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	<title>Cultura e Mercado &#124; Para quem vive de cultura. &#187; Almandrade</title>
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		<title>Cultura e Mercado | Para quem vive de cultura.</title>
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		<title>Cultura dos editais &#8211; O remédio amargo dos artistas</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 01:36:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes com míseros recursos que ficamos até sem saber, quando deparamos com baldes e bacias nessas instituições, se são para amparar a pingueira do telhado ou se trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas. O que interessa na politica cultural nem sempre é a arte e a cultura, e sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea faz-se qualquer coisa que dê visibilidade.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/crystiancruz/" target="_blank"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-30433" title="Foto: Crystian Cruz" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/11/4263342773_1e7f5748b3_m-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tanto editais neste País, como atualmente, para no fim fazer da arte um suplemento cultural, o bolo da noiva na festa de casamento. Na fala do filósofo alemão Theodor Adorno: “As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão e ao pensamento não são obras de arte”. Do ponto de vista da reflexão, do pensamento e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados centros culturais, nos últimos anos. Com vaidade de supermercado, na maioria das vezes eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo de validade, para estimular o consumo vetor de aquecimento da economia. A qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.</p>
<p>Esses editais que bancam a cultura são iniciativas que vem ganhando força. Mostram ser um processo de seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem vendido na mídia, como um método de democratizar o acesso e a distribuição de recursos para as práticas culturais. Mas nem tão democrático assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não é a solução, é possível funcionar também, como escudo para dissimular responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio cultural. Considerando-se ainda a contratação de consultorias, funcionários, despesas de divulgação, inscrição, o trabalho árduo e apressado de seleção , é um custo considerável, em último caso, gera serviços e renda.</p>
<p>O artista contemporâneo deixa de ser artista para ser proponente, empresário cultural, captador de recursos, um especialista na área de elaboração de projeto, com conhecimentos indispensáveis de processo público e interpretação de leis. Dedica grande parte de seu tempo nesse processo burocrático de elaboração e execução de projeto, prestação de contas, contaminado pela lógica do marketing, incompatível para o artista que aposta na arte como uma opção de vida e meio de conhecimento que exige uma dedicação exclusiva. Ou então, ele fica à mercê de uma produtora cultural, para quem essa política de editais e fomento à cultura é um excelente negócio.</p>
<p>Uma coisa é preocupante, se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde. Imaginem uma seleção pública para pacientes do Sistema Único de Saúde que necessitam de procedimentos médicos, os que não forem democraticamente contemplados, teriam que apelar para a providência divina, já engarrafada com a demanda de tantos pedidos. Nem é bom imaginar. Que esta praga fique restrita nos limites da esfera cultural, pelo menos é uma torneira que sempre se abre para atender parte de uma superpopulação de artistas / proponentes pedintes.</p>
<p>O artista, cada vez mais, é um técnico passivo com direito a diploma de bem comportado em preenchimento de formulário, e seu produto relegado ao controle dos burocratas do Estado e aos executivos de marketing das grandes empresas. Se o projeto é bem apresentado com boa justificativa de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado, mediano, não importa. O que importa é a formatação, a objetividade do orçamento, a clareza das etapas e a visibilidade, o produto final é o acessório do projeto. Claro, existem as exceções.</p>
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		<title>Cultura: do pensamento para o entretenimento</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Oct 2011 03:15:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/jakecaptive/" target="_blank"><img class="alignleft size-full wp-image-30004" title="Foto: jakecaptive" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/10/3205277810_8283a3e4b5_m.jpg" alt="" width="240" height="160" /></a>O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.</p>
<p>Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.</p>
<p>Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.</p>
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		<title>Museu, memória e patrimônio</title>
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		<pubDate>Tue, 17 May 2011 19:50:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
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		<category><![CDATA[museu]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Originário do ato de colecionar e preservar, os museus chegaram ao século XXI como instituições indispensáveis à vida e à memória das comunidades, pelo menos em teoria. Inseridos na vida das cidades e amparados por políticas públicas de cultura, muito bem argumentadas no papel, mas sem atrativos para atrair o grande público que prefere o espetáculo dos shoppings ou o paraíso dos templos evangélicos, que oferecem muito mais em troca de um pequeno dízimo: a memória do futuro, a esperança de vida eterna.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/alighieridante/" target="_blank"><img class="alignleft size-full wp-image-24482" title="Foto: Dante Alighieri" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/05/2380630679_9e3d961bc8_m.jpg" alt="" width="240" height="180" /></a>Precisamos do bom humor para falar de museu, como no personagem do romance “O Nome da Rosa”. Hoje em dia, no Brasil, em particular na Bahia, falar de museu, e nunca se falou tanto, corre-se o risco de cair no discurso da reserva de mercado. Museus para que e para quem? Fala-se em democratização e facilidade de acesso, mas campanhas publicitárias são dirigidas para a divulgação de atividades reservadas aos profissionais da área em detrimento de programas educativos para formação de público. Como patrimônio público, qualquer cidadão tem direito de entrar no museu e ver o que tem dentro dele. Mas é preciso despertar o desejo de ver, de conhecer, de mergulhar na memória nele depositada.</p>
