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O apagão da “elite culta” e a liberdade das conferências de cultura

Carlos Henrique Machado Freitas 18 novembro 2009 3 Comentários

Foto: LGornildo
É nítido que as conferências de cultura de forma instantânea incendiaram a vida nacional. Cultura, política, eleição, sociedade, empresariado, pessoas sérias, picaretas, enfim, há um jogo franco, menos técnico, “técnico-racional”, mais apaixonado, alucinado em muitos momentos, produzindo por uma febre de participação que ainda não experimentamos.

Qual o resultado disso? Mas quem está interessado em resultados? E se eles vêm de forma inesperada? Pois tudo indica que virá, comandado por outro sentimento menos ordeiro, mais simbólico, sobretudo mais verdadeiro, incontrolável, desembestado.

São estas as questões que os camarotes terão que presenciar os blocos de sujos, dos feios e ajambrados da cultura desvalida, do sentimento pressionado.

Há um vulcão em erupção, magicamente e magistralmente efervescente desenhando um cenário de absoluta autonomia com a chegada das conferências de cultura. Nada está certo, nada está errado. Imagino que os universalistas de Sorococó estejam assustados. Nós os vira-latas estamos fugindo das carrocinhas que, como sabemos ninguém consegue pegar vira-lata depois que as portas são arreganhadas pela molecada.

A cultura brasileira estava a um passo de virar sabão, pois era esse o destino que os ideólogos da cultura chique empacotada, do sabão português aguardavam, nós os vira-latas sendo matéria-prima da indústria culta. Mas somos muitos, quase todos, sem complexos, pois complexo é coisa de elite, ela que quer nos transformar em universais mequetrefes, em cidadãos de terceira, em carbono borrado de civilizações européias do século XVII para sermos os civilizados higienizados do século XXI em seus matadouros urbanos, os tais centros culturais, institutos e fundações que tentam a todo custo engarrafar a rebeldia da cultura brasileira.

Estou achando tudo isso uma delícia. Os institutos somos nós. A cultura brasileira somos nós. Se universal ou não é só nosso o problema. Queremos ter o singelo e gigantesco prazer de sermos os macunaimas que somos.
Há uma força incontrolável surgindo com a união dos sentimentos indiscutivelmente promovida pelas conferências de cultura. Nada é uniforme, elogios, críticas, xingamentos, comemorações, broncas, gargalhadas e participação coletiva, ora coordenada, ora desencontrada.

E o que é mais a nossa cara? E o que é mais os nossos sentimentos do que nossos próprios paradoxos?
Adoramos debater, nos debater, gritar gesticular, desconstruir, destruir, criar, repetir, a modo e gosto, bem ao sabor da liberdade.

As conferências de cultura não são do bem nem do mal, são do povo brasileiro, sem heróis nem vilões.
É isso que estamos assistindo, informações desencontradas, pensamentos desconexos numa embolia social que podemos maravilhosamente chamar de divina, de cultura brasileira.

Sobre "Carlos Henrique Machado Freitas " http://www.myspace.com/carloshenriquemachado

Bandolinista, compositor e pesquisador. mais

3 Comentários »

  • Manoel J de Souza Neto disse:

    Caro Carlos, após a leitura de seu empolgado texto me senti mal, por não compartilhar da mesma opinião. Gostaria de ver o belo, em algo que me incomoda, esta verdadeira falta de consolidação do povo brasileiro, da decadência de valores, que trocada em miúdos, facilita a adoção de uma racionalidade econômica e individualismos… macunaimescos… Boas críticas, confesso também gostar de ver o circo pegar fogo…
    Seu texto apresenta de forma simples os conceitos de Bauman sobre a sociedade liquida, só por isso já lhe tiraria o chapéu, pois o conflito neste caso seria sem dúvida algo incontrolável, o belo que revela… cinismo e equivoco de estado.
    Mas resta uma pergunta? Estamos efetivamente vivendo uma democracia caótica, livre, que reflete nossa diversidade? Ou estaremos sendo apenas instrumento, vagões desgovernados, mas em uma pista, que esta absolutamente delineada, baseada em mapas, em esquemas técnicos, em estruturas e materiais pré definidos? Que estrutura é essa que nada sabemos? A não ser que tudo isso faz parte do plano de governo. Conferências, Sistemas, Planos… Percebe a estrutura? O Quanto, o que sugere caos, é técnico e intelectual? O quanto o que sugere ser técnico e intelectual é caos? Será que o resultado almejado não é o tecno-caos?
    Mas quero saber qual é o plano? Qual é a política? Social ou capital? Pergunto isso, pois a observação que tenho feito nestes anos em que tenho participado ativamente como ativista e pesquisador cultural é de que na verdade o Brasil continua em sua democracia de elites e de consenso (Schumpeter) e que a base social e militante ativa no processo cultural vigente, esta orientada pela cartilha Gramsciana (Antônio Gramsci). Ou seja, elites mandam, bases militantes tentam nos conduzir ideologicamente…
    E no meio desta suposta bagunça (dissonante, porem muito bem orquestrada), restam pessoas como nós que insistem em não perder a esperança (nem os brios).
    Por isso não acharei belo, pois não é apenas caos… e quem acha o caos bonito é a física quântica.
    Prefiro ver o bloco na rua, bateria na cadência, foliões alegres dando um grande espetáculo, mestre sala e porta bandeiras em harmonia… Querendo nota 10! Nem que a grana venha do jogo do bicho… Pelo menos todo mundo sabe a origem. Não fica essa indefinição… Este jogo que ninguém entende… Melhor do que escorrendo em projetos questionáveis, ação, pontos, bolsas de pesquisa, encontros, tudo política partidária, na base de tapinha nas costas do companheiro…

