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O Estado contra a Lei Rouanet

| segunda-feira, 31 março 200853 Comentários

Incapaz de dar soluções para a Lei Rouanet o MinC optou por esvaziá-la, execrando-a publicamente. Por trás disso, problemas administrativos ameaçam paralisar o mecanismo

Semana passada vimos publicar o mesmo artigo com duas versões, dois títulos e um só conteúdo. O primeiro, no Jornal do Brasil, retumbava: “O teatro não é inviável economicamente”. Seu autor, Celso Frateschi, presidente da Funarte.

O outro traz a assinatura conjunta deste com o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, e é publicado na Folha de S.Paulo sob o título “Incentivo ao Teatro?”. O motivo é a comemoração do dia do teatro.

Com as mãos abanando diante do caos vivido pela produção teatral, vieram a público colocar a culpa pelos desmandos à Lei Rouanet, da falta de público à diminuição das temporadas. Só faltaram pedir o pescoço dos governantes, diante do descaso do mecanismo governamental em relação às necessidades das artes cênicas brasileiras.

Quase nos fizeram acreditar que o problema da lei é a própria lei, como se tivesse pernas próprias e não dependesse de governo para seguir o caminho correto, ou desejável. Cinco anos de poder foram necessários para descobrir verdadeiros exus: empresas e produtores culturais que lucram com a lei. A pena para a doença, matar o doente. Em português claro: acabar com a lei.

Mas como pode a Lei Rouanet ter esse poder todo se ela é tão-somente um mecanismo de estímulo ao investimento privado? Convenhamos que qualquer julgo além do seu campo de atuação constitui mera (ir)responsabilidade interpretativa de quem escreve, ou simplesmente assina, o petardo. O que espanta é o próprio poder público incitar uma visão equivocada da lei. Com que objetivo?

Vale lembrar que o teatro, assim como todas as outras artes, está órfão de políticas públicas. O MinC optou, já em 2003, por extinguir as secretarias chamadas finalísticas (música/artes cênicas, patrimônio/museus, livro e leitura), dando prioridade apenas para o audiovisual. No lugar, ampliou o escopo do Ministério e passou a dar prioridade para questões como Tv pública, propriedade intelectual, cultura digital, diversidade cultural. Apostou na transversalidade em detrimento da política setorial.

Amplamente aplaudida e reconhecida no Brasil e no mundo, as políticas propostas por Gilberto Gil carecem ainda de ações programáticas que as sustentem. Sem uma política transversal consistente (e que vá além do discurso) corremos o risco de perder o velho e não ganhar o novo.

Como pode o artigo do MinC vociferar: “não devemos propor o novo sem entender o velho”, se ele próprio não consegue dar conta do maior e mais eficaz sistema de financiamento à cultura que o Brasil já teve?

A Lei Rouanet tem problemas, todos sabemos. Já eram sérios e graves em 2002. Com a inabilidade deste ministério em resolvê-los, a Lei transformou-se numa bomba-relógio, pronta para estourar nas mãos do ministro Gilberto Gil. Como não está disposto a aceitar o fardo, o MinC quer colocar o problema da lei no colo do “mercado”, das empresas que se promovem e lucram com a lei. Como se o MinC não fosse o único órgão responsável por seu destino e gestão.

A Lei Rouanet é acusada de causar distorções no mercado cultural desde aquela campanha presidencial. Artistas carentes foram ao Canecão pedir socorro a Lula, pois a cultura estava sendo privatizada. Desde então o MinC realizou uma série de viagens com todo o seu gabinete para os quatro cantos, prometendo mudanças e ouvindo o que já sabíamos. Três anos depois, decretou mudanças cosméticas, sem efeitos práticos.

O que os fogos de artifício escondem é que a causa de tais distorções não está na lei, mas sim na falta de políticas mais amplas, tanto para as artes quanto para o mercado, que quer e precisa crescer e exige um conjunto de ações mais adequadas ao empreendedorismo e ao lucro (sim, avisa lá que somos capitalistas).

Mas estamos longe de alcançar uma realidade em que o Ministério da Cultura comemore o crescimento e o sucesso econômico de empresas culturais, dando-lhes o suporte necessário para empregar gente, recolher impostos e ajudar a financiar a rica diversidade cultural do Brasil.

Um mecanismo de financiamento privado não pode ter a responsabilidade de compensar a falta do Estado, mais ausente do que nunca. Em termos de financiamento público, a própria Lei já abarca mecanismos de compensação, como o Fundo Nacional de Cultura, que sempre foi acusado de ser uma caixa-preta. Hoje continua na mesma situação, com um volume insuficiente de editais, que continuam sem transparência, geridos e definidos por grupos que sustentam o poder e a ideologia do MinC.