<p>Precisa-se que alguma coisa seja previamente dada para provocar o olhar, o pensar e produzir conhecimento. Poucos são seduzidos pelo desconhecido, nem se produz conhecimento sem olhar o passado. “Não se inventa idéias sem retificar o passado”, (Bacherlard). Museu e Memória, um tema para se pensar a reafirmação e a transformação da cultura e da arte.  É um direito da comunidade, conhecer e refletir sobre o passado, o presente e o futuro, e decidir sobre a memória que deseja preservar.</p>
<p>Perdemos as referências do absoluto, e estamos às voltas com a pluralidade. A memória como a realidade é construída em função de interesses, paixões e desejos, e o que resulta, não é absoluto ou universal. Cada um vê o que está no museu como lhe convém, da mesma forma que coisas, objetos e linguagens chegaram ao museu por interesses e critérios que não são absolutos nem indiscutíveis. Mas nem por isso deixam de ser um patrimônio à espera do olhar clínico e crítico.</p>
<p>Os museus se modernizaram conceitualmente, ressaltando sua importância para a sociedade e o direito à memória. Os de arte, a partir da década de 1960, foram ideologicamente questionados pelas vanguardas artísticas, como o Minimalismo, a Arte Conceitual e a arte contemporânea, mas sua estrutura não foi abalada, ao contrário; foi reforçada. A autenticidade das experiências artísticas depende da legitimação do museu.</p>
<p>Falar de museu de arte no Brasil é difícil não lembrar Mário Pedrosa. Vejam a atualidade de seu pensamento, no texto “Arte Experimental e Museus”, publicado em 1960: “Diferente do antigo museu, do museu tradicional que guarda, em suas salas as obras primas do passado, o de hoje é, sobretudo, uma casa de experiências. É um paralaboratório. É dentro dele que se pode compreender o que se chama de arte experimental, de invenção.” Esse lugar de experiências é também ocupado por um acervo, é um lugar privilegiado do pensamento, da crítica e do lazer criativo para uma apropriação consciente do patrimônio.</p>
<p>Um museu não é uma instituição de eventos culturais, o que nele é exposto não deve ser uma experiência isolada de uma política pública de cultura, sem a responsabilidade de um conselho curador, formado por especialistas da área. O gestor deve ser uma espécie de maestro que rege uma orquestra de intelectuais, críticos e técnicos especializados, para desenvolver enunciados para ser praticados e estabelecer relações mais estreitas com a comunidade.</p>
<p>Dentro de uma cidade existem várias cidades, habitam várias culturas e várias linguagens artísticas, algumas até contraditórias. O museu, em particular o de arte, no seu acervo e na sua programação, deve refletir essa pluralidade, porque ele não é o lugar da exclusão, e sim; do confronto, do diálogo com diferentes manifestações, compatível com a sua função e sua especificidade. Ele guarda uma história, e sem o conhecimento da história, a experiência vira entretenimento.</p>
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		<title>A irrealidade da arte contemporânea</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Feb 2011 16:43:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A crise não afeta apenas  a arte contemporânea, a produção de novas obras de arte: se a arte não continuar, tudo aquilo que resta da arte do passado e que constitui ainda hoje uma parte ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>A crise não afeta apenas  a arte contemporânea, a produção de novas obras de arte: se a arte não continuar, tudo aquilo que resta da arte do passado e que constitui ainda hoje uma parte notável do ambiente material da vida, perderá todo o valor e acabará por ser abandonado e destruído. &#8211; (Giulio Carlo Argan)</p></blockquote>
<p><a href="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/02/1971720448_3d925f368f_m.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-21657" title="Foto: Davidaola" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/02/1971720448_3d925f368f_m.jpg" alt="" width="240" height="180" /></a>Todo trabalho cultural requer um mínimo de compromisso com uma determinada forma ou sistema de saber. O objeto artístico é resultado de uma pesquisa especializada para interrogar a própria natureza da arte. É inútil o trabalho do olhar debruçado na incerteza de uma definição de arte, perdido na impossibilidade de uma verdade definitiva.</p>
<p>Estranha, a obra de arte é aquilo que é reconhecido como manifestação de um saber. Uma aventura imprevisível, um jogo sem fim, com regras sendo inventadas a todo momento, sem ganhador nem perdedor.</p>
<p>A arte está sempre nos propondo mais problemas que soluções. Uma relação de tensão e desconfiança passou a reger a arte contemporânea, pela sua condição de ser provocativa e recusar a contemplação passiva.</p>
<p>Com a modernidade e suas vanguardas, principalmente Marcel Duchamp, a arte passou a ser qualquer coisa deslocada para o circuito da arte. Um objeto/lugar de um pensamento ou de uma idéia, independente do verniz textual e da autorização de um curador. O artista era um pensador, tinha uma atitude crítica. A produção do belo era a transformação de uma matéria-prima em produto simbólico, segundo a razão e a sensibilidade de um artista que dominava um saber, porque a arte não era um acidente diante da razão. Nos anos 70, no império da arte conceitual, fazer qualquer coisa arte era dominar uma teoria, se posicionar de forma consciente no universo da arte, da sociedade e da cultura de uma maneira geral.</p>
