmica em torno de um conceito. Somado com a paixão humana representativa do seu próprio universo, o seu entorno, seus ecos tornam-se efetivamente uma construção de caráter fundamental. No entanto, meu caro amigo, minha crítica, e você sabe perfeitamente bem, gira em torno dessa mesmice pontual, localizada que abrange a restrição do próprio raciocínio dos nossos provincianos mandantes sociais, um culote, um símbolo de obesidade clássica das províncias. Este chá das quatro sustenta a orquestra. Este ar imperial é que sustenta a orquestra. Se fosse a arte pela arte, a OSESP já estaria no chão. As orquestras no Brasil é que tiram o mofo das cartolas e fraques dos nossos lords caiçaras. Eles sempre foram alvo de críticas de Monteiro Lobato, Mário e Oswald de Andrade, Villa Lobos, de Darcy Ribeiro e tantos outros intelectuais que de fato pensaram o país. Veja bem, meu amigo, seria insano de minha parte, combater qualquer som, qualquer representatividade artística, todos os sons extraidos com arte são de valor incomensurável, das rabecas aos spalas; dos rufares percussivos às zabumbas e tantãs; das flautas do Cariri aos seguidores de Rampal. O que você não está entendendo é que os salários pagos dignamente ao artista de uma orquestra, não são pagos pelo seu valor artístico, não, quem me dera se fosse isso. A nossa herança nos mostra que a grande sociedade paga pela doutrina eurocentrista, obediente e disciplinada. Casos e mais casos se multiplicaram no Brasil como Eugênio Martins, primeiro flauta da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Patápio Silva e tantos outros que cederam parte do seu tempo a essa lógica estatal para assegurar as suas sobrevivências e seguiram as suas carreiras paralelas como músicos desprezadamente populares. Você mesmo cita os músicos da birosca do Zé, só não disse que a sobrevivência deles depende da quantidade de torresmos e da pinga que se vende. E é sim penalizado por essa lógica perversa por fazer a arte brasileira, pois o Estado brasileiro, na sua perversidade dogmática, irá acudir quem soprar a brisa costeira que vem de além-mar. A orquestra, a sua beleza, seu gigantismo é, infelizmente, refém de um jogo rasteiro dos hipócritas. Quem jogará pedra na orquestra? Ninguém, ninguém é louco de apedrejar a arte, muito menos eu. O que repudio, com a mesma intensidade de “Ode ao Burguês” de Mário de Andrade, é essa aspereza, é essa secura justificada como pouco nobre por nossos cavaleiros e suas charretes, a arte que vem do povo e o povo em si. Essa mesma lógica que forjou heróis, que produziu esse quadro horrendo de exclusão que beira hoje o caos social no Brasil. Todo esse pacote é carregado pela mesma mão pesada na utilização venenosa da arte para abrir fendas sociais que não se fecham como uma ferida, como uma chaga que deixa o Brasil, literalmente, doente. Quando eu disse que é um absurdo um maestro ter um salário de R$150.000,00, eu sustento, ainda mais se comparado à perversidade de ter que assistir o abandono do Estado a um gênio brasileiro como Canhoto da Paraíba que viveu alguns anos na penúria, ignorado pelo Estado, após sofrer um AVC e que morreu há dois dias sem qualquer assistência do Estado. Não acredito que você aplauda que um artista ter tanta proteção do Estado enquanto o outro não tem nenhuma. E não me venha com lógicas de mercado, traga-me dados humanos, porque a subjetividade da excelência é fator primário para compreendermos a arte e a cultura de representatividade de um homem universal, nem mais, nem menos. Essas medidas, essas cartelas só existem para dar sustentabilidade e referência de caráter social ou de valor meramente mercadológico como um investidor de obra de arte. Sugiro-lhe que leia um belíssimo texto de Almandrade postado aqui mesmo no Cultura e Mercado e, então, faça a sua tréplica.
Carlos Henrique, não sei qual o artigo de Almandrade me sugeriu. De toda forma tive tempo de ler ” A Cultura, a arte e a política cultural” Meus comentários sobre os equívocos apresentados pelo autor estão postados lá. Agora no seu texto abaixo não sei qual a conexão que tenta fazer entre o salário de um maestro e o fim de Canhoto da Paraíba. Também me compadeço do fim que levou tão talentoso artista assim como incontáveis outros com destino semelhante, mas…que sugere ? Que o estado crie um fundo de aposentadoreia especial para alguns tipos de artistas ?
Caro Olavo Hemmer, só uma pergunta: gostaria que você me explicasse melhor o que quis dizer com “alguns tipos de artistas”. Imagino que seja uma expressão de qualificação e não de preconceito. Nossos mandantes culturais insistem no perfume parisiense fugindo do natural cheiro do homem brasileiro, mas tenho certeza de que não não é o seu caso. O que me causa espanto, é que, em pleno 2008, os nossos “vanguardistas de plantão” ainda vivam carregados de um sentimento menor diante de sua própria realidade e se curvem excessivamente aos dotes europeus, deixando-nos numa situação pouco confortável. Fotografemos o Brasi, o Brasil real, como disse Machado de Assis e abandonemos um pouco, meu caro Olavo, o que o próprio Machado de Assis classificou de “burlesco e caricato”, a côrte mofada. Canhoto da Paraíba não era “algum tipo de artista”, ele era a arte brasileira em corpo e alma, com capacidade de te representar como indivíduo no mundo. Essa extraordinária arte de Canhoto faz dele, assim como faz a arte de tantos outros artistas brasileiros, uma expressão de fato para um país.
