Cultura e Mercado

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  • Captador de recursos deve ter visão do todo e código de ética

    “Captadores de recursos da área cultural deveriam se organizar e produzir um código de ética da prática profissional que regulamentasse as suas atividades, assim como os da área social fizeram por meio da ABCR (Associacao Brasileira de Captadores de Recursos).”

    A afirmação é de Carla da Nóbrega, coordenadora de Mobilização de Recursos do escritório regional para a América Latina e Caribe da ONG Habitat for Humanity International, fundadora e membro do Conselho Consultivo da ABCR. Carla já atuou em diversas organizações que trabalham como projetos sociais e culturais e acredita que a promoção e a difusão de boas práticas éticas no setor cultural é urgente e fundamental.

    Ela diz que, em primeiro lugar, o captador de recursos deve se orientar por metas financeiras claras, desafiadoras e factíveis. Além disso, precisa conseguir realizar um bom trabalho em equipe com os implementadores do projeto e desenvolver habilidades técnicas e pessoais de planejamento, relacionamento, organização, orçamento, comunicação e a captação de recursos em si.

    “A principal dificuldade que vejo é a cobrança permanente do setor por resultados que deveriam ser compartilhados entre todos na organização. O peso da responsabilidade de captar recursos muitas vezes recai somente nos ombros do captador, o que não é uma boa prática para ninguém. Por essa razão, o captador deve desde cedo se acostumar a trabalhar sob pressão.”

    Segundo Lucimara Letelier, coordenadora do grupo de cultura da ABCR e Diretora Assistente de Artes do British Council Brasil, uma pessoa que pretende ser captadora precisa conhecer as técnicas e profissionais que já estão no mercado. “Acho importante que quem quer se tornar captador hoje esteja conectado à evolução da profissão que está acontecendo neste momento, transicionando entre o perfil que tem sido até o momento e o que está em formação”, afirma.

    Para ela, o modelo de atuação dos captadores no setor cultural no Brasil foi muito pautado pelas regras da lei Rouanet, que limita a atuação por projeto, foca em uma única fonte de recurso (empresas) e estipula um teto de remuneração associada ao sucesso da captação (“em risco”). “Este modelo acabou estimulando um perfil específico de captadores e limitando a percepção do mercado sobre o potencial de atuação deste profissional, em impactar o desenvolvimento institucional e a sustentabilidade no longo prazo das organizações culturais”, explica.

    O perfil de captação de recursos em diversas partes do mundo, conta Lucimara, está mais relacionado a estruturas internas das organizações culturais e sociais do que ao perfil terceizado e comissionado que conhecemos aqui no Brasil. Dentro desse modelo, os captadores , muitas vezes denominados “profissionais de desenvolvimento”, são parte da estratégia de longo prazo das organizações e trabalham a captação conectada às ações em todas as áreas (Marketing, Comunicação, Finanças, Programação e curadoria, etc) da instituição.

    “No Brasil, temos visto uma mudança significativa, apesar de lenta e gradual. Aos poucos as organizações culturais passam a adotar um modelo mais interno, com estratégias de captação de recursos alinhadas ao posicionamento institucional e de marca de cada instituição. Trata-se de uma mudança de cultura organizacional e de paradigmas de mercado, portanto levaremos um tempo para estabilizar esta nova realidade”, afirma.

    Para Frederico Barletta, coordenador de Sustentabilidade do Museu da Pessoa, para ser um captador de recursos tem que conhecer bem os programas e projetos da instituição, estar envolvido ou comprometido com a sua sustentabilidade a médio e longo prazo e ser capaz de traduzir para o mercado aquilo que a instituição faz e quer alcançar. “Um captador de recursos não é um vendedor simplesmente, se não estiver envolvido com a causa não consegue mobilizar outras pessoas ou construir relações. As dificuldades são enormes: temos um cultura avessa ao dinheiro, ao mecenato, etc.”

    Ele é mais um que acredita que não podemos ter uma perspectiva que privilegia somente os mecanismos de incentivo. “É preciso ir além, provocar o mercado e as pessoas para que novas formas de colaboração possam ser criadas – as redes virtuais, os sites de financiamento coletivo são exemplos disso”, afirma.

    Independentes - E quem não está ligado a uma organização? É natural que existam captadores para dar suporte a artistas e produtores, por exemplo. Segundo Lucimara, esse perfil de captador será sempre necessário para realizar uma atividade quando artistas e curadores não estiverem aptos a desempenhar sozinhos. “O modelo ideal combina profissionais dentro das estruturas organizacionais fixas das organizações, com profissionais ou empresas com equipes que atuem em áreas específicas, como captação para projetos internacionais, projetos de itinerância, projetos que envolvam uma rede ampla de parceiros ou outros temas cuja exerpertise não se encontra dentro da organização”, diz ela.

    Lucimara acredita que as soluções não são simples, porque o atual modelo está bastante enraizado, mas há um novo caminho que nasce dos aprendizados e experiência da caminhada até aqui. “Será uma mudança a longo prazo, que promete uma atuação do captador muito mais integral e significativa para o momento do mercado cultural brasileiro, que na próxima década será ainda mais globalizado, institucional e economicamente relevante”, conclui.

    Para Carla, apesar de todas as dificuldades, o que compensa neste trabalho é a capacidade que o captador tem de viabilizar ótimos projetos, que sem recursos financeiros não existiriam. Outra compensação é a demanda do mercado por bons captadores de recursos. “O bom captador nunca ficará sem emprego.”

    Curso - Para quem deseja entrar nessa área ou se aperfeiçoar para ser um bom captador – e nunca ficar sem emprego! – de 19 a 28 de junho, o Cemec promove, em São Paulo, mais uma Jornada de Captação de Recursos, uma abordagem sobre o financiamento de projetos a partir do negócio cultural.