<p>O processo de inventar o objeto estético deteriorou-se com a facilidade e a rotina de um fazer mecânico que se repete sem o hábito da reflexão. Duchamp, quando inventou o readymade tinha consciência da armadilha da facilidade: “Logo percebi o perigo de repetir indiscriminadamente esta forma de expressão e decidi limitar a produção de readymades a uns poucos por ano.”  O tempo da arte parece condenado com o descrédito dos paradigmas que norteiam a arte contemporânea. O artista precisa conhecer o seu ofício, é indispensável ter referências, na arte acadêmica o artista dominava um conhecimento que era o artesanato, a técnica, o saber das mãos. As chamadas novas linguagens e os novos suportes utilizados sem a precisão do raciocínio, são inovações duvidosas, muitas vezes, aquém dos suportes tradicionais. Num cômodo deslize, um estilo fácil dominou a contemporaneidade, como se a arte fosse um clichê, uma moda, ou um evento para o entretenimento de um público.</p>
<p>A obra de arte passou a ser secundária. E quem decide é o curador, o marchand, o cronista social ou o produtor cultural. A hegemonia do mercado foi acompanhada do aparecimento do curador em lugar do crítico, do produtor cultural e depois as leis de incentivo a cultura.</p>
<p>O objeto deslocado do contexto de origem, por determinação de um artista, é sustentado pela “teoria” imaginária de um curador. Dessa forma a arte como produto de um conhecimento específico deixa de existir. Por outro lado, esse suporte teórico é incapaz de fazer uma leitura crítica desse sucateado trabalho de arte e situá-lo no seu devido lugar cultural.</p>
<p>Um fluxo descontrolado de produtos artísticos deixa de ser uma surpresa. A imagem da arte não é um fragmento do mundo sensível destinado a ornamentar uma experiência mundana; mas um esquema de ordenamento do espaço plástico, a partir de um modelo abstrato de pensamento. Essa qualquer coisa chamada arte, que se utiliza de fáceis e limitados procedimentos, faz da arte contemporânea um estilo simulador de complexidades, cada vez mais incentivada pelos salões, pelo mercado e pela crítica inventada pela indústria cultural.</p>
<p>A arte contemporânea, recalcada nos anos 70, ficou na moda, faz parte do cotidiano dos atuais salões de arte. O belo é, para os novos especialistas da arte, a negação do pensamento, uma brincadeira da sociedade do espetáculo. A arte foi confinada a um campo restrito de experimentação, que tem como referência a tradição da facilidade. Os salões estão de cara nova, mas continuam com o mesmo modelo de seleção e premiação, o mesmo processo burocrático de outros tempos, que reforça a idéia de cultura como uma superstição, e não algo real.</p>
<p>No momento em que a diluição e a facilidade são as regras do fazer artístico, a reflexão cessa, a arte deixa de ser saber e passa a ser acessório de um lazer cultural. A ausência de estilo converteu-se num estilo inculto e inseriu o contemporâneo na periferia da cultura, protegida  pela publicidade do olhar do espetáculo.</p>
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		<title>A política cultural e os museus</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Feb 2011 02:34:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A carta dos profissionais de museus ao Secretário de Cultura da Bahia, me fez lembrar a crítica do carioca Wilson Coutinho: “Depois que happenings e performances deixaram de ser engraçados, a instalação ocupou, até na ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A carta dos profissionais de museus ao Secretário de Cultura da Bahia, me fez lembrar a crítica do carioca Wilson Coutinho: “Depois que happenings e performances deixaram de ser engraçados, a instalação ocupou, até na maioria dos casos, a nova forma populista de exibição: mexe-se nela, anda-se, escuta-se barulhinhos, morde-se alguma coisa, sente-se o vento, somos obrigados a andar descalços, etc. o que tornou os museus e centros culturais verdadeiros playgrounds para alegrar o adulto idiotizado e a criança criativa”. Estamos falando de um museu específico, o de arte. Se ele é o espelho de uma produção cultural, em tal contexto, reflete o narcisismo do espetáculo, em detrimento do ponto de vista da reflexão.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/30338684@N04/" target="_blank"><img class="alignleft size-full wp-image-21389" title="Foto: grleal" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/02/4007382577_91e458cc07_m.jpg" alt="" width="240" height="160" /></a>A partir das décadas de 1980 e 90, foram criados centros culturais e museus, em quase todo o mundo, sem se saber ao certo o que colocar neles. Surgiu também uma nova profissão na arte: “a sua excelência, o curador&#8230; Os museus tornaram-se espetáculos que pouco importa o que se mete dentro deles&#8230;” (Coutinho). Como se não bastasse tudo isso, com algumas exceções, Tem-se a impressão de que o coquetel e presença de celebridades registradas nas colunas sociais são mais importante que a exposição.</p>
<p>Perdão aos profissionais de museus, por meter a colher onde não deveria, por entrar numa discussão que não é mais da especialidade e da responsabilidade do artista plástico, mas a minha intenção política não tem outro significado, senão contribuir para o debate. O fato é que, na década de 1970, quando iniciamos o nosso  percurso na arte, descendentes da arte conceitual, tínhamos o museu, como um lugar de atuação e discussão, os mais politizados, até falavam de suas propostas artísticas, como intervenções materialistas na instituição ou no circuito de arte. Também não havia lei de reserva de mercado. Hoje, o artista vive à margem da república museal, também pudera, ele perdeu a consciência crítica e o discurso, passou a ser um produtor de obras voláteis, o verdadeiro bobinho da corte para animar platéias com pouco raciocínio.</p>
<p>A salvaguarda fica ainda comprometida, quando é o próprio artista que despreza o acervo do museu, seu material de trabalho e reflexão, ele esqueceu a lição de Cézanne que passava tardes no Louvre, contemplando a tradição para dar um passo adiante na modernidade. Sem ter o mínimo trabalho de olhar, declaram-se artistas talentosos nos sites de relacionamentos, para o K K K da platéia de amigos. O pior é que esse culto à ignorância é uma praga que está contaminando parte da chamada arte contemporânea, agentes do circuito, e até defensores de uma política cultural. Nessa confusão, o melhor gestor é aquele que faz mais festas, mais vernissages, que trás para a província novidades que já ocorreram em outros tempos, para atender outros interesses.</p>
