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Entre o populista e o autoritário

| quinta-feira, 26 fevereiro 20092 Comentários

Foto: Marcelo Soto Mendes
Venho chamando a atenção dos leitores para uma certa tendência populista e autoritária do Estado em relação às políticas culturais. Não acredito que seja este o melhor remédio contra os vícios liberais e neoliberais do passado. Para traduzir melhor o que venho apontando nesta tribuna desde o ano passado, tomo de assalto as palavras da filósofa Marilena Chauí. Em seu livro Cidadania Cultural – O Direito à Cultura, a filósofa Marilena Chauí aponta quatro vícios históricos nas relações entre Estado e cultura, a saber:

1) A liberal, que identifica cultura e belas-artes, estas últimas consideradas a partir da diferença clássica entre artes liberais e servis. Na qualidade de artes liberais, as belas-artes são vistas como privilégio de uma elite escolarizada e consumidora de produtos culturais.

2) A do Estado autoritário, na qual o Estado se apresenta como produtor oficial de cultura e censor da produção cultural da sociedade civil.

3) A populista, que manipula uma abstração genericamente denominada cultura popular, entendida como produção cultural do povo e identificada com o pequeno artesanato e o folclore, isto é, com a versão popular das belas-artes e da indústria cultural.

4) A neoliberal, que identifica cultura e evento de massa, consagra todas as manifestações do narcisismo desenvolvidas pela mass media, e tende a privatizar as instituições públicas de cultura deixando-as sob a responsabilidade de empresários culturais.

Do lado dos produtores e agentes culturais, segundo Chauí “o modo tradicional de relação com os órgãos públicos de cultura é o clientelismo individual ou das corporações artísticas que encaram o Estado sob a perspectiva do grande balcão de subsídios e patrocínios financeiros”.
Ou seja, sofríamos da predominância de dois dos males apontados por Chauí. Com a gestão de Juca Ferreira, passaremos a sofrer dos quatro?

Leonardo Brant http://www.brant.com.br

Pesquisador cultural, autor do livro "O Poder da Cultura", diretor do documentário Ctrl-V, criou e edita este Cultura e Mercado. É sócio da Brant Associados e do Cemec. Idealizou e coordena o programa Empreendedores Criativos. Para mais artigos deste autor clique aqui

2 Comments »

  • [...] não nos esqueçamos de batalhar por fundos autônomos, para não reforçarmos o populismo e autoritarismo, marcas características da atual [...]

  • marcos moraes disse:

    òtima Síntese. Viva Marilena. Já estamos sofrendo dos 4 males. A situação atual das políticas públicas federal, Estadual (no caso de São Paulo) e Municipal (SP Capital) faz muito mal ao fígado, além de não estar atendendo ao país. Tenho pensado seriamente em voltar aos tempos de guerrilha cultural, quando entendíamos que não há diálogo possível, que governo é tudo safado mesmo, que o exercício artístico é intrinsicamente subversivo e que a tensão governo sociedade no plano da cultura não tem produzido avanços. Além de deplorar o atual estado do MinC (e Funarte), e Secretarias Estadual e Municipal de Cultura de São Paulo e sentir que “fomos enganados” com tanta tese Uspiana disfarçada de carta de intenções de possíveis futuras políticas culturais que nunca aconteceram – tenho vontade de gritar: “Quero meu dinheiro de volta!!”- acho que precisamos denunciar em altos brados o estelionato total que estamos vivendo. Precisamos: novo sistema tributário; outra forma de entendimento ( e prática) sobre o desenvolvimento cultural; verbas mínimas de verdade; desenvolvimento real (e não só de gogó)de programas que tenham objetivo, metas, metodologia e formas de avaliação. Chega de improviso. Basta.

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