Financiamento à cultura: notas sobre conteúdo e forma
O tema do financiamento à cultura anda bastante centrado em seus mecanismos, alterações, ajustes, pleitos e críticas.
Percebo dois pontos bastante relevantes que deveriam ser discutidos de maneira mais aprofundada neste debate. Um se refere ao conteúdo, ou melhor, o que deve ser financiado; e o outro se refere à forma ou à sua aplicabilidade.
Do conteúdo
O atual sistema, mesmo após a mudança, segue funcionando sob a lógica de projeto e resultado e ainda não dedicou a devida importância a um aspecto fundamental da arte e da cultura: o processo de criação.
Qualquer que seja a linguagem artística, ela prescinde de um tempo de criação, maturação. O mundo da arte e da cultura é preeminentemente um mundo da criatividade, porque o artista não está diretamente ligado às convenções, dogmas e instituições da sociedade. O artista tem uma expressão criativa que é resultado direto de sua liberdade.
O suporte ao processo de criação é fundamental não apenas para o desenvolvimento criativo individual do artista mas igualmente essencial para preservar a diversidade de bens simbólicos e valores artísticos brasileiros.
Como o artista afinal pode dedicar seu tempo à produção artística? Em sua grande maioria, os artistas sobrevivem dos produtos gerados. Mas como fazem durante todo o processo até que a obra se concretize? E se o processo fugir do planejado, em termos de tempo e recurso? Só o amplo apoio ao processo criativo oferece a liberdade necessária ao artista para criar e recriar e, claro, é capaz de preservar manifestações culturais, simbólicas e tradicionais que não funcionam sob a lógica de produto.
Sejamos sinceros. Salvo raras exceções, os artistas brasileiros passam todo o processo de criação ‘se virando’, dedicando seu tempo livre, quando deveriam dedicar o seu tempo ‘produtivo’ à criação. As companhias de teatro que não foram agraciadas com apoio a um projeto de pesquisa ou fomento ‘se viram’; os músicos que não são suportados por gravadoras ‘se viram’; os escritores que não são os preferidos das editoras ‘se viram’ e assim por diante.
Há quase 10 anos, quando debutava na área cultural com a minha pequena empresa, tive a oportunidade de colaborar com alguns músicos instrumentistas – diga-se de passagem extremamente qualificados e talentosos. Eles procuravam meu apoio para viabilizar uma residência artística. Tinham acabado de voltar da França – Bretanha onde tinham passado alguns meses numa residência artística – paga, claro -, realizando ensaios, trocas, criações musicais conjuntas com um grupo francês da região. Essa iniciativa havia sido financiada por uma das várias instituições francesas que suportam o artista e não seus produtos.
Fiquei maravilhada com a experiência e me dediquei a procurar meios de realizar o mesmo tipo de residência aqui no Brasil. O resultado foi absolutamente decepcionante. As possibilidades de realizar algo assim eram ‘marginais’, ou seja, raras exceções dentro de um outro espaço, mas nada que se dedicasse e objetivasse realizar e viabilizar uma residência. Não muito distante é a procura de quem detêm acervos de arte e luta para preservá-lo, mantê-lo e difundi-lo. Salvo dois ou três editais saturadíssimos de demandas, não se pode contar com mais nenhum outro mecanismo de financiamento.
Não devemos, no entanto, demonizar os produtos ou eventos culturais. Estes representam o momento de compartilhamento, quando o artista pode estimular o interesse de consciência dos espectadores. É aí que se intensifica a relação e o diálogo com o público que retroalimenta o trabalho do artista.
O que se deseja é pensar, fazer e criar arte e cultura de maneira integral, entendendo processo e resultado como funções igualmente importantes.
Imagino assim que todos aqueles milhares de artistas e criadores que ‘se viram’ esperam que o Procultura, especialmente através do Fundo Nacional de Cultura, comece a entender e suportar o artista – e não apenas sua produção - através de projetos de criação de repertório, residências artísticas, preservação de acervos, entre outros.
Outras ações de política pública ainda deveriam ser implantadas para ampliar o apoio aos artistas e as manifestações culturais, dentre as quais destaco a criação e fortalecimento de instituições que se dediquem a apoiar os artistas, as culturas tradicionais e demais bens simbólicos nacionais, sejam materiais ou imateriais.
Da forma
O novo sistema de financiamento há ainda que se dedicar à forma como os recursos são investidos. Gostaria de me debruçar sobre um dos aspectos da aplicabilidade e eficiência do financiamento à cultura, que diz respeito ao uso dos recursos na esfera local. Como dizem os ambientalistas: ‘Pense globalmente e haja localmente’.
Reforço que este é um dos aspectos da aplicabilidade e eficiência do financiamento, nem todos os projetos podem ser pensados sob este prisma, mas uma grande maioria sim.
Discute-se muito o fato da Lei Rouanet concentrar projetos nos locais onde há maior concentração de renda e maior volume de empresas investidoras, mas a grande parte dos municípios brasileiros, estejam eles ou não à margem dos pólos de riqueza, pouco aproveitam o atual mecanismo de financiamento para realizar, apoiar ou receber ações culturais relevantes.
Os mecanismos de financiamento atualmente tratam de viabilizar, através da figura do proponente, projetos culturais, ponto final. É preciso haver um pensamento sistêmico na aplicação dos recursos para a cultura, que enxergue além do proponente e do investidor, e compreenda a realidade e as necessidades culturais locais do ponto de vista de: governança, equipamentos culturais, agentes, artistas, públicos e valores identitários locais.
Realizar projetos de forma isolada pode levar a um grande desperdício de esforço e de recurso, pois nada garante a sua eficiência quanto ao aproveitamento do público final, sua real relevância local, seu valor residual no que diz respeito à criação artística ou à valorização de bens simbólicos.