<p>Os artistas visuais não chegaram a viabilizar um processo de discussão acerca de uma política para as artes, alguns arriscaram acusações, mas sem apresentar as provas. Difícil condenar o inimigo. É preciso pensar a realidade museológica e as artes visuais na Bahia.. Se os artistas não articularam nenhum discurso, nem fizeram propostas, se limitaram a reivindicações, os museólogos foram mais espertos, aparelhados com a Política Nacional de Museus, acenderam a fogueira. Resta saber se a lenha vai realmente pegar fogo. Não adianta só o vento soprar, a lenha precisa estar seca.</p>
<p>Os museus passaram por reformas significativas nos últimos anos, ganharam prestígios e são considerados instituições culturais referência da cidade contemporânea. Surgiu até a indústria de museus, que atua mais a serviço do entretenimento e do turismo do que da memória, da história e do exercício da cidadania, mas capaz de movimentar a economia. Essa difícil conciliação cultura e economia que ocupa cada vez mais centro das atenções.</p>
<p>Em salvador, os museus são instalações arquitetônicas adaptadas, muitas que não atendem mais as condições exigidas de guarda e conservação do acervo, outras em condições estupidamente precárias, contrárias a tudo que recomenda as necessidades e política de museus. Temos a política, mas não temos onde aplicá-la. Será que adianta ensinar a criança a lavar as mãos antes das refeições, se em casa a água é escassa? Vamos acreditar que sim, um dia ela vai ser crescer, perceber a riqueza da água e lutar para reverter essa situação.</p>
<p>Na segunda metade da década de 1980, quando ocupamos o Departamento de Museus da Fundação Cultural do Estado, tendo à frente o artista plástico Zivé Giudice, defendemos a transferência do Museu da Arte Moderna do Solar do Unhão para uma edificação que atendesse às exigências da museologia, em área da cidade de fácil acesso e com um partido arquitetônico de visibilidade moderna. Fomos vencidos. Readaptado para as condições de museu, a arquitetura do Solar do Unhão foi comprometida, a escada projetada pela arquiteta Lina Bardi que dialogava com o exterior através das esquadrias, ficou estrangulada. Com poucos recursos, sem vontade política e principalmente sem vontade intelectual, os museus sobrevivem na capital da festa.<em> </em></p>
<p><em>*Publicado originalmente no jornal A Tarde</em></p>
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		<title>Cultura: do pensamento para o entretenimento</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 11:09:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/jeffbelmonte/" target="_blank"><img class="alignleft size-full wp-image-21513" title="Foto: Jeff Belmonte" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2011/02/2936464028_29945062ce_m.jpg" alt="" width="240" height="180" /></a>O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.</p>
<p>Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.</p>
<p>Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.</p>
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		<title>O retorno e a dúvida da poesia</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 15:20:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A poesia é um conhecimento à parte da razão tecnocrata que rege a sociedade contemporânea, hoje em dia, o homem se defronta com outras oportunidades de linguagens, outros conhecimentos, que deixou de lado o hábito da leitura, principalmente a leitura de poesias. Diante da informática, da música popular, do discurso político, não há lugar para a poesia.<span id="more-13915"></span></p>
<p>Mas de repente um surto de poesia tomou conta da cidade, saraus, recitais, debates, publicações, vão se espalhando e ocupando pequenos espaços nos centros urbanos, bares, cafés, bibliotecas. Páginas na internet. Parece que a poesia voltou a fazer parte da cidade.</p>
<p>Mais uma ilustração da crise da linguagem, do pensar e da cidadania? Afinal de contas, poesia passou a ser tudo que alguém escreve movido por uma &#8220;inspiração&#8221;, uma revolta, uma paixão, um discurso livre e aleatório, como: a frase da mesa do bar, o bilhete da namorada, o discurso de protesto, etc. O poeta que já foi expulso da cidade, volta ao cenário urbano na condição de sintoma da cidade grande.</p>
<p><strong>A poesia e a cidade<br />
</strong>&#8220;Os poetas nos ajudarão a descobrir em nós uma alegria tão expressiva ao contemplar as coisas que às vezes viveremos, diante de um objeto próximo, o engrandecimento de nosso espaço íntimo&#8221;. (Bachelard)</p>
<p>Desde quando a cidade é objeto de trabalho de especialista, ela passou a ser um corpo fragmentado e perdeu sua geografia poética. Primeiro foram os filósofos que expulsaram os poetas de sua república, depois foram os técnicos que destronaram a filosofia.</p>
<p>Custou caro ao filósofo aceitar que o saber foi uma invenção do poeta, que a eternidade da Grécia se deve primeiramente a um Homero e depois a um Platão. Nessa mudança de século, a filosofia acabou ressuscitando um Sócrates arrependido, solicitando do poeta seu retorno à polis . Pudera, em épocas de crise sempre se apela para o poeta, ele que nada sabe, foi adivinho do passado e é livre para falar de suas emoções. Mas ele nada pode resolver com relação aos equívocos dos especialistas do urbano, a não ser restaurar a poesia perdida.</p>
<p>A cidade de políticos e de técnicos tem problemas mais urgentes, para se preocupar com a poesia. Acreditava-se que a tecnologia era uma solução universal, mas se mantêm longe de dar respostas às demandas de habitação, segurança, transporte e educação. Não se canta mais a cidade, fala-se para lamentar seus problemas.</p>
<p>A cidade precisa da poética e do pensamento. Quem se ocupa de conceitos sabe, sem negar a importância da tecnologia, que a cidade atualmente precisa mais do exercício da cidadania e das idéias, do que intervenções técnicas sem uma compreensão mais ampla dos seus problemas.</p>
<p>As cidades modernas se ressentem da carência de uma nova idéia de planejamento urbano que não a veja exclusivamente como o cenário do mercado de trabalho. Pois a imagem urbana não se restringe àquilo que a percepção capta, é muito mais o que a imaginação inventa com a liberdade poética. As musas sabem que o poeta não vai salvar a cidade, mas ele é quem lida com a fantasia e o devaneio, indispensáveis para o sonho de uma outra expectativa de vida urbana.</p>
