A lei que balança o berço

Noite estrelada, estava quentinho no berço esplêndido e o “inocente“ dormia sossegado enquanto a criançada cheia de energia, talento e vontade buscava um lugar no play e “pensava baixinho” para não acordar o bebezão. O parque é grande, e a gente tem direito de brincar!  Uma voz oculta sempre entrava no pensamento: “Mas, você sabe brincar disso?”. Deixo você brincar, mas o que você trouxer passa a ser meu, porque seu lugarzinho é ali! Aqui só meus amiguinhos!

A “ordem”  inconfundível e covarde do menininho que comandava o play, da sua turminha, zeloso pelo amiguinho. Os pequeninos que brincavam com o que sobrava sempre reclamaram, mas nunca entenderam porque uma turminha tinha um parque daquele tamanho e o resto apertado no chiqueirinho. Os meninos que mandavam no parque ditavam as regras e se faziam de amigos do guarda, do pessoal que cuidava da manutenção dos brinquedos, de quem pudesse servi-los e de quem pagava a conta, principalmente que compra cento e tantos canais entre estes “canais” leilão de gado, galinha, anel, pulseira e todo tipo de enlatado com validade vencida pelo mundo. Tem também quem assista e não paga, devidamente absolvidos pelos pagantes. Algo curioso da cumplicidade dos justiça involuntária!

Os meninos donos do parque acharam que estavam cada dia maiores, mais fortes, correndo de um lado para o outro e que os mirradinhos do chiqueirinho estavam em um bom lugar, de bom tamanho! Sem força para expandir porque o espaço do chiqueirinho era bem pequeno mesmo, o guarda e seus representantes resolveram abrir a porta do chiqueirinho para o parque ser melhor aproveitado e aumentar a freqüência. Sabe como é? Ter mais gente correndo, valorizar quem possa dar os primeiros passos, quem caiu e pode levantar, quem já tem capacidade para pular do chiqueirinho e subir na árvore e até quem nem pensava no parque e que também pode querer ir brincar ali. A meia dúzia de meninos que corriam soltos também poderiam ser valorizados, afinal, eles conhecem mais coisas do parque e poderiam também ser beneficiados por isso.

O guarda que precisa alegrar todo mundo criou então uma regra para deixar o parque aberto. Ele pensou em tudo, e principalmente colocou árvores ao redor dos meninos maiores, mais fortes, quase que um labirinto para aos poucos ver como se movimentavam todos estes, os que saíram do chiqueirinho e todos os que poderiam entrar no parque. As árvores mudarão de lugar logicamente. Em outros parques do mundo, as árvores sempre foram recolocadas para o bem da comunidade, diga-se de passagem, vale dar uma olhadinha no parque inglês (Ofcom), na França ( ARCEP) e nos Estados Unidos ( FCC) .

Os meninos do chiqueirinho nem sabem o que fazer com tudo que pode ter no parque, mas começam a dar os primeiros passos e buscar saber sobre o assunto. Quem nem no parque estava, passou a olhar por ali para o ver o que tem de bom. Os guardas estão se organizando e conseguiram recursos iniciais para ajudar nos primeiros passos. O coreto vai ficar mais democrático e o menino rebelde que assoprava a gaita sozinho vai ter que também bater palma para os outros!

Tomaram alguns cuidados em dar um tempo para abrir a porta para os meninos do chiqueirinho, aos poucos, de olho no que pode acontecer com tanta gente “solta”. Os guardas também escolheram uma cor no uniforme e isso atordoa a diversidade de opiniões. Tem muito guarda de óculos escuros para que a gente não consiga ver para que lado eles estão olhando. Eles tinham uma visão melhor do olho esquerdo, mas sabe-se lá porque, o direito foi crescendo muito na medida que foram subindo de patente. O olho, muitas vezes fica maior do que a boca!!!!

Mas também lembraram de abrir espaço para poucos meninos, mas estes sim, fortes, com bolso cheios de grana e tecnologia, que esfregavam as mãos no menor espaço do chiqueirinho. Ainda não sabem do que são capazes esses ricos sapequinhas ou diabinhos!

Os meninos que mandavam e desmandavam no parque sempre souberam que o guarda estava se organizando, mas não acreditavam em mudanças, não queriam mudanças.

Mas chegou aquele dia, que o céu muda, fica preto, a chuva leva o que precisa, deixa o que tem que ficar. Os meninos que estavam soltos ficaram com medo e começaram a correr. A chuva veio forte, teve menino “valente” que abriu o berreiro, outros que tentaram se esconder, outro se adaptar, teve menino que chegou perto do chiqueirinho e recebeu os primeiros que se colocaram a disposição entre a chance de brincar e a tempestade. Provavelmente, estes que se aproximaram dos outros deverão se adaptar melhor. O parque não será o mesmo de antes!

Mas teve um menino que ficou birrento, bateu o pezinho, juntou os amiguinhos que ele paga para jogar nos times dele e que todo mundo conhece, pagou para tentar enganar a opinião pública, inventou uma regrinha entre o bem e o mal, fez de tudo para colocar todo mundo de volta no chiqueirinho. Chamou o guarda de soviético! Mas ele é soviético mesmo! Tudo certo! Até os Girassóis da Russia têm coisas boas.

A turma do guarda já tinha se manifestado para outros meninos do mesmo grupo: “Se vocês apertam aqui, nós soltamos ali!”. Mas ele era terrível. O que ele conseguiu? Erguer a mão mais poderosa que comanda a harmonia do parque, que não tem cara, preferência, quer ver o parque cheio de oportunidades para logo ali reorganizar os limites para o bem comum, A mão do bom senso, do respeito ao espaço, da verdade comum e não absoluta, da abertura de oportunidades, de mercado, de tecnologia, de serviço, de algo rico para uma cadeia produtiva, criativa por natureza. A mão do bom senso balançou o berço e a criança está esperneando, olhando pela janela de cristal, do alto do morro em cima de uma só árvore!

Chora menino, mas tome cuidado, porque como diria o ilustre Guimarães Rosa: árvore sozinha em morros, chama raios!

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