Parece haver um entrave ideológico a ser superado pelo MinC. A Lei foi criada com base num princípio liberal, de que a sociedade (incluindo o mercado) teria condições, por si, de regular a lei. Mas como pode a sociedade saber o que é bom para a sociedade, se existe um grupo de pessoas privilegiadas com esse dom supremo?

Então o Governo faz de tudo para exercer comando sobre os projetos, interferindo diretamente na comissão que os aprova, gerando burocracias para segurar o que não lhe convém e facilitar o que considera alinhado com a “atual política”. E faz de maneira inábil, truculenta. Mostra-se cada vez mais perdido com a situação, chegando a implementar e mudar diretrizes e procedimentos como quem troca de roupa.

O Estado foi incapaz de incorporar a Lei Rouanet como política pública, deixando-o ao prazer do mercado. A primeira reunião que o MinC fez com as empresas patrocinadoras foi em 2007. Ainda assim para cobrar, não para orientar, dar diretrizes, ou declarar uma política clara para o investimento privado. Isso é um contra-senso, já que a aplicabilidade da lei está intimamente ligada à ação das empresas.

Este governo trata a lei como um filho bastardo, fruto das andanças do Estado com o mercado. Não o reconhece como um potente instrumento de financiamento à cultura. E por não o acolher, age contra ele. E por ele é consumido, pois não consegue formular alternativas para o aniquilar, substituir ou complementar.

Por outro lado, a lei foi apropriada pelo mercado. Empresas a utilizam como estratégia de comunicação. Isso não é uma distorção em si, e não é um mal em si. É apenas conseqüência do abandono do mecanismo como ingrediente de política cultural que dialoga com o capitalismo em que está (indesejavelmente) inserido.

Vendo-se incapaz de atuar na lei pela via do diálogo, o MinC passou a criar um arsenal de regras e burocracias, desenvolvidas com o objetivo único de tornar o instrumento moroso e ineficaz. A estratégia é esvaziar a lei, como fez Celso Frateschi em sua gestão municipal em relação à Lei Mendonça. Repete a dose à frente da Funarte, responsável por conceder parecer técnico à Lei.

Como resultado disso, criou-se um mercado paralelo de aprovação de leis dentro do próprio ministério, que atuava (ou atua?) no sentido de quebrar os bloqueios criados por este governo. A ação resultou no final de 2007 na prisão de uma quadrilha pela Polícia Federal. Um tiro no pé.

O mercado agora prepara ofensiva. Vários movimentos estão se formando pelo Brasil afora em defesa dos direitos culturais e liberdade de expressão, consagrados por nossa Carta Magna e pela própria Lei 8.313/91.

Julinho da Adelaide Sobrinho
Aplacados pela censura e pela perseguição, os autores deste artigos protegem-se sob o codinome Julinho da Adelaida Sobrinho, um parente fictício de Julinho da Adelaide, heterônimo de Chico Buarque de Holanda, criado para fugir da censura dos tempos difíceis da ditadura, que insiste em nos rodear.

J.A.S. http://

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53 Comments »

  • Helio Rosa disse:

    Vamos terminar com esta discussão. Sabemos todos nós, que só gozam benefícios da Lei Rouanet os apadrinhados. Incentivos sim, mas para construçõ ou adaptações de salas de cinemas, teatros, etc., etc. mas voltadas para a arte e cultura de nosso povo. De todo universo dos municípios brasileiros, são menos de cincoenta que tem cinemas, teatros, museus, pinotecas e por ai afora. Nada de obra faraonicas, nem elefantes brancos, algo simples onde o publico possa assistir um cinema, ver uma exposição ou qualquer exibição teatral. Crie-se um fundo de financiamento para os municipios.
    Helio Rosa -

  • Marcos Godoy disse:

    Prezados Senhores!
    Apesar das reflexões e colocações acaloradas, avalio como positiva, urgente e pertinente as discussões em torno da Lei Rouanet.
    O anonimato, infelizmente, ainda faz-se necessário quando se discorre sobre temas que incomodam certos políticos, gestores,administradores,
    “donos” de Fundações, Associações que fazem uso indevido dos recursos relativos às Leis que deveriam beneficiar a quem a elas faz jus.