<p>A poesia e a lógica da linguagem<br />
&#8220;A poesia é uma arte da linguagem; certas combinações de palavras podem produzir uma emoção que outras não produzem, e que denominamos poética&#8221;. (Valery)</p>
<p>O poeta vive num canteiro de obras. A musa, o acaso, a razão, o sentimento, os pensamentos abstratos são matérias primas para a sua poesia. Ele produz a partir da leitura de textos alheios, articulando idéias e costurando a linguagem.</p>
<p>A poesia é um trabalho que exige de quem faz uma quantidade de reflexões, de decisões, de escolhas e de combinações. As leituras e as experiências modificam a escrita, as palavras não são totalmente espontâneas, como nas pinturas de um Pollock, há um trabalho e um cálculo da escrita.</p>
<p>A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular. A linguagem cotidiana desaparece ao ser vivida, é substituída por um sentido. A poesia não, ela é feita expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser.</p>
<p>Numa época marcada pelo desaparecimento do durável, transmutação rápida dos valores, sem tradição poética, a poesia retorna como um lugar de experiências contraditórias, para atender uma necessidade de lazer e divertimento, do que uma vontade de saber.</p>
<p>Os saraus, recitais e debates têm mostrado uma ausência de uma percepção mais ampla das contradições da cultura, particularmente da literatura. A poesia que já participou como protagonista nos movimentos de vanguarda nos anos 20 e 50/60, reaparece na cena urbana deslocada de sua materialidade para falar de aparências e emoções.</p>
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		<title>Museu, novo espaço de consumo</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Sep 2009 01:28:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[MERCADO]]></category>
		<category><![CDATA[museu]]></category>

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Os museus como diria Walter Benjamim “espaços que suscitam sonhos” e as atividades museológicas, nos últimos anos, passaram por transformações conceituais, ganharam importância e complexidade, entraram no século XXI como a instituição cultural, por excelência, ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-9865" title="Foto: Laughing Squid" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2009/09/laughingsquid.jpg" alt="Foto: Laughing Squid" width="580" height="431" /><br />
Os museus como diria Walter Benjamim “espaços que suscitam sonhos” e as atividades museológicas, nos últimos anos, passaram por transformações conceituais, ganharam importância e complexidade, entraram no século XXI como a instituição cultural, por excelência, da cidade contemporânea. <span id="more-9864"></span></p>
<p>Nos grandes centros urbanos do mundo, aquele lugar ocupado pela igreja, desejado pelo teatro há algum tempo atrás, é hoje disputado pelo museu. Criou-se uma cultura de consumo do museu, paralelo ao retorno de um desejo reprimido de ocupar o antigo centro da cidade, abandonado pela sua incompatibilidade com determinado modelo de publicidade de consumo do espaço urbano.</p>
<p>O consumo e sua publicidade são veículos de intermediação e convivência social do mundo moderno com base no sistema de trocas da economia. Os novos museus fazem uma publicidade positiva da visibilidade cultural das cidades. São centros culturais onde o visitante encontra pequenos bens de consumo, livraria, loja de suvenir, café, bar, área de lazer, uma diversidade de atividades que ativam e satisfazem o desejo do consumidor familiarizado com o paraíso dos shoppings.</p>
<p>A criação de espaços museológicos, como instituições que respondem à necessidade de exibir a produção simbólica que representa o desenvolvimento econômico e comercial, acompanha os movimentos de expansão urbana e de concentração do capital. Paris no século XIX foi a capital da arte, o berço dourado das vanguardas artísticas que encantaram a modernidade. Após a segunda guerra mundial, Nova Yorque e o investimento americano em instituições museológicas, mais acessíveis à guarda da memória, estimuladora de novidades e formação de coleções, entre outras iniciativas, assumiu a liderança de centro mundial da arte contemporânea.</p>
<p>Em vários aspectos, os museus vêm contribuindo para a revitalização do centro da cidade e o desenvolvimento da sociedade, como um espaço de inclusão social e estimulador do exercício da cidadania. Em centros urbanos mais desenvolvidos as visitas aos museus são atividades rotineiras que fazem parte de uma política de educação e entretenimento, presente até nos roteiros de viagens das companhias de turismo. Em países do primeiro mundo houve, recentemente, um crescimento, ou melhor, um surto de criação de museus como um bem cultural integrado na vida da cidade capaz de contribuir com a melhoria da imagem e do uso da área onde está inserido.</p>
<p>Na paisagem urbana, os museus se destacam como instituições facilitadoras do desenvolvimento cultural e educacional, um espaço privilegiado de produção e reprodução de conhecimento a serviço do pensamento crítico da sociedade e sua história. Sua localização na malha urbana é fundamental para permitir a liberdade de acesso do público consumidor de arte, cultura e lazer.</p>
<p>Pelo menos em teoria, os objetivos dos museus contemplam educação, entretenimento, informação e inclusão social. Os objetos expostos num museu permitem ao público apreender e vivenciar experiências não somente intelectuais como também emocionais. Alocados em prédios apropriados para as funções que exercem, a arquitetura e as novas tecnologias disponíveis evoluíram nos últimos trinta anos. Para cada tipologia de acervo, equipamentos e projetos específicos de mobiliário, climatização e iluminação determinam a situação física e ambiental desses empreendimentos museográficos. Condições técnicas que satisfazem às demandas de guarda e exibição de objetos que integram um acervo foram desenvolvidas, pressionados pela nova ciência museológica.</p>
