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Arte e entretenimento

| sexta-feira, 27 agosto 2010Um Comentário

Estive presente no último Café Literário realizado no SESC/Majestic, em Vitória no Espírito Santo, que contou com a participação de Flávio Carneiro e Wilberth Salgueiro. O tema era amplo: um passeio pela literatura brasileira. E Flávio fez isso muito bem. Caminhou pelo romantismo e modernismo até chegar aos dias atuais, ressaltando alguns aspectos importantes de nossa emancipação literária.

Destacou a publicação de nossos primeiros romances pelos folhetins nos grandes jornais da época e a formação de um público leitor ansioso por uma narrativa envolvente, composta de personagens reconhecíveis e um cenário cotidiano.  Desenvolveu-se assim no final do século XIX, no Brasil, a literatura como entretenimento e profissão, afinal muitos escritores viviam de seu próprio trabalho que era acompanhado com interesse por inúmeros leitores assíduos dos jornais, sobretudo as mulheres. A narrativa fluente que facilmente se ajustava ao gosto do leitor comum era a forma naturalmente imposta por aquele tipo de publicação, o que levou muitos autores a se aperfeiçoarem em um estilo repleto de peripécias e de enredos adequados ao espaço diário ocupado nos jornais por este tipo de publicação.

O Modernismo, por sua vez, rompeu com essa estrutura de obra digerível por todos, ao lançar-se em experimentos temáticos e de recriação da linguagem abrindo caminhos para diversas linhas evolutivas trilhadas pela literatura brasileira no decorrer do século XX. Para Flávio, a literatura produzida hoje teria, portanto, um vínculo evidente com aquela produzida no final do século XIX, na medida em que hoje o entretenimento tornou-se um dos aspectos da vida atual determinantes da sensibilidade do leitor, o que não implica necessariamente em qualidade inferior ou literatura “menor”.

A distinção muitas vezes discutível e até mesmo preconceituosa para muitos, entre literatura de entretenimento, portanto de baixa qualidade, e literatura canônica, portanto de alta qualidade, pode levar a uma compreensão falsa do fenômeno do prazer da leitura no mundo atual. A lógica do entretenimento perpassa praticamente todas as relações sociais em uma sociedade midiática fundamentada na comunicação.  Até mesmo os jornais televisivos transformaram-se, adequando-se à necessidade de “entreter” a platéia e não mais apenas passar informações, definido pelos americanos como  infotainment.

Onde isso pode nos levar: a não discernir mais os valores construídos em milênios de História, o que poderia nos conduzir à barbárie? Ou a uma evolução que aponta para novas formas de valorar as criações humanas? As redes virtuais, por sua vez, alteram os modos de ver e de ler, as maneiras de se fazerem amizades ou estabelecer relações amorosas.

O debate levantou várias questões que, sem dúvida, estimularam a platéia a continuar refletindo na volta para casa. Compõem os desafios que a vida moderna nos impõem. Enquanto isso vamos desfrutando os prazeres insubstituíveis oferecidos pela literatura. Para Cecília Meireles, a literatura não é um mero passatempo, é uma nutrição. Continuemos então a nos nutrir.

Erlon José Paschoal http://

Gestor Cultural, diretor de teatro, dramaturgo e tradutor. Foi gerente na Secretaria de Políticas Culturais do MinC e é sub-secretário da cultura do Espírito Santo. Para mais artigos deste autor clique aqui

One Comment »

  • Reinaldo Volpato disse:

    Toda a produção cultural americana é de entretenimento, da arte ao parque de diversões radicais, passando pelo cinema bélico roliudiano mantido pela indústria armamentista. Toda a produção industrial tende ao entretenimento, em todas as áreas. E isso está se tornando a praga da sociedade alienada e consumista que tem medo da profundidade e do gozo estético. Ser consumidor é uma ressaca braba!!!

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