Exige reflexão a pergunta feita pelo Ministro da Cultura Gilberto Gil: “Será que não precisamos de um novo Shakespeare”?“Será que não precisamos de um novo Shakespeare?”, indagou o ministro Gilberto Gil em dezembro, por ocasião do lançamento de um edital da Petrobrás que destinava R$ 36 milhões a projetos culturais, R$ 13 milhões desse valor para as artes cênicas. “Se o teatro está em crise não é por falta de recursos, que triplicaram nesse governo. Não seria crise no modelo de produção? Ou falta de proximidade com os setores populares? Ou de interesse nos temas apresentados? Será que não precisamos de um Shakespeare para escrever sobre esses temas?”
Não é a primeira vez que um representante do poder público revela seu desconhecimento sobre a cena teatral brasileira. Nem mesmo em que uma declaração desse teor parte de alguém ligado à área cultural. Por serem freqüentes, não deixam de indignar. Surpreende e merece reflexão quando parte de um ministro da Cultura com o perfil de Gilberto Gil.
A escassez de recursos e, sobretudo, a ausência de uma política cultural na aplicação conseqüente das verbas disponíveis, é sim problema grave e histórico na cena teatral brasileira. Só como exercício de reflexão, voltemos ao passado. “O fato mais importante que aconteceu em meados do século 19 foi a criação do Teatro Ginásio Dramático”, afirma o historiador João Roberto Faria no livro Idéias Teatrais, o Século 19 no Brasil, editado pela Perspectiva. Em sua brilhante análise, feita a partir de rigorosa pesquisa na imprensa da época, ele mostra que a qualidade do repertório (europeu) levado à cena no Ginásio Dramático, um empreendimento privado, estimulou jovens intelectuais a escrever para teatro, entre muitos outros, José de Alencar, Quintino Bocaiúva e Machado de Assis.
Machado tinha 17 anos, quando ‘provocado’ por esse repertório escreve seu primeiro texto crítico, no jornal A Marmota Fluminense. Passa então a escrever críticas e peças. Pois bem, depois de alguns anos de sucesso, o empreendimento ‘entra em crise’ pois não consegue fazer frente à concorrência das chamadas Mágicas, espetáculos feéricos de grande popularidade; das operetas francesas, apresentadas em locais como o então famoso Alcazar, no Rio, onde as vedetes eram apreciadas em clima de cabaré; e ainda das apelativas paródias das operetas.
Na época, Machado de Assis liderou uma intensa campanha na imprensa em prol de apoio ao Ginásio e pela criação de uma companhia oficial. Muitos intelectuais a ele se juntaram. Em vão. O Ginásio Dramático fechou. A companhia oficial nunca surgiu. Machado abandonou a dramaturgia. Seria outra a história do teatro brasileiro se o poder público tivesse interferido como queria Machado? O problema do Ginásio estava no ‘modelo de produção? Na falta de talento? Perguntas redutoras diante da complexidade dessa história. Como seria redutor deduzir que a programação das rádios é ruim porque não existe boa música brasileira. Ou atribuir à ‘falta de proximidade com os setores populares’ o fato de Tom Jobim vender menos CDs do que algumas conhecidas duplas sertanejas.
Obviamente, nem o teatro inglês possui Shakespeare para ‘tratar de temas’ atuais. Talvez ninguém de sua envergadura. Mas há autores ingleses da mesma estatura de Nélson Rodrigues, Plínio Marcos, Ariano Suassuna, Luis Alberto de Abreu, Newton Moreno ou Bosco Brasil, só para ficar em seis nomes, que já justificariam – em qualquer ponto do planeta – atenção respeitosa pela cena teatral capaz de gerá-los. E, claro, investimento público adequado à manutenção e aprimoramento de tal riqueza cultural.
O ministro diz que as verbas triplicaram em seu governo. Em 2005, o MinC anunciou uma captação recorde por meio da Lei Rouanet para o teatro – R$ 24,7 milhões só em São Paulo, beneficiando 81 projetos. Em matéria publicada no Estado em março de 2005, intitulada Afinal, para quem foram os recursos do teatro?, mostramos que apenas um espetáculo, o musical Chicago, concentrou 16% desse total – R$ 3.952.000,00. O segundo maior captador foi o projeto Criação Teatral Volkswagen, um total de R$ 1.664.556,94, que beneficiou, em dinheiro, apenas uma companhia com R$ 50 mil, como mostrou matéria publicada no Estado em 10 de março de 2003. O terceiro, O Fantasma da Ópera – R$ 1.465.000,00. Assim, apenas três projetos concentraram 28,7% dessa verba.