<p>Decorrentes de todas essas transformações do conceito de museu e consequentemente sua visibilidade, suas atividades culturais exercem importante papel na economia e na credibilidade da imagem de uma cidade. Muito mais do que um lugar de acondicionamento e exposição de coisas e objetos de valor histórico, artístico, cultural, religioso e também comercial, é função dessa instituição divulgar ou democratizar conhecimentos à sociedade.</p>
<p>Além da importância no sistema cultural, os museus estão inseridos com sua arquitetura imponente na paisagem da cidade e passou a ser um referencial do entorno. No Brasil, se destacam dois exemplos internacionais da arquitetura moderna de museus, o edifício do Museu de Arte de São Paulo, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi e edifício do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, projeto do arquiteto Afonso Eduardo Reidy. Além de marcos da arquitetura moderna brasileira, projetados na década de 1950, eles interagem com o entorno e a comunidade. A relação com o espaço em que está inserido seu significado simbólico para a população são questões que ultrapassam o discurso arquitetônico e mostram a dimensão pública da arquitetura de museus na contemporaneidade.</p>
<p>Na Bahia, praticamente não se investiu na edificação de museus, estes estão alocados em edificações adaptadas. Um desafio cada vez mais difícil de enfrentar, com as recentes exigências da museologia, o de conciliar a arquitetura histórica com a intervenção interna, mesclar a preservação do antigo com as exigências contemporâneas indispensáveis à instalação de um museu. E sem uma política pública que provoque demandas sociais efetivas de mais acesso aos bens culturais, os museus baianos, mesmo os que dispõem de instalações razoáveis, padecem da falta de interesse do público e os recursos indispensáveis para sua manutenção dependem de tráfego de influências e favores..</p>
<p>Aliás, esse é um problema que faz parte do cotidiano dos grandes museus brasileiros.</p>
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		<title>A Bienal de São Paulo e o vazio da arte contemporânea</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 19:31:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>

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Depois que o entretenimento passou a ser um requisito de fácil utilização da arte contemporânea mais difundida, o olhar foi surpreendido pela ausência de raciocínio. A 28ª  Bienal de Arte de São Paulo está vazia ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-5563" title="Foto: Antonio Carlos Castejón" src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-content/uploads/2008/12/antoniocarloscastejon.jpg" alt="" width="450" height="300" /><br />
Depois que o entretenimento passou a ser um requisito de fácil utilização da arte contemporânea mais difundida, o olhar foi surpreendido pela ausência de raciocínio. A 28ª  Bienal de Arte de São Paulo está vazia de obras e idéias.<span id="more-5535"></span></p>
<p>Difícil até de fotografar como constata o fotógrafo Thomas Milz ao fazer uma viagem com sua câmara fotográfica no prédio projetado por Oscar Niemeyer e terminou registrando a euforia e a disputa do público para escorregar no tobogã, instalado nas dependências do prédio. Uma obra de arte? Uma diversão? Pouco importa.</p>
<p>Fazemos parte de uma civilização sem tempo para se dedicar ao pensamento, irremediavelmente contaminada pela carência de lazer. Uma cultura do efêmero.</p>
<p>Para o público viciado no espetáculo do consumo, visitar a 28ª Bienal é mais uma diversão, um lugar do flerte e da ociosidade, um ponto de encontro para se falar de recessão, da crise financeira global, do carro novo, de tudo, menos de arte. As bienais de arte perderam a credibilidade, há muito tempo. Nessa mostra a arte é um adjetivo substituível na frase. O que interessa é a ilusão da praça protegida que não existe mais na cidade. Destruída de seus valores e funções, a cidade é selvagem, recuperar a convivência com o outro, com o desconhecido, o espaço social, é um desafio e uma necessidade, mas não é a função principal da arte.</p>
<p>A obra de arte já não é mais o atrativo do espetáculo, diante da importância exacerbada do patrocinador e do curador. O artista passa quase despercebido e a obra é um simulacro. O marketing do produto é mais importante que o próprio produto.</p>
<p>A idéia de arte, que vem desde a renascença como saber autônomo, foi substituída por mais um produto de consumo, condicionado à indústria da moda e aos agentes externos que ditam as regras do circuito de arte. O público geralmente consome qualquer coisa. Na condição contemporânea de articulação social, a arte foi reduzida a acessório, como mostra esta bienal, de aproximação das pessoas com a cidade. Uma cidade da especulação imobiliária e da economia do metro quadrado, com uma arquitetura sem poesia, esvaziada de sentido, ameaçada por todos os tipos de violências e medos. Medo até de consumir o que não está na moda. Uma cidade destruída de valores, deserta e entulhada de imagens.</p>
<p>Diante dos pilotis do prédio de Oscar Niemeyer, observamos a perspectiva do espaço celebrado pela fotografia, uma pergunta ou uma dúvida: Será que esta bienal quer estimular um questionamento sobre o vazio da arte e da vida moderna de uma civilização utilitária e frívola? Não sabemos ao certo. A obra do arquiteto é que ficou visível. Um monumento ao vazio para reverenciar ou ironizar a racionalidade e a objetividade da arquitetura moderna.</p>
<p>O olhar atendo do fotografo testemunha a relação do espectador com a solenidade do espaço, a indiferença com a arte. A sensação era a mesma de estar num shopping center.</p>
<p>Mesmo quando avistamos manifestações que a curadoria e o contexto determinaram como obra de arte, não experimentamos nenhum estado de desejo, o olhar permanece alheio ao que ver. Será que estamos em crise? Do consumo de arte à relação amorosa não sabemos mais onde colocar o desejo. As responsabilidades são negociadas, trocadas. A ética deixada de lado. No meio de arte, quem decide o Ministério da Cultura ou a Petrobras? Por exemplo. Para que serve uma mostra de arte desse porte? É uma boa pergunta depois de uma visita à 28ª Bienal de São Paulo.</p>
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		<title>O museu e sua função cultural</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 15:24:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[museu]]></category>