    A Jornada de Captação de Recursos auxilia o participante a organizar fontes de financiamento, carteira de clientes, argumentação de venda, além de estruturar a comunicação, o projeto comercial e a negociação com clientes e patrocinadores. O objetivo final do curso é habilitar o participante a desenvolver um plano de captação de recursos a partir do negócio, em direção ao mercado.

    Clique aqui para ver a programação completa e se inscrever.

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    Comentários

    1. João Paulo disse:

      Pessoal, bom dia! Está muito bacana a matéria, parabéns! Abrangente e bem didática, corretíssima.

      Gostaria só de complementar a informação sobre a ABCR, dizendo que o Código de Ética que existe não é apenas para a área social, mas foi pensado para abranger todos os captadores e mobilizadores de recursos que atuam na sociedade civil, com projetos culturais, sociais, esportivos, ambientais, etc.

      Ele é inclusive curto e bem objetivo, uma ótima leitura e inspiração para quem atua na área. Quem quiser saber mais pode consultá-lo diretamente na página da ABCR, no site http://captacao.org/recursos/institucional/codigo-de-etica.

      Um grande abraço,

      João Paulo Vergueiro
      ABCR

    2. Ola,
      Obrigada JP e todos. A matéria ficou bacana… só esclarecendo que sim, o Código de ètica vale tambem para captadores da Cultura. Queremos evitar esta separação de setores social e cultural acreditando em um captador de recursos com um papel mais abrangente.
      Quando pensamos desta forma, potencializamos as oportunidades para o desenvolvimento dos captadores com impacto positivo para ambos os setores.

      A ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos, por meio do Grupo ABCR Cultura, acredita no potencial do captador com perfil institucional (interno) com atuação estratégica e integrada às demais áreas das organizações. E também entende que o mercado terá espaço para profissionais que atuem por projetos específicos, como prestadores terceirizados. Nestes casos, a ABCR estabelece um código de ética e boas práticas da profissão, e defende uma remuneração fixa para o prestador de serviços, ao invés de uma comissão com base no valor captado. Em ambas as situações – captadores internos ou terceiros – os profissionais têm acesso à capacitação e troca dentro uma rede que possibilita informações sobre práticas de mobilização de recursos para todas as fontes, intercâmbio de conhecimento entre modelagens de captação do terceiro setor (meio ambiente, educação, saúde) e o setor cultural , além de conhecimento dos modelos internacionais, expandindo horizontes e criando novas possibilidades para a captação no Brasil.

      Para fazer parte do Grupo ABCR Cultura, entre no Facebook GRUPO ABCR CULTURA : https://www.facebook.com/#!/groups/290108334418233/

      Um abraço,
      Lucimara Letelier, Coordenadora do Grupo ABCR Cultura

    3. Agradeço os esclarecimentos, João e Lucimara!

      O assunto é abrangente e nossa intenção é justamente que a matéria desperte mais reflexão e debate sobre essas questões.

      Acredito que cada um dos tópicos deste código de ética é gerador de pauta e vamos tentar, na medida da nossa capacidade de produção, abordá-las nas próximas matérias com mais profundidade.

      Abraços.
      Mônica

    4. Marcos disse:

      A questão é que a grande maioria dos grupos e artistas não tem condiçÕes financeiras de manter como equipe fixa um profissional para cuidar da parte de captação, ou pensar apenas nas estratégias a longo prazo de sustentabilidade. Mesmo entre as instituições culturais, somente as grandes têm essa condição, e ainda assim, muitas são mantidas por empresas, então não necessitam desse profissional. Então ficam dependentes dessa figura, como a matéria afirma, do captador terceirizado e comissionado, que geralmente é uma pessoa que não vai pensar o projeto de modo mais estratégico. Essa é uma lacuna do mercado que a matéria não aborda.

      E a ABCR é uma associação que atua mais na área do Terceiro Setor, ou de projetos sócio-culturais. Qualquer pessoa da área cultural que já tenha tentado entrar em contato com eles sabe disso. Não creio que sejam a memlhor referência para discutir a situação da captação dentro do cenário cultural.

      1. Marcos, as pessoas que falam nesta matéria foram procuradas por seu trabalho na área, não por sua relação com a ABCR. No entanto, por estarem ligadas à Associação, apresentaram também essa visão.
        Essa questão que você coloca é muito pertinente e também gostaríamos de abordá-la. Nossa dificuldade foi encontrar fontes reconhecidas para falar sobre o assunto, dentro do nosso deadline. Se tiver alguém para nos indicar, seria ótimo!

        Obrigada, abraços.
        Mônica

        1. Marcos disse:

          Mônica, há muitas pessoas que podem falar sobre captação de recursos para a área cultural, ou sobre a figura do captador: Yacoff Sarkovas e Sharon Hess (Significa), André Fonseca (Projecta), Lárcio Benedetti, Minom Pinho (Casa Redonda Cultural)…

          1. Obrigada pelas indicações!
            Entraremos em contato com eles para as próximas matérias. ;)

            Abraços.
            Mônica

    5. Sandra Du Valle disse:

      Excelente a matéria! E por falar em captador de recursos. Será que vc poderia me indicar alguém, Monica? Tenho um projeto aprovado pelo Minc, na lei Rouanet e estou necessitando de ajuda para encontrar patrocínio.
      Grata
      Sandra Du Valle

      1. Olá, Sandra!
        Infelizmente não conheço pessoalmente nenhum captador para lhe indicar.
        Desejo sorte com o projeto!
        Abraços.