    O Jornalista Sérgio Dechen escreveu:
    “Estou com pena de Sergio Paulo Rouanet”, fundamentando:
    “Se, em 1991, o diplomata, filósofo, antropólogo e hoje membro da Academia Brasileira de Letras Sergio Paulo Rouanet pudesse prever o futuro, é possível que tivesse pensado não duas, mas quinze vezes antes de encabeçar o projeto de criação da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991), a hoje tão falada Lei Rouanet, que leva seu nome. Que destino mais triste ter o seu nome associado a práticas tão, como posso dizer… heterodoxas.”…

    Recentemente, em Brasília, explodiu a notícia que havia nos CCBBs-(Centro Cultural do Banco do Brasil) uma “Associação de Amigos” que se apropria dos valores da bilheteria e do material de divulgação que pertencem aos produtores e artistas.
    Essas irregularidades são uma prática recorrente nos CCBBs há muitos anos.
    Os valores arrecadados vão para os cofres do CCBB e para a tal Associação (BSB, RJ e SP), que em Brasília é presidida pela Sra. Maria Luzineide Medeiros Soares.
    O termo de doação de bens, citado acima, é encontrado em branco na administração do CCBB DF, preenchido com os dados do doador, estrategicamente colocado entre os demais documentos no momento da assinatura do contrato de patrocínio (suspeita-se que o produtor desconheça que o valores e material lhe pertence) e, terminado o evento, complementado com o valor auferido na bilheteria e assinado pelo Diretor Administrativo Financeiro da ACCBB. Há denúncias de super faturamento, assédio moral, autoritarismo, punições arbitrárias, ameaças, imposição da Lei do Silêncio aos funcionários terceirizados, dentre outras sérias “irregularidades”… Gostaria de usar uma palavra mais FORTE!

    Trechos da Lei Rouanet:
    “Constitui infração a esta Lei o recebimento pelo patrocinador de qualquer vantagem financeira ou material em decorrência do patrocinio que efetuar.”
    “A doação ou patrocínio não poderá ser feita a pessoa ou instituição vinculada ao agente.”
    “As infrações aos dispositivos deste capítulo, sem prejuízo das SANÇÕES PENAIS cabíveis, sujeitarão o doador ou patrocinador ao pagamento do valor atualizado do imposto sobre a renda devido em relação a cada exercício financeiro, além das penalidades e demais acréscimos previstos na legislação que rege a espécie.”

    Diante de fatos tão graves orquestrados por pessoas que se acham “poderosas”, entendo perfeitamente a opção do manifesto feito em anonimato. Vide as penalidades e censura sofrida recentemente por um Jornal de Sao Paulo ao veicular (legítimo direito e dever)informações sobre as denúncias sobre “atos secretos”, nomeações e CIA… inclusive, desvio de verbas da Lei Rouanet para a “Fundação Sarneysiana”.
    Quem não quer seu nome envolvido publicamente em denúncias, que não as cometa.
    UM DIA O POVO ACORDA. LENTAMENTE… PORÉM MAIS FORTE E CONSCIENTE!
    Atenciosamente
    Marcos Godoy

  • Lidiane Godoy disse:

    LEI ROUANET-IRREGULARIDADES NOS CCBBs

    SENHORES, A QUESTÃO É MUITO SÉRIA!!

    Quando teremos resposta sobre as sérias irregularidades sobre o uso indevido e apropriação indébita de valores da Lei Rouanet, nos Centros Culturais do Banco do Brasil?
    Enquanto milhões de crianças e jovens brasileiros nunca foram a um cinema, teatro; não tem direito á saúde, à Educação, ao lazer, a alimentação básica… outros se apropriam de verbas públicas, burlando todos os preceitos de cidadania e humanidade
    A questão veio à tona há aproximadamente três meses, oriundo do CCBB DF, na gestão da Sra. Maria Luzineide Medeiros Soares.
    Foi criada, há anos,uma Associação (“Amigos” do CCBB) que se apropria indevidamente de altos valores, através de uma “doação espontânea”. Na maioria das vezes os documentos de doação são inseridos estrategicamente, entre os demais, no momento da assinatura do contrato do Evento.
    Assim a Associação apropria-se das rendas da bilheteria, da venda de catálogos e material de divulgação que são de propriedade dos Produtores e artistas. Será que eles tem ciência do seu direito?

    A Lei Rouanet (8313/1991, regulamentada pelo Decreto 1494/1995) prevê, dentre outras penalidades, prisão de até 02 anos para os dirigentes, pagamento do valor atualizado do IR devido em relação a cada exercicio financeiro e multa correspondente a duas vezes o valor da vantagem recebida indevidamente.
    São questões que, por enquanto, aguardam respostas. Cremos, e esperamos, que em breve sejam respondidas ao Ministério Público, Polícia Federal, TCU, Imprensa e, sobretudo, à sociedade.
    NÃO DEIXEMOS MAIS UM CASO DE CORRUPÇÃO ESCONDIDO NOS BASTIDORES DA FALTA DE CONSCIÊNCIA de pessoas que ao ocuparem, transitoriamente, um cargo… creem-se “poderosas”, fazem o que querem e consideram-se isentas de qualquer punição.
    Entendo perfeitamente o anonimato do texto do Julinho. É simples…!!!
    Marcos Godoy

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