Cultura e Mercado

desde 1998 | para quem vive de cultura

  • Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão

    Não é mesmo uma coisa delicada falar da questão do negro no Brasil. Há sempre um ranso que, mesmo com as mais evidentes estatísticas de um profundo desequilíbrio na comparação das condições de vida de um cidadão  negro ao que classificamos como branco, ficamos bem próximo do estado de exceção.

    Fica então a pergunta: Qual a nossa contribuição com o preconceito silencioso ou gritante com a história dos negros no Brasil? Essas anistias que beneficiam sempre um determinado grupo é uma das nossas maiores e piores tradições. As concentrações de terra e renda, as manipulações de mercado, toda a sorte de lobies, toda essa comunhão construída entre amigos, modo tão tradicional da nossa cultura que tem sempre uma saída pela tangente para que não sejam discutidas políticas que contemplem um equilíbrio de tamanha urgência.
     
    Pois bem, não queremos um papel significativo para que a cultura tenha de fato representatividade nas grandes questões da sociedade? Não buscamos equilíbrio nas ações do Estado para as questões das verbas para a cultura? Por que não buscamos um entendimento melhor em torno da cultura negra no Brasil? Por que não  admitimos que existe um enorme atraso no ensino acadêmico de arte no que diz respeito a essas questões?
     
    Tenho plena convicção de que se a cultura desempenhasse um papel mais profundo, que contemplasse um entendimento mais extenso dessas questões e que, principalmente abandonasse a visão míope do universo restrito que privilegia uma única lógica, a européia, a cultura no Brasil seria vista com mais respeito pela sociedade. De concreto o que há em torno do conceito “cultura” é um caldo de hipocrisia social que tem como ordem máxima justamente o preconceito racial, não é com o negro, mas com o índio e até mesmo com o lusitano. Há uma Europa impregnada no nosso civilismo cultural e a ela não interessa em uma análise mais criteriosa, pois seria uma quebra de valores assim como quem quebra cálices de cristal. Por isso, a manutenção simbólica do oráculo branco da imantada civilização européia nos coloca, diante da sociedade, com o que chamamos de “calça arriada”. Falamos de cultura pela democracia, pela liberdade, mas como podemos, se somos nós que silenciamos os homens e suas manifestações? Estão nas nossas mãos os diplomas de graduação, o pecado é um argumento que nos asfixia quando tingimos excessivamente a nossa cultura. Este auto-flagelo é um ato de exorcização de uma postura mais realista. O domí¬nio do medo é maior, assim francamente diante das questões produzidas naturalmente pela sociedade, ficamos meio nus, então buscamos os estatutos de um Estado racista e criamos nossas teses psicológicas que nos conforta, que nos coloca um grau acima da imensa maioria da população, como algo que estimula a cadeia de privilégios.
     
    Sim, seria a cultura a grande transformadora do pensamento, mas como, se somos vazios nessa questão? E também não há no chamado meio cultural interesse em buscar as nossas realidades, nós as fabricamos livrescamente, produzimos e reproduzimos frases de um mesmo clichê, re-harmonizamos melodias de um pensamento oitocentista do alto da nossa aristocracia ainda tatuada em nossa alma.
     
    Há mesmo em cada um de nós um tanto de escravocratas. Deveríamos admitir e refletir, pelo menos sobre como reduzir a crueldade das sentenças impostas a uma criança negra, já no seu nascimento. Infelizmente, no universo da cultura institucional brasileira ainda não chegamos sequer na lei do ventre livre. O que assistimos é uma atmosfera carregada de preconceito. O dito mundo cultural brasileiro, é expressão máxima dos solitários e seus coquetéis e canapés que obrigam cotidianamente a redenção dos negros no Brasil.
     
    Aos olhos da sociedade, jamais teremos o poder da transformação, ao contrário, sabemos todos, nós e eles, que é pela cultura que se cria a escala dos homens. Nós inventamos e reinventamos o pecado dos outros para justificar a nossa própria existência. O Estado somos nós, principalmente o estado de sítio imposto pela cultura, essa coisa que no Brasil tem gosto excessivamente mesquinho, racista.

    Tags: