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O retorno e a dúvida da poesia

| quarta-feira, 9 junho 2010Um Comentário

A poesia é um conhecimento à parte da razão tecnocrata que rege a sociedade contemporânea, hoje em dia, o homem se defronta com outras oportunidades de linguagens, outros conhecimentos, que deixou de lado o hábito da leitura, principalmente a leitura de poesias. Diante da informática, da música popular, do discurso político, não há lugar para a poesia.

Mas de repente um surto de poesia tomou conta da cidade, saraus, recitais, debates, publicações, vão se espalhando e ocupando pequenos espaços nos centros urbanos, bares, cafés, bibliotecas. Páginas na internet. Parece que a poesia voltou a fazer parte da cidade.

Mais uma ilustração da crise da linguagem, do pensar e da cidadania? Afinal de contas, poesia passou a ser tudo que alguém escreve movido por uma “inspiração”, uma revolta, uma paixão, um discurso livre e aleatório, como: a frase da mesa do bar, o bilhete da namorada, o discurso de protesto, etc. O poeta que já foi expulso da cidade, volta ao cenário urbano na condição de sintoma da cidade grande.

A poesia e a cidade
“Os poetas nos ajudarão a descobrir em nós uma alegria tão expressiva ao contemplar as coisas que às vezes viveremos, diante de um objeto próximo, o engrandecimento de nosso espaço íntimo”. (Bachelard)

Desde quando a cidade é objeto de trabalho de especialista, ela passou a ser um corpo fragmentado e perdeu sua geografia poética. Primeiro foram os filósofos que expulsaram os poetas de sua república, depois foram os técnicos que destronaram a filosofia.

Custou caro ao filósofo aceitar que o saber foi uma invenção do poeta, que a eternidade da Grécia se deve primeiramente a um Homero e depois a um Platão. Nessa mudança de século, a filosofia acabou ressuscitando um Sócrates arrependido, solicitando do poeta seu retorno à polis . Pudera, em épocas de crise sempre se apela para o poeta, ele que nada sabe, foi adivinho do passado e é livre para falar de suas emoções. Mas ele nada pode resolver com relação aos equívocos dos especialistas do urbano, a não ser restaurar a poesia perdida.

A cidade de políticos e de técnicos tem problemas mais urgentes, para se preocupar com a poesia. Acreditava-se que a tecnologia era uma solução universal, mas se mantêm longe de dar respostas às demandas de habitação, segurança, transporte e educação. Não se canta mais a cidade, fala-se para lamentar seus problemas.

A cidade precisa da poética e do pensamento. Quem se ocupa de conceitos sabe, sem negar a importância da tecnologia, que a cidade atualmente precisa mais do exercício da cidadania e das idéias, do que intervenções técnicas sem uma compreensão mais ampla dos seus problemas.

As cidades modernas se ressentem da carência de uma nova idéia de planejamento urbano que não a veja exclusivamente como o cenário do mercado de trabalho. Pois a imagem urbana não se restringe àquilo que a percepção capta, é muito mais o que a imaginação inventa com a liberdade poética. As musas sabem que o poeta não vai salvar a cidade, mas ele é quem lida com a fantasia e o devaneio, indispensáveis para o sonho de uma outra expectativa de vida urbana.

A poesia e a lógica da linguagem
“A poesia é uma arte da linguagem; certas combinações de palavras podem produzir uma emoção que outras não produzem, e que denominamos poética”. (Valery)

O poeta vive num canteiro de obras. A musa, o acaso, a razão, o sentimento, os pensamentos abstratos são matérias primas para a sua poesia. Ele produz a partir da leitura de textos alheios, articulando idéias e costurando a linguagem.

A poesia é um trabalho que exige de quem faz uma quantidade de reflexões, de decisões, de escolhas e de combinações. As leituras e as experiências modificam a escrita, as palavras não são totalmente espontâneas, como nas pinturas de um Pollock, há um trabalho e um cálculo da escrita.

A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular. A linguagem cotidiana desaparece ao ser vivida, é substituída por um sentido. A poesia não, ela é feita expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser.

Numa época marcada pelo desaparecimento do durável, transmutação rápida dos valores, sem tradição poética, a poesia retorna como um lugar de experiências contraditórias, para atender uma necessidade de lazer e divertimento, do que uma vontade de saber.

Os saraus, recitais e debates têm mostrado uma ausência de uma percepção mais ampla das contradições da cultura, particularmente da literatura. A poesia que já participou como protagonista nos movimentos de vanguarda nos anos 20 e 50/60, reaparece na cena urbana deslocada de sua materialidade para falar de aparências e emoções.

Almandrade

Artista plástico, poeta e arquiteto. Para mais artigos deste autor clique aqui

One Comment »

  • WANDERLEI DE PAULA disse:

    PARABENS PELO TEXTO.
    MINHA OPINIÃO SOBRE SER: POETA.

    ESCRITOR
    O QUE MOVE UM ESCRITOR, SE NÃO O AMOR!
    PELA ESCRITA A COLOCAR EM PÁGINAS DESPOJADAS E FRIAS,
    SEM LAMENTOS SEM NOÇÃO E CORAÇÃO.
    O QUE MOVE UM ESCRITOR, SE NÃO O AMOR!
    NO SEU CANTO, NOBRE E FRIO,
    VISÕES, PENSAMENTOS E CONSTATAÇÕES.
    E A ESCRITA QUE DEITA EM FORMA A SE ENTRELAÇAR EM RABISCOS FORMAIS.
    O QUE MOVE UM ESCRITOR, SE NÃO O AMOR!
    PELA MENSAGEM QUE TOCA ABRANDA E FORTALEÇE,
    MECHENDO COM AS EMOÇÕES DO OUTRO,
    ALIMENTANDO ILUSÕES.
    O QUE MOVE UM ESCRITOR, SE NÃO O AMOR!
    DESEJANDO QUE AS TRAÇADAS LINHAS,
    EVIDENCIEM UM ESPELHO DA ALMA.
    EM QUE BORBULHAS TRANSPAREÇAM,
    A FELICIDADE A EXPLODIR EM PENSAMENTOS.
    O QUE MOVE UM ESCRITOR, SE NÃO O AMOR!
    SE ENTENDIDO, DESPOJADO E QUENTE.
    COM O BATER DO CORAÇÃO,
    PALPITANDO A EMOÇÃO.
    NUMA EXPLOSÃO DE SENTIMENTOS.

    WANDERLEI DE PAULA
    email – tecnologia100tqc@hotmail.com

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