A hora é de repensar a Bienal do Livro
18 de Agosto de 2008 by Raul Wassermann
Criada como um anexo da bienal de artes, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo cresceu a ponto de se tornar independente e tomar todo o espaço do prédio do Ibirapuera.
Não cabendo mais naquele prédio de subidas e descidas, para poder mostrar toda a força da indústria editorial, foi transferido para o Center Norte, primeiro, e depois para o Centro de Exposições Imigrantes. A mudança de um espaço charmoso para um local de feiras comerciais gerou inúmeros protestos e insatisfação.
Naquele momento, começava a ficar clara a necessidade de se repensar o evento. Qual era mesmo o foco que os pioneiros visavam com a realização da Bienal do Livro? O que se aprendeu nesses anos todos? Como a feira deve acompanhar a evolução da indústria?
A Bienal do Livro sempre desenvolveu uma cultura de evento focada no desenvolvimento do mercado, no incentivo à leitura, na popularização (ou democratização) do livro e na oportunidade dos editores mostrarem toda sua produção.
Uma das ações de desenvolvimento do mercado era a proibição de descontos e distribuição do cheque-livro, este gerando trânsito nas livrarias após a Bienal. Ou seja, a Bienal não concorria com a rede de livrarias mas, sim, a apoiava.
O incentivo à leitura e a popularização eram feitos pela quebra da formalidade das antigas livrarias num clima de festa e pela proximidade do publico com autores e livros. A modernização das livrarias resolveu um pouco o péssimo marketing que as chamava de “templos do saber” ou coisa parecida.
O Salão de Idéias, que reuniu e impulsionou experiências anteriores de encontros autor/publico, abriu espaço para que todas as editoras e segmentos do livro dessem sugestões de autores e assuntos para que se montassem eventos para todos os gostos e públicos leitores.
No Salão de Idéias que está aí poucas sugestões foram aceitas e as escolhas evidenciam preferências por “gente mais chegada”.
Atualmente, o clima de festa foi parar na FLIP e em outros eventos semelhantes.
Cada vez mais, as livrarias virtuais conseguem mostrar quantidade e diversidade que nenhuma livraria no mundo consegue e chegam aos pontos mais remotos. Enquanto isso o gigantismo e a ânsia de aparecer dos conglomerados torna a participação dos pequenos na Bienal cada vez mais onerosa.
Toda a cultura da CBL e da Bienal veio se desenvolvendo de diretoria a diretoria e quando se decidiu por terceirizar o evento, essa cultura foi contratualmente preservada e ficou sob o controle da entidade.
Essa experiência de dezenas de anos, a partir de um certo momento muito bem situado foi jogada no lixo. “O que veio antes não existiu; vamos criar tudo de novo…”. A atual empresa organizadora, sem experiência com eventos de livros, assumiu como dona, corre solta, faz o que bem entende. Os verdadeiros donos do evento, os expositores, teoricamente representados pela diretoria da CBL, só podem dizer sim ou sim senhor.
Até as reuniões de avaliação, tradicionalmente feitas com os expositores após cada edição do evento, deixaram de existir. Mesmo porque a troca do organizador foi baseada num relatório da última Bienal no Imigrantes lido só na parte que apontava defeitos e rasgada a parte que mostrava avanços.
A localização dos estandes, pensada e repensada por muito tempo, havia chegado a uma distribuição de estandes-âncoras espalhados por toda a área de exposições com os menores sendo alocados por sorteio e escolha em volta desses grandes. Voltou-se ao sistema no qual o maior escolhe primeiro e a feira mostra grandes estandes na entrada e os pequenos são confinados no fundo.
Ao longo do tempo, o próprio nome Bienal foi tão utilizado que se desgastou e qualquer feirinha de livros usa esse nome enquanto a original torna-se, cada vez mais, um feirão. O charme foi para Parati e pronto. Então que se assuma de vez que é um feirão e se reorganize em torno dessa concepção.
Está na hora de a Câmara Brasileira do Livro repensar no estímulo às feiras locais, nas feiras temáticas, no redimensionamento da Bienal. Como uma entidade cujo objetivo principal é desenvolver o mercado, a CBL tem que pensar seriamente em ações como o cheque-livro e reforçar o apoio às livrarias e outros canais de vendas que batalham 365 dias por ano e não só nos 10 dias de Bienal. Tem que pensar, se é isso que o mercado quer, em feiras de saldos com as mesmas condições para livreiros e deixar a Bienal, se necessário for batizando-a com outro nome, para mostrar o que se produz nessa industria pujante, mas desunida.
De qualquer forma, a Bienal que aí está, com bons patrocínios e boa mídia, provavelmente será um sucesso para o público. Para o mercado… por que pensar em mercado? Eu quero o meu!


Caro Raul,
Avaliação crítica sempre é bem-vinda e oportuna, principalmente vinda dos seus próprios participantes. Não tenho intimidade com a realização da Bienal paulista, mas sei o quanto ela sofreu com as mudanças de locais e, sobretudo, com uma falta de, por assim dizer, ‘conceito’.
Sei que a Bienal do Rio é feita ali no lápis entre o SNEL e a FAGGA e que esta, aprendeu a fazer feira de livro com os editores. Não sei como ela se comporta em outros lugares, onde é a montadora, em relação aos seus contratantes locais. Mas fiquei com muita pena, quando a retiraram da bienal paulista, pois soube que o argumento era que queriam fazer com uma empresa de São Paulo. Além do bairrismo boboca, deixaram de lado muitos anos de experiência com uma feira da mesma dimensão, executada em total parceria com o editores (os contratantes).
Da parte cultural, realmente não se pode comparar com o que já se conseguiu no Rio de Janeiro que, nesse caso, é o que justifica uma ida ao Rio Centro, local tão longe dos bairros centrais do Rio, sem o acesso de Metrô como aqui, sem descontos especiais nos livros, com preço caro de estacionamento e outras coisinhas que um ou outro se lembrará de queixar. A parte cultural tornou-se a cereja do evento, o que realmente move as pessoas até a Bienal e, na minha opinião, foi o que alavancou a Bienal carioca. Voltando a ser em agosto/setembro como na origem, melhor ainda.
Pelo que você relata, muitas editoras pequenas que teriam a chance de mostrar os catálogos certamente ficam de fora, pois imagino que os custos de participação sejam caros. E, se na distribuição dos espaços, estão lá no fundo, só sendo muito rato de livro pra chegar a elas com algum fôlego.
Sem malha de livrarias suficiente para escoar a persistente produção brasileira de livros, a internet tornou-se uma ferramenta indispensável e ninguém pode mais dizer que não comprou esse ou aquele livro porque não estava no estoque da livraria mais perto. Mas o contato físico com os livros, a exposição a tantos formatos, assuntos, tipos de papel, de edições, é ainda fundamental e extremamente educador do que é essa indústria para a maioria das pessoas que se aventuram a ir ao evento. Além, claro, de encontrar aquele livro que, por já não ser novidade, não está no estoque da livraria mais perto, mas pode estar na estante do stand da Bienal e até com alguma promoção.
Realmente me soa estranho que a montadora da feira paulista fique com o poder total das decisões de como conceber o evento. Assim, o evento fica sem alma. E se já não tem um conceito, vira um feirão de livros, simplesmente, sem maiores consequências, sem deixar marcas indeléveis nos seus frequentadores.
Com certeza a Bienal do Livro de São Paulo merece ser repensada – aliás, sempre os eventos merecem ser repensados – para ela voltar a ter o brilho que já teve. De todo modo, ela é um espaço de convivência para os profissionais do setor, e nos meus três dias de trabalho lá isto ficou bem claro.
Pra finalizar, foi um luxo ir ao Anhembi por R$ 2.40: metrô + ônibus
Abraço amigo da,
Ana Maria Santeiro
AMS Agenciamento
amsr@openlink.com.br
21 2222-6425
21 8141-3402
Os textos são muito interessantes,achei maravilhoso saber que tem alguém pensando em refletir sobre cultura,jornalismo ,educação .Creio que muita gente precisa ler e interpretar mais para compreender o mundo.
oi Raul,
como sempre, seus comentários são inteligentes e diretos ao ponto. De fato, a Bienal está com o charme de uma feira de calçados e mais barulhenta que um circo. Se os editores não se unirem para resolver bem o que querem, vão perder a oportunidade de um evento e tanto, construído ao longo de muitos anos. Para quem gosta de livros, dá um enorme aperto no coração…
Concordo com o Raul em gênero, número e grau. O conceito Bienal foi banalizado. Com certeza não foi com o atual perfil que ela foi concebida. Eu que trabalho em editoras desde o início da década de 1980, nas áreas comercial e divulgação me pergunto: os editores de hoje não sentem saudades da época que o pós-Bienal aquecia o mercado?
Quero de publico apoiar o artigo/reflexão do Raul sobre o conceito da Bienal que aponta com lucidez e isenção as mazelas e contradições daquela que alguns ainda insistem em apontar como a segunda maior feira de livros do mundo . Estas Bienais servem muito bem para o marketing institucional das grandes empresas e espertamente aproveitada por “mercadores” paraquedistas que fazem delas um bazar de saldos e barganhas….
Até hoje “poucos” conseguem emplacar uma mesa redonda, ou algo que o valha na Bienal. A quem ousa romper esse bloqueio , a resposta já vem ” padronizada” , pois o tema proposto” não atende os critérios definidos pela comissão”. Dá para abrir essa caixa preta ?
Proponho que o Raul, com a experiência e o respeito que tem no mercado
assuma a missão de liderar um movimento que avalie , dicuta e proponha um reposicionamento da Bienal do Livro de S.Paulo .Acredito que receberá um amplo apoio da maioria dos atuais expositores e daqueles que gostariam participar desse evento tão “caro” a todos nós. Mãos à obra !
José Carlos Venâncio
Editor
Editoras Ground/Aquariana/DeLeitura
Tivémos na minha opinião, uma 20ª Bienal do Livro pouco midiática no sentido de um alcance maior para todos.Estive visitando o evento e fiz o trajeto de metrô, e no terminal Tiête,peguei um ônibus que gratuitamente nos deixava lá.Não vi no trajeto, nenhum aviso ou anúncio de espécie alguma sobre o evento.Nas estações de metrô nada, dentro do metrô vi em um vagão apenas uma propaganda quase imperceptível.Acho que os condutores do metrô deveririam em cada parada de estação falar ao microfone divulgando o evento.Na minha opinião o evento não chegou ou se chegou, poderia chegar melhor ao “povão” que é penso eu, quem precisa se alimentar muito melhor de livros e cultura.Quanto às livrarias em especial a em que trabalho, não vi como em outros anos o “efeito Bienal”, a melhoria nas vendas deveu-se mais a volta às aulas do que à Bienal.O principal evento do livro na maior cidade do país e uma das maiores do mundo não pode passar tão despercebido assim em todos os sentidos, quer seja comercial, cultural, educativo, etc…P.S.Reforço que houve mídia sobre o evento, mas, para a mim pareceu restritoà faixa de classe média em diante, não vi badalação nem frisson abaixo dessa linha.
Infelizmente, tudo que se relaciona a cultura no Brasil, ou vira underground cultuado por poucos, ou se transforma em casa de D. Maria Joana. Porém, o que se esperar de um país que não enxerga sua própria deteriorização?
Prezado Raul,
agradeço por você tomar uma iniciativa tão fantástica, imagina que Havia um estande da Ediouro, onde você entrava para comprar um Livro e as atendentes mandavam você ir Comprar na Mega Store Saraiva! ! ! ! ! ! Como pode uma Empresa de dar a esse baixo nível???
E Nós os Pequenos Livreiros????? acho que a nossa melhor definição seria: “Os grandes Burros” por apoiar e ainda comprar das ” Editoras ” sem vantagens Extras Alguma e ainda por cima concorrer com Estandes fantasmas de Distribuidores e de Vendedores Virtuais.
Profundamente Lamentável.
QUE A BIENAL VOLTE PARA AS RUAS COM ESTANDES SIMPLES E IGUAIS; COM SORTEIOS LIVRES E DEMOCRATICOS.
UM GRANDE ABRAÇO
DAVID