No mesmo período, o Grupo Tapa – 27 anos de existência, 45 montagens, 79 prêmios – captou R$ 240 mil. Não seria o caso de perguntar se não há um problema com o ‘modelo de distribuição’? Mesmo com verba curta, o Tapa conseguiu a proeza, em 2004, de ter cinco espetáculos em cartaz simultaneamente. Desde o segundo semestre de 2004 o grupo não recebe um patrocínio permanente, se mantém com a bilheteria dos espetáculos, mas não consegue criar uma nova produção.
Tratado com incrível deferência na Rússia por conta do espetáculo O Livro de Jó, Antonio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, vem literalmente penando com a escassez de recursos em sua nova criação, encenada no Rio Tietê – BR3. E o que dizer de Novas Diretrizes em Tempos de Paz, texto de Bosco Brasil cuja extraordinária qualidade conquistou platéias em todo o Brasil? Bem, os exemplos abundam e não é o caso de fazer uma infindável listagem. Relacionar artistas e companhias é sempre complicado. Importante frisar que os citados são ‘exemplares’ no sentido pleno do termo: sua história é também a de muitos outros.
Não raro companhias se extinguem no Brasil antes de esgotarem seu processo artístico. Qual será o problema? Arrisco dizer que os grupos amadurecem, se aprimoram e esse é o problema. Alguém se lembra o que quer dizer a sigla Tapa? Teatro Amador Produções Artísticas. Atualmente, essa companhia profissional paga aluguel de um galpão só para guardar cenários e figurinos de suas peças. Não é difícil avaliar o custo da manutenção de seu acervo. Apoiar iniciantes é de fundamental importância. Mas uma política cultural séria tem de levar em conta as diferentes necessidades dos diferentes segmentos da criação teatral.
Claro, há exemplos de ações culturais conseqüentes – ainda que não configurem uma política cultural. Certamente representa um avanço o anúncio feito pela Funarte de lançamento, em São Paulo no dia 6, do Prêmio Myriam Muniz para o teatro – no total R$ 13 milhões para dança e teatro -, que tem abrangência nacional e concorrência feita através de edital público, cujos termos foram discutidos nas Câmaras Setoriais. Outro bom exemplo foi o projeto de Formação de Público, coordenado por Gianni Ratto na gestão de Celso Frateschi na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que fez circular pelos CEUs dez ótimos espetáculos, cuja mediação entre público e artistas era realizada por monitores treinados e atingiu um público de 153,6 mil pessoas, segundo dados da secretaria.
Não temos Shakespeare mas os elogios da crítica inglesa à montagem de Romeu e Julieta realizada pelo grupo mineiro Galpão e, mais recentemente, o sucesso, na Europa e nos Estados Unidos, do espetáculo Ensaio.Hamlet da carioca Cia. dos Atores provam que sabemos ‘ler’ a obra do bardo.
O ministro não teria dúvidas sobre a ‘proximidade com os setores populares’ se tivesse visto na noite de quarta-feira o público heterogêneo que lotou o Oficina (ingressos a R$ 5) para ver um ensaio aberto de A Luta, última parte da genial (aqui cabe o adjetivo) transposição cênica de Os Sertões, de Euclides da Cunha, realizada por José Celso Martinez Corrêa, diretor que trava longa, justa e renhida luta pela ampliação do nosso Globe Theatre mestiço.
O teatro brasileiro não é perfeito. Tem problemas. Mas sem dúvida o apoio do poder público sempre foi desproporcional ao talento existente. Pedindo licença para estender à cena nacional o que escreveu Décio de Almeida Prado por ocasião do surgimento da Companhia Maria Della Costa, em 1954, o dia-a-dia embota-nos a sensibilidade, fazendo que passemos ao lado do milagre sem perceber. O perigo, na avaliação do teatro brasileiro, não é nos entusiasmarmos demais, mas não percebermos a incrível vitalidade dessa arte brasileira.
Artigo originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” (Caderno 2), em 29/01/06, e reproduzido com a autorização da autora e do jornal
Beth Néspoli