Tento ilustrar o que quero dizer com ‘agir localmente’. Nos últimos anos tive a oportunidade de realizar projetos de modo recorrente em pequenas cidades do interior de São Paulo. Sempre fui tomada por uma preocupação de conhecer a cena cultural local, tentar estabelecer parcerias, atuar de forma colaborativa, enxergar as carências e demandas da população, as manifestações e grupos culturais locais, etc. Eis que me dei conta de que as manifestações e artistas locais careciam não apenas de apoio financeiro do governo local, mas antes de mais nada de reconhecimento.
Não é incomum saber que as prefeituras apoiam – inclusive e sobretudo financeiramente – eventos como o Carnaval ou as Festas de Peão, e não como manifestação local, mas apenas como eventos massificados que reúnem muitas pessoas e deixam, por outro lado a sua música de raiz simplesmente desaparecer. Estamos falando de um grande número de municípios que, ou não possuem sequer um departamento de cultura, ou ainda pior, este se confunde com turismo. Tampouco é incomum que muitos dos projetos culturais não sejam realizados nem por proponentes, nem por colaboradores locais. Menos ainda, incorporam manifestações e artistas locais. Qual análise se pode fazer do impacto social e cultural deixado por tais iniciativas?
Os projetos precisam apresentar uma situação de mão dupla quanto ao impacto sociocultural local: de um lado exigindo contrapartida e participação local e de outro incorporando instrumentos capazes de pensar os possíveis impactos gerados visando claro, não apenas minimizar os impactos negativos, mas ampliar os impactos e efeitos positivos.
O financiamento à cultura só encontrará um caminho sustentável se incorporar a preocupação de deixar legados, educar e formar gestores locais, incentivar a iniciativa pública e privada local a pensar, reconhecer e valorizar sua cultura e disseminar a arte.
Tags:financiamento, incentivo, lei rouanet, POLÍTICA, procultura







O suporte ao processo criativo é zelar pelo mercado de trabalho do artista, é garantir os melhores meios para a “viração” do artista. Para isso devemos esperar que alguém se ocupe em fazer o mapa do mercado, antes de qualquer financiamento, como deve ser, ao observá-lo com meios de crítica poderá então formular políticas, distribuir poder, armar a boa luta. Os músicos brasileiros competem entre si no mercado e com quem mais? Em que proporção? Os textos nacionais são encenados em que proporção? Estamos fazendo o que nas artes cenicas ? E na literatura, como está o mercado? O que se vende? Qual a proporção do nosso cinema considerando o povo que sai das faculdades de cinema? O que temos para eles?
É pra falar sério ou é só falação? Precisamos saber.
O Ministério da Cultura – MinC, não tem condições jurídicas para gerenciar o PROCULTURA, pois não é PESSOA JURÍDICA.
Ninguém deve registrar projetos no MinC pois pode ser condenado.
Qualquer projeto enviado deve ser direcionado ao Governo Federal.
Acho que o artigo toca num ponto importante, que é o de buscar formas de financiamento que não sejam focadas apenas no produto final. Mas há questões que precisam ser consideradas para isso. Às vezes me parece que colocamos os artistas num certo patamar à parte, como se todas as outras pessoas em todas as outras profissões, especialmente aquelas que trabalham por sua conta, também não precisassem “se virar”. Discordo dessa visão do artistas que é apenas criador, e que tem que dedicar seu tempo exclusivamente à criação. É uma visão antiga e romantizada, que não se adequa mais ao cenário da cultura atual e nem ao mundo de hoje. Precisamos de mais artistas-gestores, que também sejam capazes de inserir seus trabahos artísticos em contextos maiores e mais integrados. Há muita produção cultural sem diálogo algum com a realidade ou com a sociedade ou com os públicos, e que não pretende falar além do próprio umbigo ou dos seus pares profissionais. Tem muitos profissionais em outras áreas que não a cultura que também adorariam fazer “residências” e ficar pesquisando e criando. Não podemos colocar a cultura nesse patamar à parte. Talvez haja uma necessidade de os artistas buscarem outros meios de sustento a longo prazo que não estejam focados apenas nos produtos finais, ou na criação. Enxergar que outros produtos e serviços podem gerar a partir da sua arte e do seu trabalho. Assim como os mecanismos de financiamento têm foco excessivo no produto, os artistas de modo geral também estão com foco excessivo na criação.
Oi Claudia, já leu este artigo? Sobre o conceito de mérito no julgamento de projetos nas leis de incentivo à cultura no Brasil – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Acho que os dois artigos deveriam procurar algum tipo de convergência entre causa e efeito.
Brant, se por um acaso gostar do artigo pode publicar, é só citar a origem.
http://www.observatoriodacultura.com.br/?p=491
Espero suas considerações.
Parabéns pelo artigo.
Seria muito bom se o artista deixasse de ser refém do sistema político e, como qualquer outro profissional, conseguisse tirar seu sustento de seu próprio trabalho. Essa condição, de refém, faz com que muitos sejam cúmplices dos corruptos para que possam continuar recebendo benefícios públicos para sobreviverem, tendo em vista que com “usa arte” mal conseguiria se alimentar.
Na ditadura muitos artistas utilizavam o oficio para protestar contra esse sistema, buscando a liberdade de expressão… Alcançada, hoje, lamentavelmente se rendem ao sistema corrupto e o mantém como tal para garantirem seu sustento, embora todos reclamem que o poder público não investe na culatra. Talvez se um dia os artistas se dedicarem mais as artes do que a politicagem teremos, finalmente, maior atenção dos governantes e um sistema de incentivo que, de fato, seja para a cultura.