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  • Aparelho famoso no funk carioca ganha aplicativos para iPad e adeptos fora dos bailes

    Lançada pela empresa japonesa Akai para ser uma ferramenta de criação em estúdio, a MPC (de Music Production Center), misto de bateria eletrônica e gravador, acabou se tornando um dos pilares do hip-hop, graças às suas incontáveis possibilidades de gravar, armazenar e manipular sons, como se fosse uma banda de bolso.

    Tablet eletrônica sobre a mesaNo Brasil, porém, a MPC foi além do seu uso em estúdio e do que dizia o seu manual. Graças à curiosidade e à criatividade dos DJs e produtores, ela ganhou o status de instrumento e passou a ser usada como uma percussão eletrônica nos bailes funk, gerando, entre outros ritmos, o famoso tamborzão.

    Responsável pela evolução do funk e transformada em ícone do estilo – os designers Breno Pineschi e Rafael Cazes fizeram seus pads virarem minitorradas num comercial de um suco de laranja -, a MPC entra agora numa nova era. Além de aplicativos para iPad, que permitem que ela seja simulada nos tablets, abrindo um leque de possibilidades e atraindo novos usuários, o aparelho ganha força para além dos bailes e do próprio funk – caso de músicos como Pedro Bernardes e João Brasil.

    “Tem muita gente nova, de fora do funk, usando a MPC tradicional para fazer suas montagens em casa. E agora a chegada dela aos iPads abre novas portas para seu uso, como a reprodução de sintetizadores e outros sons”, conta John Woo, do Apavoramento Sound System e produtor das festas Shake Your Rampa e Uh, o Baile é Nosso.

    “São tantas coisas que dá para fazer a partir de agora que nem dá para imaginar qual vai ser o limite. Uso um iPad há pouco mais de um mês, mas já sinto uma grande diferença. Não há fios, dá para tocar no meio da galera. E os aplicativos são incrívei”, conta Cabide DJ, craque da MPC e pioneiro do seu uso nos iPads.

    Num concorrido vídeo que circula no YouTube, Cabide mostra suas habilidades no aparelho e no iPad também. A partir deste mês, ele vai ganhar um reforço no seu arsenal: o aplicativo iFunke-se, criado por Sany Pitbull em parceria com a Red Bull. Contando com as participações de MCs e DJs como Emicida, Renegado, André Ramiro, DJ Nino, DJ Zé Brown e Funkero, o programa transforma o iPad numa MPC digital, a partir de experiências feitas pelo grupo no estúdio do AfroReggae, em Vigário Geral.

    “Além desse aplicativo, estou produzindo um vídeo para a internet no qual ensino como usar uma MPC no estilo funk carioca. Afinal, aqui no Brasil mudamos a forma de usar a MPC. Nada que os DJs de funk fazem tem no manual dela. Desenvolvemos uma técnica diferente, sem mudar nenhum dispositivo sequer. Nem o pessoal da Akai sabe fazer isso”, diz Sany.

    A MPC foi criada, na verdade, pelo engenheiro americano Roger Linn, para a Akai, na segunda metade dos anos 1980. Os timbres dos primeiros modelos podem ser ouvidos em discos de Prince, Michael Jackson e Gary Numam. Aos poucos, o aparelho passou a ser adotado por artistas de hip-hop. “Muitas batidas e nenhum baterista por perto”, dizia o título de uma recente reportagem do “New York Times” sobre a MPC. Mas foi no universo do faça-você-mesmo do funk carioca que a criação de Linn foi virada do avesso.

    “Quando eu ganhei a minha primeira MPC, no final dos anos 1980, fui mexendo nela no ônibus mesmo, até chegar em casa. Ela mudou a história do funk carioca. Uso MPC até hoje e já tenho uma no iPad também”, lembra o DJ Marlboro, um dos primeiros a usar a MPC nos bailes.

    Se nos EUA novos DJs de hip-hop, como Araabmuzik, Divinci e Exile, seguem os passos de veteranos como DJ Shadow, Craze e RJD2, adaptando a MPC aos tempos atuais, por aqui, festas como Shake Your Rampa e Uh, o Baile é Nosso – a próxima edição acontece no Circo Voador, no dia 22 deste mês – têm na MPC o elo de ligação de artistas de funk (como Alex MPC, Batutinha e Grandmaster Raphael) e de outros estilos (como John Woo e Pedro Piu).

    “É um aparelho meio mágico. Lembra um tabuleiro Ouija. O espírito da música parece entrar nele através daquelas teclas”, diz Woo.

    *Com informações de O Globo Online

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