Caro Olavo, o que nem mais me causa espanto, é assistir a cultura neoliberalizante trombetar o mercado. Fala-se muito em liberdade, mas ninguém quer largar a bóia protecionista do Estado. A cultura do anzol é mesmo um vício do discurso do Estado mínimo, subsidiar o desenvolvimento privado, essa é uma lógica permanente. Lembro que o discurso pró-privatização da CSN em Volta Redonda, ocultava o fato de que o lobby pesado da nossa majestosa indústria moderna conseguia sugar o Estado e levar ao animismo a CSN, porque naquele exato momento da privatização, o quilo do aço, sob forma de produto, valia menos literalmente que um mólho de cheiro verde, para subsidiar o desenvolvimento da indústria moderna. Assim acontece com a cultura. Brada-se o mercado, brada-se a democracia cultural, mas o mercado que aqui é constantemente defendido, não consegue caminhar sozinho, depende do mecenato do povo, depende do suor, do imposto do trabalhador brasileiro. Que mercado é esse que ronca grosso, mas não sobrevive sem o patrocínio estatal? Meu caro Olavo, vi seu comentário sobre o texto de Almandrade, achei evasivo e reticente. É mesmo muito difícil fazer uma defesa usando o contorcionismo da subjetividade, quase damos um nó na língua. É natural que o explendor das palavras, neste caso, tome conta do cenário porque o pão pão-queijo queijo, não pode ser apresentado. Seus argumentos são pequenos, carregados de achismos. Você insiste em classificar e sentenciar coisas que habitam o seu imaginário e se perde entre a acusação vil e uma carga forte de preconceito quando é convidado a se opor a uma visão. É natural, você tem que construir defesas, mesmo que elas sejam só um cenário hollyoodiano, nariz de cera existe no mundo academicista para ser usado, é do jogo. A nós, cabe jogar farinha no fantasma da ópera e rvelar a todos que o que anda nos assustando é um caboclo como nós. Na verdade,, ele está mais para curupira que, pela necessidade de sustentar seus interesses, ele se transforma, nos deliciosos contos caipiras, em vários personagens. Por isso, assistimos a toda hora esse vai-e-vem entre o príncipe e o sapo, no seu discurso. É a lógica da adequação, um discurso diferente, carregado de fisiologismo e pouco elucidativo. A primeira coisa que assistimos nesse tipo de argumento, é o abandono das normas humanas, naturais, vitais, universais, do homem e seu mundo e sua liberdade de expressão. Aos poucos, os interlocutores vão usando termos com cargas pejorativas, numa classificação rastaquera, generalizante e incisivamente completada. É natural, são cartilheiros, pensamento de cabresto, filhos do curral estético, das goiabadas prontas. O Brasil está cercado disso, esse megafone ensurdecedor é um veneno para toda a discussão ciosa de detalhes que busca uma lógica equânime onde todos possam, livres dos dogmas, se expressar. Todas as vezes que a citação barata aparece, a tentativa de se achar um concenso através das idéias, vai pelo ralo. Tenho observado que, em muitos casos aqui, os personagens trocam de idéias como trocam de camisa. Vou enumerar já já, falas de alguns há dois anos atrás e mostrar que argumentos de alguns aqui nesta tribuna são inspirados no nosso doce personagem brasileiro, o curupira.
Carlos Henrique, você escreveu dois textos enormes e não conseguiu responder a pergunta que te fiz. Qual a ligação que quis estabelecer entre o salário de um maestro de orquestra e o fim que levou o Canhoto da Paraíba? Sabe porque não respondeu ? Porque os seus enormes discursos carecem de profundidade que os sustentem. Vi outros textos teus aqui no site epercebi que eles são sempre enormes, cheio de adjetivos e frases de efeito, mas a tônica é sempre a mesma. Você usa sempre as palavras como “europeizante”, “perfume de Paris”, “baronato”, hollywoodiano” e até “branco” como uma forma de qualificar de forma preconceituosa uma arte e um tipo de financiamento com o qual não concorda e parece mesmo odiar. Assim com tantos adjetivos engajados de um trombetear libertário o discurso fica até bonito. É você que tem dado nó na língua, mas com esse nó ela ficou é travada na mesma nota e não consegue nem nos dizer o que raios tem a ver o salàrio de um maestro com o fim do Canhoto da Paraíba nessa discussão
Desculpe Olavo, errei a conta. O maestro da OSESP tem uma média salarial de R$208.000,00. Já o presidente da república tem um salário e R$8.800,00. Se você vê coerência nisso! Quanto à Canhoto, acho melhor não nos estendermos por respeito ao ser humano e ao grande artista que ele foi. É o mínimo que podemos fazer pela memória dele. Como encerro a minha participação aqui nesta tribuna, só vim deixar este recado. Entendam e reflitam como quiserem. Abraços.
Bom, nós podemos tentar oferecer um salário menor do que o salário do presidente para os maestros. Com certeza quem vai reger as nossas orquestras não serão os maestros que estão regendo atualmente.