    Elite é elite em qualquer governo e onde existe segredo, já dizia meu bom e velho Pierre Bourdieu, existe oligarquia! A pirotecnia? A bagunça? A diferença? A diversidade? Os populares? O caos? Tudo realmente ao acaso? Vai ver, que tudo não é nada.
    Lhe tenho simpatia. As criticas são a ninguém… apenas constatações e histeria (no sentido lacaniano)
    Abraço

  • Carlos Henrique Machado Freitas (autor) disse:

    Oi Manoel
    Fique tranquilo, nós é que bebemos, mas eles é que ficam tontos.

    O drible, a galhofa, o glicê gritado do clarinete jogando o tempo fora do tempo da música, a chula magistralmente dançada ainda hoje, os funkeiros em folias de reis tradicionalíssimas expressando-se dentro da igreja da Glória em Valença, terra de Rosinha e Clementina, que representam tão bem esse universo Villa Lobiano que fez a elite vaiar Villa Lobos na semana de 22 porque estava descalço, em função de um cravo que lhe incomodava um pé, mas sabe como é né! A ideia ordem e progresso plantada pela elite, seja ela qual for,trabalhou com essa norma, sapatos apertados e grilhões aos pobres escravos e o ócio ócio desmedido e covarde para a dinastia dos bem-aventurados de escopeta na mão, e o aparelho do Estado sob o comando deles.

    Garrincha, Pixinguinha, são ídolos de um país que não liga pra se despir, que não é hipócrita nem pudico. Nacional aqui nada tem a ver com o ultranacionalismo de direita que clama por universalismo no terreno dos outros, instalando bases militares e estendendo as suas xenofobias em alguns pobres latinos comandado pelos vendidos a la Uribe.

    Aos poucos Lula vai explicando ao povo o orgulho que devemos ter do pau-de-arara, mesmo que, asim como a chula, o termo significa o não Estado. Em muitos casos sabemos, pau-de-arara, pela nossa história de opressão e ditadura, é um instrumento de suplício e tortura e que ainda se mantém no cangaço até nas nossas instituições mais elevadas, como bem disse o querido Ministro do Supremo, Joaquim Barbosa quando se dirigiu àquela figura que definiu que Battisti deve ser entregue ao fascismo europeu muito bem representado por Berluscone.

    Lembra do inglês, ladrão do trem pagador? Aqui no Brasil virou celebridade, quase mestre-sala, por quê? A rapaziada faz as contas e escreve no quadro negro do copo sujo do portuga, “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Eles preferem os bicheiros. Como disse Noel, “lá no morro se eu fizer uma falseta a Risoleta desiste logo do francês e do inglês”, e conclui… “esse negócio de alô, alô boy alô Jonny só pode ser conversa de telefone”. A chula, Manoel, danças e palmeados, é obra lírica, encantadora. Imagine! Não é o Estado que está presenvando, e sim funkeiros que mereceram hoje aqui no Rio o trem, ou melhor, o bonde igual ao samba, igual ao bondinho de Sta. Teresa para o choro.

    Fique tranquilo, o povo sempre soube fazer limonada, a internacional caipirinha com a cachaça, o limão e a garapa que os donos do engenho do antigo Brasil na era pré-Lula sempre disponibilizaram ao povo. Com os restos da casa grande fizemos a santa feijoada e saudamos este país fazendo barulho, sentando a mão no couro.

  • Manoel J de Souza Neto disse:

    Carlos parabéns, querendo bater um papo entre me contato e me avise quando publicar novos artigos. Abraço

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