Cultura e Mercado

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  • A cultura-mundo

    O novo livro de Gilles Lipovetsky* em parceria com Jean Serroy traz uma discussão sobre a mercantilização da cultura contemporânea. O outro lado da moeda é a culturalização do mercado, que a cada dia se locupleta de sentidos e se constrói simbolicamente.

    Como parte do experimento audiovisual que me propus a fazer há quatro semanas, avanço um pouco no formato e deixo a reflexão apenas em vídeo, que já conta com uma participação mais espontânea e diferente do que vinha apresentando até então.

     

    Enfim, uma mercantização integral da cultura que é, ao mesmo tempo. uma culturalização das mercadorias. Na época da cultura-mundo, as antigas oposições da economia e da cotidianidade, do mercado e da criação, do dinheiro e da arte dissolveram-se, perderam o essencial de seu fundamento e de sua realidade social. Produziu-se uma revolução: enquanto a arte, daí em diante, se alinha com as regras do mundo mercantil e midiático, as tecnologias da informação, as indústrias culturais, as marcas e o próprio capitalismo controem, por sua vez, uma cultura, isto é, um sistema de valores, objetivos e mitos. O cultural se difrata enormemente no mundo material, que se empenha em criar bens impregnados de sentido, de identidade, de estilo, de mode, de criatividade, através das marcas, de sua comercialização e de sua comunicação. O imaginário cultural não é mais um céu acimo do mundo “real”, e o mercado integra cada vez mais em sua oferta as dimensões estéticas e criativas. Sem dúvida, o econômico jamais foi totalmente externo à dimensão do imaginário social, sendo o mundo da utilidade material ao mesmo tempo produtor de simbolos e valores culturais. Simplesmente agora essa combinação é explicitada, gerida, instituída em um sistema-mundo globalizado.

    * A cultura-mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, editora Companhia das Letras.

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    Comentários

    1. Dayse Cunha disse:

      Vc vê, o próprio livro a quatro mãos já se rende ao fato da criação coletiva. Sou do tempo dos grandes autores, onde Deus falava a seus escolhidos para apascentarem os demais. Vertiginosamente hoje é o coletivamente eterno. Não temos mais futuro – Só eternidade. Portanto é holográfico o nosso destino…

    2. Dani Torres disse:

      Mais espontâneo = bem mais vc, bem mais legal! Gostei.

    3. Fred Furtado disse:

      O sistema mundo globalizado distanciaria as instâncias individuais das coletivas, diluindo o local no macro, o único no planificado. A arte, a cultura, especializados em si, em seu local, dialogando com todo o macro, globalizado e mundializado revelaram toda nuance de possibilidades de reconhecimento do único, diferente, portanto igual e único mesmo. E, para fazer sentido, o setor cultural como rizoma, sem o tronco que separa a arte como elitista, precisa se preparar tanto para escoar quanto para circular. Tudo é troca e negociação. Nem tudo se troca por dinheiro apenas. Nesse mesmo momento as moedas complementares ou moedaas sociais vem dinamizar o mercado, vem funcionar como catalizadores da mercantilização plena e não somente a cultural. Daí dá pra trocar tudo por tudo e dá pra estipular valoração que se apresente justa para as partes. Isso é pensar fora do eixo, posicionar-se de acordo com a realidade cabida, institucionalizar o mercado cultural como trocas simbólicas e capitais, desmistificando o conceito de sustentabilidade como o necessário para sobrevivência, como qualquer empresa, qualquer projeto, qualquer família. Bela reflexão.

    4. Acho que ficou muito melhor…(não que antes não fosse bom)… rs. menos leitura, mais olho no olho…

    5. Gosto do branding texto, imagem, mas ainda pode ser melhor alinhavado, no sentido do texto ser complemento da imagem ou a imagem complemento do texto.
      Quanto ao artigo da Mercantilização, a fronteira é obscura.O quanto a arte para sobreviver tem de tornar-se um objeto, um ítem de consumo apoiado no mercado e o quanto o esqueçer deste mercado(agora mundial) pode legar a mesma arte a padecer subnutrida na mente de seu criador.
      Não penso haver respostas, mas sim casos a serem estudados,que podem nos trazer uma melhor reflexão do momento histórico vivído.
      Mas há de ser notado a imensa dificuldade pública de legar aos mercados a responsabilidade de prover cultura e o despreparo intenso, no caso do Brasil, dos gerentes de marketing das instituições para escalonar suas contribuições.
      É um fato histórico que penso só poderá ser resolvido quando a cultura retomar seu lugar de formadora estética da sociedade, assim a longo prazo formando novos pensadores e novos gestores de todas as escalas de poder(publico/privado)para um novo pensamento cultural.