		<category><![CDATA[visuais]]></category>

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		<description><![CDATA[O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória, colecionando artefatos. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemunhas oculares, textos, enfim documentos. Quando se defronta com ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória, colecionando artefatos. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemunhas oculares, textos, enfim documentos. Quando se defronta com a coleção de imagens e objetos, particularidades da vida social, signos que habitam um museu, caverna moderna onde o homem urbano fixa nas paredes os enigmas de sua passagem no tempo ou no mundo. Com isso, não quero dizer que o museu é um caminho em direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente e futuro. Olhar o passado é “estabelecer uma continuidade entre o que aparentemente deixou de ser e o que ainda vai ser”, (Frederico Morais). <span id="more-4256"></span></p>
<p>Um abrigo do velho e do novo. Mas do que uma instituição de festas e inaugurações de exposições, ele tem um papel cultural importante, além, abrigar os registros do tempo, manifestações culturais de uma região, país ou de um determinado povo, objetos que testemunham o trabalho humano, é um veículo a serviço do conhecimento, da educação e da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Os museus são instituições com tipologias diferentes que guardam acervos, peças integrantes da memória cultural de uma cidade, de um país. O ato de colecionar foi uma das ações que estimulou o seu surgimento e a própria coleção vai educando o olhar, impondo exigências, critérios, qualidades, exigindo espaços adequados, etc. e a necessidade de ser vista. Vai se constituindo num patrimônio que precisa ser preservado. Seu destino é o museu.</p>
<p>2006 é o ano nacional de museus determinado pelo Ministério da Cultura. Como pensar os museus e sua função cultural nos tempos difíceis que estamos vivendo? Eles passam por problemas como: falta de recursos, de profissionais especializados, sem instalações adequadas, enfim falta uma política pública para os museus que os vejam não como dispositivos da indústria de entretenimentos. Mas se a própria universidade, o lugar da produção de conhecimento, vem perdendo a intimidade com a reflexão e se transformado numa fábrica de mão de obra especializada, o que podemos esperar de uma instituição museológica, neste contexto? Para um pré-socrático chamado Parmênides: saber é um discernir, para Sócrates e Platão (alegoria da caverna), um discernir sobre o que é real e sua sombra projetada na parede da caverna. Aprendemos com Espinosa que se não há pensamento não há liberdade. O homem é escravo do que não conhece. Esquecemos os gregos, desprezamos a filosofia e o exercício da reflexão e estamos construindo uma cultura descartável. Não há mais questão cultural em jogo, mas um jogo de interesses da sociedade do espetáculo e da indústria cultural.</p>
<p>Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço quase que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios comprometeram o funcionamento das instituições culturais. A cidade precisa de tecnologias, partidos políticos, técnicos, políticos, empresários, especialistas em áreas diversas, etc., mas acima de tudo, precisa de uma tradição cultural e do exercício da cidadania, para que ela própria signifique. Um museu guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social, uma situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural. Tudo que nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a memória e a reflexão. Sua programação não deveria ser decidida por patrocinadores que tem como objetivo final vender produtos muitas vezes até desnecessários, e circular uma imagem de que está contribuindo para o “desenvolvimento cultural”.</p>
<p>Estas instituições não são fantasmas do mundo civilizado alimentadas pelo olhar apressado das câmaras fotográficas do turista curioso ou do olhar atraente e mundano do público das vernissages. Estão a serviço do pensamento crítico da sociedade e sua história, portanto um laboratório reservado a estudos, experimentações, integrando produtores e consumidores de produtos culturais. Vinculadas a um saber especifico, que toda comunidade tem direito ao seu acesso, mas na prática são espaços restritivos do ponto de vista intelectual, principalmente em cidades sem uma “tradição cultural museográfica”.</p>
<p>Sua localização geográfica é fundamental no sentido de facilitar o acesso de estudantes, curiosos, turistas, do público em geral que lida com as diversas formas de saber. Em cidades como Salvador, um museu poderia ser um agente de contribuição na revitalização do centro da cidade, quando ele está próximo dos serviços urbanos oferecidos, como sistema de transportes coletivos e segurança. Bom para a cidade e bom para o museu. É preciso inventar soluções compatíveis e possíveis com os poucos recursos disponíveis, para garantir sua vitalidade.</p>
<p>O que é visitar um museu? O que se busca nele? Um museu é um centro de informação e reflexão, onde o homem se reencontra com as possíveis invenções da estética, a história e a memória. Seu conceito foi ampliado e renovado nos fins do século XVIII, com o advento da revolução francesa. Mas sem um projeto cultural que valorize seu próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles se transformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um lugar que atrai olhares dispersos, sem interesses culturais.</p>
<p>Sem recursos financeiros e depois que a responsabilidade cultural foi transferida para a iniciativa privada que tem como principal critério de seus patrocínios o impacto na mídia, muitos museus vêm se transformando em instituições de entretenimento para atrair grandes públicos consumidores de subprodutos culturais, quem sabe também futuros consumidores das marcas que patrocinam os seus eventos.</p>
<p>Os museus, em particular os de arte, ultrapassaram a simples função de guardar e preservar bens culturais e assumiram várias tarefas e outras funções como o ensino livre da arte, foram equipados com bibliotecas, auditórios para debates, conferências, cinemateca. Umas das principais vanguardas brasileiras na arte o “Neo-Concretismo” surgiu praticamente no curso do prof. Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As oficinas de arte Museu de Arte Moderna da Bahia vêm prestando um trabalho social e educativo na formação de artistas e público. A prática museológica tende a se ampliar e integrar o desenvolvimento urbano, seu objeto de estudo diz respeito também à paisagem urbana, ruas, praças, quarteirões. “Museu é o mundo; é a experiência cotidiana…”, (Hélio Oiticica). As cidades, principalmente as cidades históricas são espaços museográficos.</p>
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		<title>O urinol de Duchamp e a arte contemporânea</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 01:04:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[visuais]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1917, com o pseudônimo de R. Mutt, Marcel Duchamp enviou para o Salão da Associação de Artistas Independentes um urinol de louça, utilizado em sanitários masculinos, com um título sugestivo de “Fonte”. Não era o primeiro readymade (apropriação e deslocamento de objetos pré-fabricados para o meio de arte); em 1913, Duchamp já havia se utilizado de um banco de cozinha onde parafusou no assento uma roda de bicicleta. Mas foi o primeiro enviado para uma exposição. <span id="more-4213"></span></p>
<p>Noventa anos depois deste gesto irreverente que determinou praticamente o destino das artes plã¡sticas até os dias de hoje, é um momento oportuno para interrogarmos que relação existe entre Duchamp e o que estamos presenciando com designação de arte contemporânea. Aclamado como influência libertadora por uns, blasfemado por outros como influência facilitadora e catastrófica. Talvez seja muito citado e pouco entendido. Certamente, Duchamp e diversas manifestações realizadas em nome da arte não se combinam.</p>
<p>Mas do que um provocador, Duchamp era um pensador discreto. No contexto da arte moderna, a invenÇÃo do readymade é um dos gestos mais significativos. O impressionismo foi a primeira revolução na arte ao romper com a linha que contornava a figura, o cubismo realizou o rompimento definitivo com o espaço renascentista, a decomposição da figura colocou em evidência o plano, como a verdade do espaço plástico moderno. O gesto de Duchamp foi mais além, uma ruptura com uma tradição que reconhecia na técnica e na habilidade do artista a condição da obra de arte. O artista deixou de ser o sujeito que faz uma obra e passou a ser alguém que escolhe e decide o que é arte. O readymade é um objeto produzido industrialmente e proposto por um artista como objeto de arte. O artista não constrói o objeto, escolhe-o e assina.</p>
<p>Não mais dependendo da mão do artista, a arte passou a ser qualquer coisa determinada pelo poder exercido por um sujeito/artista, que age no interior de uma instituição específica capaz de legitimar seus atos. Renunciou ao saber das mãos para se constituir em uma atitude crítica, num mundo dominado pelas imagens produzidas pelos modernos meios de produção e reprodução. Fazer arte passou a ser uma forma de reflexão sobre a condição da arte na sociedade moderna, um dispositivo do pensamento e não do entretenimento como ocorre em manifestações artísticas, na situação da contemporaneidade.</p>
<p>O readymade pode ser uma espécie de paradigma da arte contemporânea, mas ao mesmo tempo é a negação do jogo de facilidades, da pressa e da repetição que contaminaram a arte, distanciando-a do pensamento. Duchamp tinha consciência do perigo de cair na facilidade, no vício e na rotina e se limitou a fazer poucos objetos de arte. Logo percebeu o risco de repetir esta forma de expressão indiscriminadamente e construiu uma obra pequena e cuidadosa.</p>
<p>Estamos atravessando uma época pobre em matéria de artes visuais, apesar do fluxo descontrolado que circula nos salões, bienais e nos centros culturais, celebrado por curadores e investidores. Vem acontecendo uma supervalorização de determinadas experiências artísticas para atender interesses externos à  natureza da arte. O artista que sempre produziu contemplando as obras do passado, hoje, ele olha para o que ainda não aconteceu: o futuro e se preocupa, muitas vezes, com questões alheias a própria arte. A cada nova tecnologia, um palpite, uma previsão, mas a arte não é uma ilustração de performance tecnológica, política ou ideológica, ela é um sistema autônomo e integrado no corpo da sociedade.</p>
<p>O gesto de Duchamp queria dar uma resposta à crise das artes artesanais na sociedade industrial e indagar o funcionamento da instituição arte, embora ele nunca tenha abandonado de fato o trabalho artesanal, como mostra o grande vidro. Foi um ponto de vista crítico frente à  arte e suas instituições. A arte é também um jogo de poderes que as operações técnicas não explicam.</p>
<p>De perto, readymade e o modelo mais difundido de arte contemporânea não se misturam.</p>
<p>Almandrade<br />
(artista plástico, poeta e arquiteto)</p>
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		<title>Cultura: do pensamento para o entretenimento</title>
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		<pubDate>Fri, 30 May 2008 15:46:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Almandrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[PONTOS DE VISTA]]></category>
		<category><![CDATA[mecenato]]></category>
		<category><![CDATA[MERCADO]]></category>
		<category><![CDATA[pensamento]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.<span id="more-4132"></span></p>
<p>O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio que substituiu o antigo mecenato reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.</p>
<p>Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo a cultura não se discute a idéia de cultura  e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios poucos profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.</p>
<p>Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como; fundações, universidades, museus, etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a   natureza da linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin).  A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.</p>
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